Opinião

A coragem de Zarifa e uma mão cheia de nada?

Helena Ferro de Gouveia


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A 30 de Setembro, o ataque suicida contra as estudantes hazaras no Kaaj Educational Center, em Cabul, matou 53 raparigas que se preparavam para o exame de admissão à universidade. Como resposta ao atentado, as mulheres saíram à rua em Cabul, Herat, Mazar al Sharif, Bamiyan, Ghazni, Nangarhar e Panjshir. Desde que os talibãs voltaram ao poder, em Agosto de 2021, que elas estão na linha da frente da resistência à opressão, exigindo em protestos pacíficos igualdade, respeito pelos seus direitos, justiça e paz. A resposta aos cânticos de “pão, trabalho, liberdade” tem sido brutalidade, detenções arbitrárias de mulheres e de crianças, tortura e o desaparecimento de manifestantes.

Esta semana, Marcelo Rebelo de Sousa disse que o mundo nunca vai esquecer “a coragem da afegã Zarifa Ghafari”, que recebeu em Lisboa, na Assembleia da República, o Prémio Norte-Sul de 2021 do Conselho da Europa, juntamente com o mecanismo COVAX. Zarifa, que foi a mais jovem presidente de câmara do Afeganistão, foi forçada a escapar dos talibãs depois de lhe terem assassinado o pai e tentado, por duas vezes, matá-la a ela. Traz as cicatrizes do atentado no corpo. Perante o corpo diplomático, políticos e convidados, lembrou que as mulheres afegãs são, actualmente, “forçadas ao silêncio, privadas do direito básico à educação e forçadas a perder inteiramente a sua identidade”. E alertou ainda que no próximo Inverno se assistirá a “uma verdadeira crise humanitária” no país que já está a dar os seus primeiros passos. E não sabíamos todos, menos uns lunáticos que quiseram ver laivos de bondade em fanáticos islâmicos, que isto ia acontecer? Que os chadri ou burcas iam descer sobre as mulheres?

Os Estados Unidos e o Ocidente não aprenderam nada com a retirada de Obama do Iraque e repetiram o erro, para pior, no Afeganistão. Nada foi feito para evitar o vazio e a regressão afegã. Evidente no processo de retirada foi o desprezo pelos direitos humanos de raparigas e mulheres, conquistados nas duas últimas décadas, que Trump, como esperado, não acautelou e Biden ignorou. O destino de milhões de mulheres e meninas foi oferecido de bandeja aos talibãs e o melhor conselho que alguns, como Yanis Varoufakis, encontraram para dar às “irmãs afegãs” foi “aguentem-se aí”.

O que pode ser feito em concreto? Não bastam prémios ou reconhecimento da coragem. “É preciso pressionar os talibãs, obrigá-los a ouvir os afegãos”, diz Zarifa Ghafari. Até porque, hoje, o Afeganistão é um país com “muito mais Zarifas”, onde as mulheres “são mais de 50% das professoras e mais de 30% dos que fazem a economia funcionar”. “Eles não vão conseguir governar o país sem nós.”

Não tenhamos demasiadas ilusões de que a indignação e as manifestações de solidariedade, umas mais, outras menos genuínas, com as mulheres afegãs e iranianas, expressas nas redes sociais, tenham consequências reais. Porém, baixar os braços não é, não pode ser opção.

Mala diplomática a subir

Ursula von der Leyen

A presidente da Comissão Europeia volta a mostrar de que fibra é feita: “Eu sei que os europeus estão preocupados: preocupados com a inflação; preocupados com as suas facturas de energia; preocupados com o Inverno. A melhor resposta à chantagem de Putin com o gás é a solidariedade e a unidade europeia. Apoiaremos a Ucrânia enquanto for preciso. E protegeremos os europeus da outra guerra que Putin está a travar: a guerra contra a nossa energia.”

Mala diplomática a descer

Liz Truss

A primeira-ministra britânica esteve apenas 45 dias no cargo e anunciou a demissão em apenas 80 segundos. Cumpriu o mais curto mandato de sempre de um chefe de governo britânico. Tornou-se líder dos tories em 5 de Setembro, com 57% dos votos, derrotando Rishi Sunak na eleição interna para substituir Boris Johnson. Na origem da queda está uma crise política e económica desencadeada pela turbulência nos mercados financeiros registada após a apresentação de um “miniorçamento” em 23 de Setembro, com grandes cortes fiscais. Não sobreviveu à alface.