Opinião

A camisola amarela de Paulo Rangel

Nuno Lebreiro


No início do Verão, em plena época baixa política mais conhecida por fotografias de políticas em bikini ou políticos em tronco nu, isto sem esquecer as famosas trocas de roupa em público do Prof. Marcelo que, para sorte dos nossos olhos, este ano ficaram por aparecer, e eis senão quando as redes sociais explodiram com um vídeo insólito: Paulo Rangel, conhecido político do PSD, deputado no Parlamento Europeu e putativo candidato ao lugar do Dr. Rio, deambula aparentemente embriagado pelas ruas de Bruxelas enquanto é assediado por um bando de portugueses mal-intencionados.

As reacções não se fizeram esperar. Primeiro, na surdina dos grupos de conversação do WhatsApp pergunta-se se “será mesmo ele”, depois, no Twitter, começa-se a gozar, até que, finalmente, chegando ao Facebook, fina-se a reacção inicial das virgens ofendidas que de imediato vaticinaram a morte política do visado para eclodir um movimento orgânico de “apoio ao Rangel”. Afinal, estamos em Portugal e “quem nunca” tivesse ido para casa a cambalear que atirasse a primeira pedra.

Repentinamente, uma onda de solidariedade inundou o país: que o Dr. Rangel é pessoa como nós, que ainda bem que bebeu uns copos, só lhe fez bem, que raio de gente anda a filmar um tipo que não estava a fazer mal a ninguém, enfim, de tudo um pouco se disse e escreveu, sendo que, resumindo, a conclusão foi simples: o Dr. Rangel é um tipo porreiro, é “cá dos nossos”, isto é, ao invés de um político de cara de pau, afinal, aquele até era “um gajo normal” feito de carne e osso.

Não me parece que, em querendo e pagando, Paulo Rangel pudesse ter desejado melhor resultado numa operação de marketing político: mais notoriedade, excelente publicidade, empatia com o eleitorado, em suma, um sucesso viral como poucos na vida política portuguesa. Melhor ainda quando, e levando em conta a antiguidade do vídeo que a indumentária invernosa faz notar, se imagina facilmente a vil e perniciosa intenção por trás da sua publicação — fica a sensação de que a Justiça, coisa rara, terá sido feita ali.

Depois veio a “justificação”. Com um tweet pleno de dignidade e com a esperteza para citar Sérgio Godinho, um músico de esquerda, o Dr. Rangel saltou à vara por cima de toda a situação e sentou-se “mediaticamente” à direita do Dr. Rio, prontinho para ocupar-lhe o lugar. Sim, não duvidemos: a única coisa que se provou com o salto à vara de Rangel foi que tinha estofo para lidar com a adversidade, o que, em juntando à empatia recém-adquirida, demonstrava desde logo, assim à cabeça, duas qualidades que o outro, o Dr. Rio, manifestamente não tem: coragem e proximidade. Lançamentos de candidaturas, desses já vi muitos. Agora, uma candidatura lançada involuntariamente, em vídeo viral previamente intentado como atentado político contra aquele que, sem querer, acaba “lançado”? Dessas assumo que foi a primeira — e provavelmente será a última.

Passa o Verão e o Dr. Rangel não pára. Ele é comício de apoio a uma candidatura autárquica aqui, ele é arruada acolá, dia sim, dia não, lá está o proto-candidato Rangel em plena campanha eleitoral — quer a autárquica, quer, imagina-se, a dele. Rezam as lendas que o Dr. Rio, lá em Massarelos, nem queria acreditar no que via, ouvia e lia. Já o povo do PSD, aquele que como eu gosta do partido à Sá Carneiro, entusiasmou-se com a irreverência e, mais importante, a possibilidade: eis que do nada ou, no caso, das ruas de Bruxelas, aparece inesperadamente alguém com capacidade para resgatar o PSD do filme de terror em que está enfiado já vai para quatro anos, ou seja, e leia-se, alguém que, fruto das circunstâncias, parece reunir as condições para derrotar o Dr. Rio.

Mas a história do Verão de Rangel não ficou por aqui. Em entrevista a um programa de cariz popular, depois de assentir que sim, que gosta de uma boa tertúlia de vez em quando, com toda a naturalidade, o Paulo Rangel assume também que, apesar de ser assunto íntimo, prefere ali revelar a sua homossexualidade para que, presume-se, não sirva a dita cuja de arma de arremesso político. Porquê agora, pergunta-se, e a resposta, sincera e comovente, prende-se com a sua mãe, recém falecida e a quem a exposição pública de um assunto daquela natureza Rangel pretendeu poupar.

Mais uma vez — em pouco mais de um mês, atente-se — o Dr. Rangel saltou para a ribalta do hashtag do dia. À esquerda, rosnaram os falsos moralistas da nova moral LGBT que há gays e gays, e, sabe-se lá por que razão, o Paulo Rangel não é dos gays fixes, a modos que é assim um gay com menor dignidade que outros gays, entenda-se os de esquerda, os gays à séria. Em suma, escorregaram, como notará qualquer pessoa dotada de um mínimo de senso, no seu próprio ódio destilado para fazer figura triste em pleno palco nacional.

À direita, a coisa passou com certa indiferença, por um lado, mas, pelo outro, com uma discreta satisfação: tudo aquilo que põe a esquerda em polvorosa incoerência oferece sempre um secreto e proibido prazer. Aliás, que coisa explodiria mais com a hipocrisia moralista da esquerda identitária do que a eleição de um primeiro Primeiro-Ministro homossexual pela direita? Pois. E, de repente, Paulo Rangel finta e troca as voltas, não apenas ao Dr. Rio, mas igualmente à esquerda insuportável da nova moral e dos novos bons costumes — dois coelhos de uma cajadada só, chapeau.

Depois, de novo, a empatia gerada pela situação: o drama com a mãe, a intuída limitação política por força da sua orientação sexual, a naturalidade e paz com que aceitou tudo isso e, claro, a sinceridade que deixou transparecer em todo o relato que ofereceu ao país. No fim, contas feitas, e o Dr. Rangel voltou a transformar uma dificuldade num sucesso. Quase se imagina que, em Massarelos, alguém brada agora aos céus reclamando da má fortuna de não ter nascido nem gay nem boémio.

Chegamos a Setembro, mês autárquico e de recta final para o lançamento de candidaturas à liderança do PSD, e Paulo Rangel já vai lá à frente, destacado. Livre como nunca, de sucesso mediático em sucesso mediático, energias redobradas, e com toda a gente esperando agora apenas o anúncio formal de que pretende substituir o Dr. Rio como líder do PSD.

As suas hipóteses, francamente, parecem-me boas. Rangel compete directamente no PSD do núcleo duro de Rio: quer nos herdeiros da antiga presidência da Dra. Ferreira Leite, quer no facto de ser originário do Porto. Considerando que o Dr. Rio ganhou há dois anos a presidência a Luís Montenegro por cerca de 1%, em conseguindo Rangel roubar apoio directo ao actual presidente e unir o resto do partido em torno de si, e o desgastado Rio até é bem capaz de nem sequer se candidatar.

No entanto, unir o partido não será tarefa fácil, afinal não fez o Dr. Rio outra coisa nos últimos quatro anos além de o dividir de forma profunda, atirando uns militantes contra os outros, sempre na ânsia de reinar no meio da confusão. Unir o partido, o primeiro trabalho de Paulo Rangel, passa pois por ter a capacidade de apresentar aos militantes, portanto também ao país, um conjunto de ideias simples, concretas, coerentes com o património histórico do PSD, importantes para marcar a diferença face ao PS e, fundamental, ausentes de discurso teórico-ideológico: o PSD é a grande casa da direita, nela cabem conservadores, liberais, democratas-cristãos, social-democratas e, até, imagine-se, o Dr. Rio.

Se Paulo Rangel quiser vencer o partido terá então que, primeiro, contar com toda esta gente e, depois, conseguir juntá-los contra o adversário comum: o socialismo tentacular e pestilento do PS. Ora, isso não se faz com purismos e definições teóricas que apenas reduzem o partido e dão jeito aos nichos que com ele concorrem — como o Chega ou a IL —, mas sim com um programa que consiga agregar uma verdadeira coligação de esforços, ideias e tendências, pela positiva, para Portugal, por Portugal.

Depois, faz-se também com pessoas, coisa que no partido do Dr. Rio quase parece que não existe. Também aqui, Rangel deixa Rio a quilómetros de distância: onde o provincianismo do segundo o acantonou na sede de Massarelos, o mundo e a dimensão intelectual do primeiro, de Rangel, promete agora mente arejada e vista longa para abrir o partido a um novo tempo e a uma nova história.

Ao contrário do que o consulado de Rio faz parecer há no PSD toda uma nova geração pronta para contribuir para o país. Desde militantes esforçados a académicos inovadores, de quadros de empresas internacionais a empreendedores nacionais, tanto pessoas com vida de sucesso fora da política, como muitos outros com militância muito activa, um manancial de gente diferente, mais ou menos conhecida, que se fez representar directa ou indirectamente, por exemplo, na candidatura de Miguel Pinto Luz que, há dois anos atrás, surpreendeu com 12,2% dos votos — votos que representam, desde logo, toda uma geração que, punida pelo entusiástico apoio que ofereceu a Passos Coelho, se viu depois maltratada e acantonada pelo atávico ressentimento de Rui Rio.

Aliás, em querendo o Paulo Rangel continuar a sua pujante pedalada para a vitória, acertar as pontas com o Miguel Pinto Luz pode muito bem ser a próxima coisa a fazer. Fica a sugestão.

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