Opinião

A batalha entre a Inteligência Artificial e a Criatividade Humana

Astrid Sauer


Durante muito tempo, acreditámos que a criatividade era exclusiva da mente humana. Mas, a Inteligência Artificial (IA) está a mudar a nossa relação com a arte e a nossa perceção de beleza, literatura, música e outras artes.

Apesar da IA estar a agitar o mercado de arte já há alguns anos, foi em outubro de 2018 que a chamada “AI Gold Rush” começou verdadeiramente, quando a casa de leilões de Nova York Christie’s vendeu o “Portrait of Edmond de Belamy”, uma impressão gerada por um algoritmo no estilo de retratos europeus do século 19, por 432.500 dólares americanos.

Algoritmos, mais especificamente transferências de estilo neural (NST), são usados para criar obras de arte com base nos dados inseridos, usando redes neurais artificiais para recriar, replicar e combinar estilos para produzir pinturas, escrever poemas ou compor música.

AI foi usada para reproduzir a obra de arte mais famosa de Rembrandt van Rijn, “A Ronda da Noite”, que ficou muito desfigurada após a morte do artista, quando foi transferida do seu local original no Arquebusiers Guild Hall para a Cidade de Amsterdão em 1715. As autoridades municipais queriam colocá-la numa parede entre duas portas, mas a pintura era grande demais para caber. Em vez de encontrar outro local, cortaram grandes painéis das laterais, bem como algumas seções da parte superior e inferior. As peças que faltavam foram agora reproduzidas pelo Rijksmuseum usando inteligência artificial, comparando a pintura original de Rembrandt de 1642 com uma cópia feita por Gerrit Lundens.

Em homenagem ao 250º aniversário de Ludwig van Beethoven, a Deutsche Telekom reuniu uma equipa internacional de especialistas liderada por Matthias Röder para desenvolver uma inteligência artificial para completar o trabalho de Beethoven. Uma vez que a IA “entendeu” o estilo de Beethoven, foi usada para gerar gradualmente peças musicais, com base nos fragmentos existentes da 10ª Sinfonia. Em cada etapa do processo, as sugestões do AI foram analisadas por musicólogos, que selecionaram a escolha mais adequada, cocriando aos poucos uma sinfonia completa. A versão final da sinfonia está programada para ser apresentada este outubro em Bonn, a cidade de nascimento de Beethoven.

Com os sistemas de IA cada vez mais avançados, não tarda para que um computador possa ser usado para criar novas versões de cada gênero musical ou movimento artístico existente, indistinguíveis de peças compostas por humanos.

A capacidade da IA para criar obras de arte de forma independente é um assunto discutível. Muitos sistemas de IA não precisam de intervenção humana no processo de criação de arte, mas requerem contribuições e intervenções humanas criativas no processo de aprendizagem. Numa experiência na Art Basel, a famosa feira anual de arte contemporânea, o Prof. Ahmed Elgammal, da Universidade Rutgers, observou que a maioria das pessoas não sabia diferenciar entre a arte de IA e a arte humana real. Em 75% dos casos, as pessoas confundiram as imagens geradas por um computador com arte criada por artistas reais.

Existem, no entanto, limites para o que um computador pode fazer. Embora os algoritmos possam criar conteúdo apelativo, residem num espaço criativo consolidado e isolado, sem contexto social e preso à um conjunto de dados predefinidos. Não são capazes de integrar o zeitgeist como um ser humano, que é influenciado e inspirado por pessoas, experiências e emoções. A arte é uma condição humana, que reflete a vida.

Contudo, as potencialidades de IA para o setor criativo são indiscutíveis e vão continuar a alterar a nossa perceção da arte. Mas, como disse o professor Robert Levin, musicólogo da Universidade de Harvard: “É o lado romântico dentro de nós que quer que neguemos o valor da inteligência artificial.

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