Opinião

A anormal aceitação da violência contra as mulheres

Cristina Rodrigues


A violência contra as mulheres é tão normal, actual e presente que se sentiu necessidade de designar um dia para assinalar a urgência da Erradicação da Violência Contra as Mulheres. Erradicação esta que, infelizmente, está longe de ser concretizada. Ser mulher é, ainda nos dias de hoje, meio caminho andado para, em algum momento da sua vida, ser vítima ou de assédio, ou de importunação sexual, ou de violência doméstica ou de qualquer outro tipo de violência sexual. Não, não é exagero. Uma em cada três mulheres já sofreu algum tipo de violência física ou sexual na sua vida.

Acabar com a violência contra as mulheres beneficia todos: a sociedade em si, as mulheres em particular e os homens em geral. É importante, diria fundamental até, distanciarmo-nos dos papéis de género, desde logo, porque não correspondem já à realidade dos dias de hoje e, depois, porque são penalizadores tanto para as mulheres como para os homens e apenas perpetuam uma ideia errada do que o homem ou a mulher devem ser ou fazer.

Além desse ponto, deixo outro desafio. Ao invés de nos focarmos nas vítimas, devemos focar-nos nos agressores. Em vez de pensarmos porque é que estas mulheres saem com estes homens, porque é que não deixam os maridos se eles lhes batem, porque é que saem à noite ou se vestem de determinada forma, devemos reflectir por que razão os homens batem nas mulheres, os homens violam ou assediam as mulheres, por que razão não aceitam um não ou se sentem confortáveis para coagir outra pessoa, porque é que, mesmo quando as vítimas são homens, os agressores são, na sua esmagadora maioria, homens também? No fundo, porque é que há pessoas que usam a sua posição de poder sobre outras pessoas?

A reflexão sobre a actuação das vítimas não é correcta, leva-nos a situações de vitimização secundária e não é eficaz na prevenção deste tipo de situações. A nossa reflexão deve ser mais profunda: devemos pensar no que leva o agressor a praticar certos actos e se não o fará por considerar que são normais ou que não terão qualquer consequência. Assim, isto leva-nos necessariamente a pensar: será a nossa sociedade que fomenta certos tipos de comportamentos? A resposta é sim.

Este não é um problema apenas relativo ao comportamento de pessoas individuais. É muito mais profundo do que isso. É um problema sistémico. Há a normalização da violência contra as mulheres em várias formas, nos mais variados sectores ou actividades. Devemos também reflectir qual o papel desempenhado pelas crenças religiosas, desporto, pornografia, estrutura familiar, sistema económico, entre outras coisas, e qual o seu contributo para o estado das coisas. Só quando pensarmos nestas questões conseguiremos, de facto, prevenir a violência dos mais fortes para com os mais fracos e potenciar a ocorrência de transformações na nossa sociedade.

É verdade que nem só mulheres são vítimas e que todos os tipos de violência devem ser combatidos, mas também não podemos ignorar que a esmagadora maioria dos agressores são homens (mesmo quando as vítimas também o são) e não podemos manter ou permitir a sua invisibilidade num assunto em que têm um papel preponderante. Portanto, cabe aos homens assumir um papel mais activo na erradicação da violência. Sabemos que a maioria dos homens não são agressores (felizmente!), mas também sabemos que muitos assistem a comportamentos inadequados por parte de amigos sem nada dizer e bem sabendo que essa violência acaba por afectá-los também a eles ou alguém próximo de si.

Importa, pois, quebrar o silêncio. Os homens não são o inimigo nesta luta, mas também não podem ser meros espectadores. Devem ser verdadeiros companheiros de combate.

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