Opinião

A adaptação hedónica e a novidade como a chave para a felicidade

Tiago Mendonça


Philip Brickman e D. T. Campbell, no seu conhecido ensaio de 1971, “Hedonic Relativism and Planning the Good Society”, cunharam o termo de adaptação hedónica. Segundo esta teoria, à qual adiro, o ser humano teria sempre um nível estabilizado de felicidade na medida em que existiria um happiness set point, uma espécie de ponto de equilíbrio ao qual voltaríamos periodicamente após momentos disruptivos de elevação ou de queda do nosso nível-padrão de felicidade.

Na verdade, um vencedor do Euromilhões, após um momento de euforia, automaticamente reprograma as suas necessidades e objectivos de acordo com a sua nova disponibilidade financeira. Dessa forma, passado alguns meses – no máximo, um par de anos –, o tipo de actividades que agora pode fazer já não lhe trazem incrementos de felicidade; enfim, passaram a ser a sua rotina. Muitas pessoas, quando findam uma relação amorosa e voltam, abertamente, ao mercado, experimentam uma sensação de excitação na consumação das primeiras relações sexuais com novos parceiros, mas, à medida que o tempo vai passando, o incremento de felicidade passa a ser mais baixo até se voltar a um nível de felicidade igual ao anterior. Enfim, a primeira vez que assistimos ao jogo da nossa equipa no estádio é inesquecível. Se adquirirmos um bilhete de época e formos ver os desafios ao estádio numa base quotidiana, não temos sequer vislumbre de memória do Benfica-Paços de Ferreira da época 2019/20.

O mesmo para as sensações negativas. O fim de um casamento é apontado como a segunda sensação mais negativa que o ser humano pode sentir (apenas superada pela morte de um familiar ou amigo próximo). Mas, até tendo em conta o que referi acima, é uma situação que, podendo ser dolorosa, é transitória. O tempo vai passando e rapidamente voltamos a um nível de felicidade idêntico ao que tínhamos anteriormente.

No fundo, este mecanismo seria uma espécie de termostato que não nos permitiria ficar imenso tempo em subaquecimento ou sobreaquecimento. Claro que, não sejamos ingénuos nem cínicos, uma pessoa com mais saúde será sempre mais feliz que uma pessoa com pouca saúde. Uma pessoa com mais dinheiro pode fazer mais actividades que uma pessoa com menos dinheiro, ou seja, tem mais possibilidades de incrementar o seu nível de felicidade, pelo menos temporariamente. Mas essa apreciação de felicidade é quando fazemos uma comparação externa porque, do ponto de vista interno, não é exactamente assim.

Quando, em 2015, fiquei internado algum tempo, ao que se seguiu um período longo de convalescença e, finalmente, consegui ir viajar, fui num estado miserável. Tinha de dormir longas sestas todas as tardes, não me aguentava em pé muito tempo, estava branco como a cal e sem força para quase nada. Os outros turistas que estavam naquela cidade ao mesmo tempo que eu deveriam estar, quase todos, com muito mais saúde. Do ponto de vista “externo”, apresentariam um maior índice de felicidade. Mas, na verdade, estavam possivelmente menos felizes ou, no limite, tão felizes quanto eu. É que foi precisamente aquela viagem que marcou o meu regresso ao ponto médio de felicidade; aliás, até estava acima desse ponto médio, recuperando as semanas anteriores de maior negatividade. Foi uma sensação de felicidade até superior a outras viagens que fiz com mais saúde. Lembro-me, quando era adolescente ou até já na universidade, que quando fui à pizaria Di Casa foi um luxo. Habituado às massas do Quasi Pronti, tratava-se de um incremento de felicidade medido pelo dobro do custo do jantar. Era um acontecimento. Hoje, se for jantar a essa pizaria, não vou sentir propriamente nenhum ganho especial de felicidade. Mesmo que o pão de alho até esteja melhor.

Esta mensagem não é um convite à inércia. Muito pelo contrário. Até porque existem três factores que são decisivos e que impõem que nos mexamos.

Em primeiro lugar, a velocidade com que, após um abaixamento do nosso nível-padrão de felicidade, regressamos ao ponto médio – e isso depende de características mentais, eventualmente de acompanhamento psicológico, enfim, de um conjunto de ferramentas que nos permitam estar o menos tempo possível abaixo desse ponto médio. Isto é bastante importante e depende do trabalho de cada um. Não é irrelevante se demoramos duas semanas, dois meses ou dois anos a regressar a esse set point de felicidade.

Em segundo lugar, a forma como podemos exponenciar os pontos máximos de felicidade. Mesmo aceitando um regresso a um ponto médio de felicidade, acredito que esse ponto, mesmo que lentamente, pode ser elevado. Ou seja, se tivermos momentos muito altos de felicidade e muito periodicamente, contrabalançando com menos pontos de não felicidade ou, pelo menos, pontos de tristeza mais rápidos, a média será sempre mais elevada, pelo que, necessariamente, esse ponto será num patamar superior – podemos sempre regressar à média, mas uma média de 17 é sempre melhor que uma média de 12. Acredito, portanto, que o ser humano tem a capacidade de elevar o seu ponto médio de felicidade dependendo da sua capacidade de retirar benefício dessas elevações. Insisto que não é indiferente ganhar 2 mil, 4 mil ou 10 mil euros por mês. Não é que o dinheiro traga felicidade por si só, mas ajuda muito.

E, finalmente, a questão da novidade. Penso que só saindo da rotina, só desafiando-nos constantemente é que conseguimos esses momentos de elevação. São esses momentos de pico que nos permitem saborear, efectivamente, a felicidade e, tão ou mais importante, incrementar o nosso ponto médio, garantindo uma rotina tão prazerosa quanto seja possível. Mas se conectarmos a felicidade com a novidade, isto significa não recear a incerteza e ter a capacidade de sair da denominada zona de conforto. A zona de conforto, já agora, tem sido demonizada, sem razão para isso. O conforto é uma coisa boa. E quanto mais confortável, melhor. Mas esse tem de ser o nosso porto de abrigo, de que saímos variadas vezes para ir em busca da incrementação do ponto de felicidade. O treinador Guardiola era rei em Barcelona, ganhou tudo o que havia para ganhar; possivelmente, foi a melhor equipa do século. Mas rapidamente teve de sair para ir ganhar noutros sítios. Teve de se desafiar a fazer uma coisa diferente. O chef que atingiu a primeira estrela Michelin quer ir à segunda, mas se ficar cinco ou seis anos com duas atingiu o seu ponto médio de felicidade e precisa da terceira. E, talvez, se conquistar a terceira, vai abrir outro restaurante, com outro conceito, noutro país. Precisamos sempre de desafios novos. Porque, na verdade, a felicidade é sentida quando nos afastamos da tal linha média para a qual vamos sendo empurrados de tempos a tempos. Quantos mais pontos de diferença tivermos no nosso ano (uma jantarada com amigos, uma viagem incrível, um livro fantástico, um novo curso que ministramos, uma pessoa diferente que conhecemos), mais elevações vamos ter no ponto médio, mais nos vamos sentir felizes. É um bocadinho como a temperatura e a sensação térmica. Até podem estar 25 graus, mas é diferente se a sensação térmica for de 29 ou de 21.

Quem apostar na rotina, pura e dura, em jogar pelo seguro, em ficar sempre a fazer as mesmas coisas (já ouvi de pessoas de vinte e tal anos, trinta e poucos que acham bem não se encontrarem com pessoas de sexo diferente estando casadas para não correrem riscos...), no mesmo emprego, a visitar os mesmos sítios, não terá pontos de elevação ou, pelo menos, não terá tantos. Sendo os pontos de queda menos dependentes de nós – a morte de alguém próximo, uma decepção amorosa, uma doença –, o set point cairá mais vezes do que subirá. Estaremos mais depressivos. A média será também mais baixa. Parece sombrio.

O desafio é fazer coisas novas. Gozar a vida. Cometer uma extravagância. Pisar o risco. Enfim, viver!

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