Terá sido maior o prestígio do que o retorno financeiro na Jornada Mundial da Juventude

Ninguém arrisca confirmar o anunciado retorno financeiro resultante da vinda a Portugal de milhares de jovens para a Jornada Mundial da Juventude. O governo invocou estudos para estimar em 400 milhões a 600 milhões de euros os possíveis dividendos, números que alimentaram a fé do presidente da autarquia, Carlos Moedas. Por enquanto, só a Igreja Católica e as forças de segurança gritam vitória porque, de facto, tudo correu bem. Os operadores comerciais, cautelosos, preferem falar da JMJ como um investimento para o futuro.

Afinal, qual terá sido o retorno financeiro da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), o evento que trouxe o Papa Francisco a Lisboa na primeira semana de agosto, envolvendo um custo nunca inferior a 200 milhões de euros? Por enquanto, ninguém quer arriscar e os mais cautelosos preferem colocar a tónica numa perspetiva de investimento para o futuro.

“O sector não esperava lucros. Perspetivava antes um investimento estratégico para o futuro, revelando a capacidade organizativa de Portugal, que já o tinha demonstrado, mas nunca com um número tão grande de pessoas concentradas num só local”, disse ao NOVO Vítor Costa, diretor-geral da Associação do Turismo de Lisboa (ATL).

A verdade é que, refere este responsável, a hotelaria em Lisboa, durante a JMJ, apresentou uma taxa de ocupação de 89%, o que corresponde à média dos anos anteriores em período homólogo. Não houve aumento. Verificou-se, sim, uma alteração no perfil dos clientes. “Aqueles que nos costumam visitar nesta altura do ano terão, certamente, adiado as viagens para não coincidirem com a confusão da JMJ”, explicou Vítor Costa.

Assim, os visitantes que em maior número deambularam pela cidade na primeira semana de agosto estavam ligados ao maior evento religioso jamais realizado em Lisboa. Com um perfil próprio: não estariam preocupados em degustar a gastronomia ou sentar-se demoradamente nos restaurantes e esplanadas; não pernoitaram nos bons hotéis da capital.

Neste contexto, ninguém quer arriscar números. O que se sabe é que muitos restaurantes e supermercados aderiram à JMJ oferecendo menus a preços reduzidos. Milhares de jovens consumiram no comércio tradicional, nas lojas de conveniência, nos vendedores ambulantes.

Disse Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP – Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal: “O peregrino difere muito do turista típico que costuma visitar-nos.” Contactada pelo NOVO, considerou ser ainda cedo para se apurarem os benefícios trazidos pela JMJ para o sector que representa. Contudo, em artigo de opinião no DN, reconheceu: “Obviamente que tudo tem um custo e as receitas parecem não corresponder ao desejado.”

Vítor Costa também concorda que os proveitos terão ficado aquém, mas salienta o que parece ser, a partir de agora, o discurso politicamente correto: “As organizações internacionais terão estado atentas, notando que Lisboa já poderá ser alternativa a Milão, Barcelona ou Madrid para atrair grandes eventos, além de que passou a haver mais um espaço junto ao Tejo para iniciativas diversas. De destacar também que os jovens, amanhã, vão ser adultos, com família constituída, e quererão conhecer o país que um dia visitaram num contexto muito limitado. Sem esquecer os milhões de imagens de Lisboa, de Fátima e de outras zonas, que se difundiram pelo mundo, através das redes sociais, por causa da JMJ, sendo cada imagem um postal do país e cada jovem um embaixador do turismo de Portugal.” Ao que acrescenta Ana Jacinto: “O nosso país sai com a imagem reforçada ao nível de destino seguro que sabe acolher.”

Em suma, os operadores do turismo e comércio estão de acordo: o retorno não será seguramente agora, mas a longo prazo.

Contactado pelo NOVO, o Ministério da Economia referiu que ainda não houve tempo para se fazerem as contas do deve e haver da JMJ. O cardeal Américo Aguiar prometeu, por seu lado, que a Igreja vai apresentar contas do evento até ao último cêntimo.

País seguro

A nível da segurança, os proveitos não foram financeiros, mas o que se ganhou com a JMJ excedeu todas as expetativas. À semelhança da ênfase de Francisco em várias intervenções, “todos, todos, todos”, outra ênfase – “orgulho, orgulho, orgulho” – foi ouvida durante a conferência de imprensa dos serviços e forças de segurança sobre a JMJ. Todos a classificaram como um grande êxito.

Destacou-se o secretário-geral do Sistema de Segurança Interna (SSI), Paulo Vizeu Pinheiro. O embaixador revelou competência ao comandar 11 planos sectoriais de segurança autónomos, fazendo convergir toda a informação para um só plano que assegurava a articulação entre as várias forças, com 16 mil elementos, em perfeita harmonia entre os patamares estratégico, operacional e tático. Foi o verdadeiro comandante. Com um rasgado sorriso, disse: “Foi a maior operação jamais realizada em Portugal. Decorreu de uma forma exemplar.”

Quem melhor ilustrou o alcance do trabalho realizado foi o diretor-nacional da Polícia Judiciária (PJ), Luís Neves, trazendo à liça a cultura institucional instalada nos serviços e forças de segurança, pautada pelo corporativismo e individualismo. Durante a conferência de imprensa realizada segunda-feira, Luís Neves apelou a que a prática registada na JMJ, anunciadora de uma nova era de diálogo e de cooperação entre os operacionais de segurança, se mantenha e se cultive rumo ao futuro. “O que se viu foi bom”, disse.

O ministro da Administração Interna enalteceu igualmente a cooperação, sublinhando que se trata de “um valor fundamental para garantirmos níveis elevados de segurança”. José Luís Carneiro reconheceu o papel central do secretário-geral do SSI na ligação entre as entidades operacionais no terreno, que geralmente funcionam de costas voltadas, escondendo umas das outras, por vezes, informações vitais para o combate ao crime. Na JMJ, adiantou, as mesmas demonstraram grande disponibilidade para trabalharem no mesmo sentido, nomeadamente a PSP, a quem coube “a parte de leão”, a GNR e o SEF – as mais visíveis -, mas também a PJ, a Autoridade Marítima Nacional, a Autoridade Aeronáutica Nacional, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, o INEM, o Centro Nacional de Cibersegurança e as Forças Armadas, tendo todos contribuído para que a JMJ se revelasse um exemplo de excelência em organização. Ao contrário do comércio, o investimento na segurança teve retorno imediato porque o balanço final foi: “Nenhuma ocorrência digna de registo.”

Vitória da Igreja

Quem também poderá cantar vitória é a Igreja Católica.

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), em comunicado divulgado, considerou a JMJ “um tempo de graça que renovou os corações e encorajou, especialmente os jovens, a dar testemunho de Cristo Vivo”.

A imagem da Igreja transmitida pelo Papa Francisco, sobretudo com os discursos e com a iniciativa de receber e falar com as vítimas de abuso sexual, fez arrancar aplausos de todos os quadrantes, nomeadamente políticos, da esquerda à direita. O período negro, recente, acentuado pelo trabalho da comissão independente que investigou o historial de abusos sexuais perpetrados por clérigos da Igreja Católica sobre pessoas em que exerciam um forte poder de influência, foi “branqueado”, contando a Igreja com a força anímica e espiritual de mais de 1,5 milhões de jovens de todo o mundo. O êxito da JMJ criou a sensação de que se abriu uma nova era para todos, e até os comerciantes, que aguardavam um enorme retorno financeiro, preferem agora falar em investimento para o futuro.

As relações da Igreja com o poder político ficaram também mais consolidadas na medida em que o evento trouxe “retorno” para ambas as partes, independentemente do dinheiro gasto. Todos ficaram bem na fotografia, eclesiásticos e políticos, com o Papa Francisco a espalhar sobre eles água benta quando, no avião, de regresso a Roma, depois de ter estado cinco dias em Portugal, disse ao mundo que participara na mais bem preparada JMJ. Melhor retorno era impossível.