Está tudo errado. O BCE tornou a subir as taxas nesta semana, fixando as Euribor que encarecem os créditos à habitação acima dos 4% pela primeira vez desde novembro de 2008. E caiu-nos o céu em cima da cabeça. Mas era assim tão inesperado?

O que não é normal é as taxas de juro (preço do dinheiro que pedimos emprestado e que se paga como qualquer outro bem ou serviço) estarem a zero ou negativas. O que não é normal é os bancos, cujo principal negócio é o crédito, ainda terem de pagar a quem pede dinheiro emprestado para comprar casa ou férias, para investir em negócios próprios ou saldar contas públicas.

Era uma questão de quando, não de se tornariam a subir. Inesperado foi que os juros ficassem esmagados durante tanto tempo. Quem alimentou a ideia de que o crédito seria para sempre barato, para famílias e para governos que tanto beneficiaram dos programas de compra de dívida do BCE, devia ser trazido à pedra. Ainda mais quando se assistiu, com toda a tranquilidade, aos jorros de dinheiro despejados em cima de uma Europa pós-pandémica, para compensar os estragos do absurdamente longo (e, sabemos hoje, maioritariamente injustificado) shutdown à economia.

“Continuar a subir juros é contraproducente”, bradaram partidos do PS ao Bloco, do PCP ao Chega, acusando implicitamente Lagarde de falta de compreensão para com os problemas dos portugueses e os bancos de esfregarem as mãos perante a escalada-relâmpago das taxas. “A banca que pague os juros”, dizem agora, como antes clamavam “a banca que pague a crise”, irresponsabilidade que bebe da nascente da demagogia que vê o lucro e as contas sãs como crimes imperdoáveis.

Mas o pecado original do BCE foi precisamente ter tido pejo em agir atempadamente. A subida devia ter acontecido muito antes de a inflação ter mais do que quintuplicado os máximos vistos como saudáveis (2%), como fez a Fed nos Estados Unidos. Por outro lado, não é Portugal a preocupação do BCE, é a economia europeia. É o que lhe compete e foi por isso que o Banco Central foi criado com total independência dos Estados-membros, livre de tentativas de pressões, desligado de casos concretos. Se assim não fosse, certamente não seriam os nossos problemas a guiar-lhe a visão, mas os interesses dos países mais poderosos da União. E certamente não seria benéfico para nós…

Porque agiu tarde – a Fed já ia nos 4% em novembro –, o BCE teve de ser mais contundente. E naturalmente os países mais frágeis e pobres sofrem em dobro, maior prova de que, afinal, a nossa economia não está tão brilhante quanto o governo quer fazer crer. Mas uma coisa é certa, o efeito pretendido está a ser conseguido. Como se pode dizer que é “contraproducente”, se a inflação se reduziu, neste ano, de dois dígitos para os atuais 5,3% na zona euro?

Tudo isto o governo devia ter explicado desde o início às famílias que estão e vão continuar a sofrer com a subida das Euribor que torna incomportáveis as suas contas mensais. Para essas, as que mesmo precisam, há muito que deviam estar a ser preparados apoios – como aliás sempre alertou Christine Lagarde –, em vez de se continuar a alimentar uma lógica de generalização de ajudazinhas que apenas alimenta inflação e subsidiodependência. E que não resolve nada.

Mas ao poder vale mais manter o povo dormente e dependente.

Diretora do NOVO