Festa do Pontal: uma rampa do PSD

Em 47 anos, já a mataram várias vezes e ressuscitaram outras tantas. Foi desprezada por líderes, desvirtuada por outros, mas acarinhada por muitos, que a usaram como palco para dizerem ao país ao que vinham. A Festa do Pontal tem tido uma vida de solavancos, mas foi também uma rampa de lançamento de alguns presidentes do PSD para chegarem ao governo. É a festa emblemática do PSD e da vida político-partidária nacional, que levou o PSD a sair à rua. O seu grande impulsionador, José Mendes Bota, relata algumas histórias que a marcaram e o impacto comunicacional “poderoso” que têm as mensagens políticas lá deixadas. Luís Montenegro sabe disso. E vai estar de novo, segunda-feira, na Quarteira para anunciar, desta vez, a sua reforma fiscal.

Corria o ano de 1996. Os sociais-democratas ainda sangravam com o fim de quase dez anos do eldorado cavaquista e com o desaire nas eleições de 1995, que deram a vitória ao PS, quando Marcelo Rebelo de Sousa, já líder de um partido asfixiado financeiramente, agarra em 5 mil contos “do seu bolso” e entrega-os a José Mendes Bota para o líder da distrital do PSD/Algarve não deixar morrer um património que Sá Carneiro tinha fundado e que Cavaco consolidou nos anos 80/90: a Festa do Pontal. “Foi a despesa mais cara que tive na política”, diria, mais tarde, o agora inquilino de Belém.

Quem o conta é o próprio Mendes Bota ao NOVO, na véspera de o partido voltar a reunir-se na Quarteira para mais uma rentrée, desta vez com Luís Montenegro “ao leme”, que, seguindo as pisadas de Sá Carneiro, Cavaco e Passos, vai aproveitar o mediático palco do Pontal para anunciar as suas propostas, este ano na área fiscal, sobretudo em matéria de IRS.

Mas voltemos à história da Festa do Pontal: uma vida de 47 anos feita de solavancos, de amores e ódios, de mortes e renascimentos, mas assumida por muitos como palco privilegiado para os líderes se afirmarem e chegarem ao maior número de pessoas e… ao poder. Serviu de palco para guerras internas, mudou de formato, esteve quase a desaparecer, embalou Cavaco e Passos para o poder e voltou, de novo, com Montenegro.

“Ressuscitei a Festa do Pontal três vezes: em 1985, com Cavaco, em 1996, com Marcelo, em 2005, com Santana”, conta Mendes Bota, que, em 2006, já com Luís Marques Mendes como líder, tem “a ideia” de transportar o evento da Baixa de Faro (onde se realizou nos anos 80/90) para o calçadão da Quarteira, onde, em pleno agosto, uma média de 2.500 militantes e simpatizantes do PSD e todos os órgãos de comunicação social acorrem para aquela que é a maior festa partidária de rua no país.

No pós-25 de Abril e quando o país saía de um PREC e vivia em grande tensão (mas também participação) política, Sá Carneiro, fundador do então PPD, decide que tinha chegado a hora de o partido se implementar no Algarve. “Na altura, o PSD era recebido a sul do Tejo de forma agreste, os comícios eram alvo de atos de violência”, conta ao NOVO o atual líder do PSD/Algarve, Cristóvão Norte, filho do único deputado (com o mesmo nome) do Algarve na Assembleia Constituinte, em 1975.

Sem medo, Sá Carneiro arriscou o impensável e reuniu num pinhal perto do aeroporto de Faro militantes e simpatizantes do PSD para um piquenique. “Era só poeira, não havia esgotos nem casas de banho, mas o evento ganhou carisma”, recorda Mendes Bota. Nascia assim, a 29 de agosto de 1976, a Festa do Pontal, que ganhou o nome da mata onde se realizou e que se tornou a primeira festa partidária de cariz popular, que tinha (e tem) como escopo principal marcar a mensagem política para o ano político que se iniciava.

Com a morte de Sá Carneiro e o luto no partido, o Pontal perde força e é Cavaco Silva, em 1985, que o transforma “numa máquina sofisticada”, nas palavras de Mendes Bota. Cavaco ganha logo a seguir as legislativas e não mais parou de afinar a máquina, tornando a Festa do Pontal uma marca nacional. Ficou célebre a sua frase no Pontal de 1993: “O país tem um homem do leme.” A festa atingiu um dos seus auges e, com o PDS firme no poder, todos os notáveis queriam marcar presença. “Passei anos de fartura e anos de penúria. Quando estávamos na oposição tinha de mendigar para irem ao Pontal”, conta Mendes Bota, que pede agora um toque a rebate e que todos os notáveis se desloquem segunda-feira à Quarteira para apoiar Montenegro, “porque os próximos dois anos vão ser decisivos” para o país. “Não sabemos quem vai aparecer”, reconhece ao NOVO Hugo Soares, secretário-geral do PSD.

Rivalidades e apoios

Regressando a 1995, a importância do Pontal era tanta que assim que o cavaquismo cai e Fernando Nogueira assume a liderança do PSD, o então secretário-geral do PS, António Guterres, ensaia uma mediática manobra política, marcando a sua rentrée para um local a 300 metros da festa do PSD, denominado Pontinha. Foi uma noite de dérbi Pontal-Pontinha, em que quem estivesse a meio caminho podia ouvir tanto o discurso de Guterres como o de Nogueira. Saiu vencedor o líder do PS que, após a Pontinha, ganha as legislativas de 1995.

O PSD entra em “estado de coma financeiro” e, em 1996, a festa só se realiza porque Marcelo, o novo líder, dá dinheiro seu. “Marcelo, Cavaco, Passos e, agora, Montenegro foram os que mais lutaram pelo Pontal”, diz Mendes Bota, responsável por 14 edições.

Mas, sem ninguém o prever, Marcelo abandona a liderança do PSD. E chega ao partido o líder que voltou as costas ao Pontal e mudou a rentrée icónica para a Póvoa do Varzim. “Uma ideia peregrina. Foi um fiasco”, critica o ex-líder do PSD/Algarve. É já na transição de Santana Lopes para Marques Mendes que Mendes Bota vai buscar a Festa do Pontal às cinzas e a muda para o calçadão de Quarteira, em 2006. Mas Marques Mendes faltou. “Foi um sucesso, apesar disso. O local era limpinho, amplo e num cenário idílico.”

Em 2007, com Marques Mendes já demissionário, dá-se um facto curioso: Luís Filipe Menezes candidata-se à liderança e trava uma campanha muito polémica com Marques Mendes, que se tinha recandidatado. “Os apoiantes de cada um levaram a campanha para a Festa do Pontal e foi travada uma batalha entre os dois grupos. O Pontal era visto como um palco fundamental para a mensagem política”, conta Mendes Bota. Nesse ano, ainda sem ser líder, Menezes discursa. Ironicamente, ganha as eleições, investe no Pontal de 2008, mas não chega a discursar como líder. Demite-se antes de agosto. Segue-se Manuela Ferreira Leite e o Pontal é de novo ostracizado, com a líder a recusar-se a estar presente. “Manuela Ferreira Leite não gosta de se relacionar com as massas”, explica Mendes Bota.

É Passos que volta a reconciliar o PSD com a Festa do Pontal. E com sucesso. “Foi o primeiro ano como líder e lançou-se de tal forma que em 2011 voltou como primeiro-ministro. O Pontal comprova-se como uma boa rampa de lançamento”, relata o ex-dirigente do PSD/Algarve. Em 2012, já Luís Gomes era o líder do PSD/Algarve, a festa realiza-se numa sala do Aquashow. Ao NOVO, Luís Gomes diz ter sido por questões financeiras, mas tanto Mendes Bota como Cristóvão Norte dizem que foi por “medo” dos manifestantes de esquerda que andavam a rondar o primeiro-ministro por causa da austeridade. “Nesse ano foi um PSD escondido e o PSD não pode ter medo da rua”, dizem os dois dirigentes dos sociais-democratas do Algarve.

Rui Rio volta a matar a festa. Muda-a para a serra. “Foi mais um fiasco.” E é Montenegro que volta a pegar nela, em 2022, depois de dois anos de interregno, para fazer dela, de novo, o palco do PSD para as grandes mensagens. “O ano passado apresentámos o programa de emergência social, este ano vamos elencar os erros do governo e apresentar mais propostas”, avança Hugo Soares. O NOVO sabe que a política fiscal vai marcar a agenda do PSD no novo ano político e estará na mensagem deste ano. Será o Pontal a rampa de Montenegro para descolar nas sondagens até às europeias? Há quem acredite que, bem comunicada a mensagem, pode ser. “O Pontal ainda tem muita força”, remata Mendes Bota.