No dia 20 de agosto, a seleção feminina de Espanha sagrou-se campeã do futebol mundial, mas o ambiente de festa não durou muito. As mãos que estariam livres para aplaudir as jogadoras erguiam cartazes em protesto e o clima de celebração rapidamente deu lugar a uma nuvem de revolta e indignação. Tal ficou a dever-se ao ato de Luis Rubiales, presidente da Real Federação Espanhola de Futebol, que, após a vitória, decidiu “premiar” a jogadora Jenni Hermoso com um beijo na boca. O incidente fez correr muita tinta e dividiu as opiniões. De um lado, a repulsa; do outro, a desvalorização do sucedido. O infeliz acontecimento e o largo espectro de reações a seu redor vieram lembraram-nos não só de que estamos a anos-luz de uma verdadeira igualdade de género, mas também da importância de falar sobre consentimento.

Sendo o desporto, e em particular o futebol, uma das principais fontes de entretenimento da atualidade, é fácil esquecermo-nos de que as pessoas que o protagonizam estão, na verdade, a exercer a sua profissão. Por outras palavras, o acontecimento anteriormente descrito não se trata apenas de um evento controverso, mas de uma situação de grosseiro assédio laboral.

Miguel Ángel Galán, diretor do Centro Nacional de Formação de Treinadores de Futebol, classifica o ato de “sexista e intolerável” e lembra o historial de Rubiales, nas suas palavras, “atormentado por escândalos de corrupção e sexismo”.

Muitos fatores foram enunciados para desculpabilizar o comportamento de Rubiales, destacando-se a euforia após a vitória. Proponho um olhar amplo sobre os acontecimentos.

Imagine-se que o sucedido tinha ocorrido numa sala de reuniões de uma empresa, onde o balanço das contas revelava a obtenção de um lucro inédito. Seria admissível que o CEO, eufórico, se levantasse da sua cadeira e “roubasse” um beijo a uma funcionária, na frente de todos os presentes? Ou que o diretor de uma escola, após saber que todos os seus alunos haviam passado nos exames nacionais, começasse a distribuir beijos pelos docentes? Parece-me que, em ambos os cenários, a integridade de ambos ficaria afetada, assim como a idoneidade para continuar a ocupar o mesmo cargo.

Muito se disse sobre o vídeo que figurava Jenni e as suas colegas no autocarro, onde “brincavam” com o sucedido, comparando-o ao beijo de Iker Casillas e Sara Carbonero. As atenções voltaram-se para a conduta das jogadoras – que, nas circunstâncias, me parece perfeitamente normal – ofuscando o discurso do presidente, em que este tudo fez exceto desculpabilizar-se. Um pedido de desculpas não apagaria o abuso de autoridade levado a cabo por Rubiales, mas seria revelador de uma capacidade de assumir responsabilidade por um erro, capacidade que deve pautar a conduta de um líder. Ao invés disso, Rubiales decidiu pintar-se como mais uma vítima do movimento feminista, o que lhe valeu efusivas palmas por parte dos homens na plateia.

Este acontecimento vem demonstrar que, mesmo quando a mulher consegue penetrar as barreiras do estereótipo e do preconceito e entrar num universo dominado pelo sexo oposto, os obstáculos não ficam à porta. A verdade é que, em profissões dominadas pelo sexo masculino, as mulheres estão longe de ser tratadas como pares. A sua infantilização (basta pensarmos nos puxões de orelhas de Ignacio Quereda às jogadoras da seleção espanhola), a condescendência e o paternalismo são uma demonstração inadmissível da desigualdade de género que persiste em inúmeros universos laborais e que urge erradicar.

Infelizmente, o caso de Rubiales é apenas a “ponta do icebergue” do sexismo institucional que marca o futebol feminino espanhol. Durante as quase três décadas em que ocupou o cargo de treinador da seleção feminina, Ignacio Quereda foi acumulando queixas por parte de inúmeras jogadoras.

No livro “No las llames chicas, llámalas futebolistas”, Danae Boronat relata vários episódios que revelam a conduta sexista e predatória do antigo selecionador. Entre eles, o episódio relatado por Alicia Fuentes, antiga internacional espanhola: “Estávamos sozinhos no elevador e deu-me um beliscão no rabo. Não soube como reagir. Tinha 17 anos, era muito tímida”.

Rubiales apressou-se a garantir que a jogadora havia dado o seu consentimento antes do beijo, ainda que as imagens que circulam pelo mundo nos mostrem tudo menos um beijo consentido. Mas não basta falar de consentimento; é preciso perceber quando é que este é válido. É certo que o consentimento prévio de Jenni Hermoso teria tornado o acontecimento menos problemático. Contudo, a disparidade de poder entre Rubiales e Hermoso nunca permitiria que fosse, de um ponto de vista ético, correto. Pela mesma razão que o consentimento de uma aluna perante uma aproximação íntima por parte de um professor não é válido, porque jamais pode considerar-se inteiramente livre, o consentimento de Jenni perante o beijo da vitória seria um consentimento inevitavelmente condicionado pelo receio de eventuais represálias que uma recusa pudesse vir a ter na sua situação laboral.

Nas redes sociais lê-se que a atenção que tem vindo a ser atribuída ao caso é desproporcional e desrespeitosa para com as “verdadeiras” vítimas de abuso. Também o nosso Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, quando questionado sobre o acontecimento, afirmou que o mundo estava cheio de problemas maiores, ou de interesses maiores, como a candidatura conjunta de Portugal com Espanha e Marrocos à organização do Campeonato Mundial de Futebol, em 2030. Caso contrário, seguindo essa linha de raciocínio, os hospitais poderiam começar a recusar auxílio a alguém que chegasse às urgências com um braço partido quando, no mesmo local, se encontrassem doentes em condição mais grave. A existência de situações de maior gravidade não nos deve coibir de tecer críticas a um determinado comportamento quando este merece ser criticado. Tal apenas contribui para a desvalorização e perpetuação de comportamentos semelhantes.

Não faz sentido que se fale de violência de género apenas quando uma mulher morre às mãos do seu parceiro, assim como não faz sentido que se fale de consentimento apenas quando se está perante um caso de violação. Seria o mesmo que abordar a crise financeira apenas quando se chega a um estado de bancarrota.

É dever de todos nós, cidadãos, protestar perante condutas como a de Rubiales, que revelam uma mentalidade inadmissível de objetificação da mulher. Escusado é dizer que, se se tratasse de um jogador da equipa masculina, o ato seria igualmente condenável. Contudo, tenho sérias dúvidas que, fosse esse o caso, tal tivesse sequer passado pela cabeça de Rubiales. E é aí que está o problema. A normalização de episódios de sexismo do dia a dia e a sua desculpabilização com a mentalidade “boys will be boys” gera em muitos Rubiales uma convicção de impunidade, que faz com que se sintam no direito e no poder de desrespeitar uma mulher na frente de multidões, pura e simplesmente porque sabem (ou pensam) que não haverá consequências.

Está na hora de mudar.