É notório que o turismo do Algarve desde a abertura do Aeroporto Internacional de Faro, tem sido o principal motor económico da região, tendo fomentado o crescimento e o melhoramento económico e social, porventura com custo elevado, visto que aumento as discrepâncias entre o litoral e o interior ao não ter sido integrado na sua cadeia de valor os produtos primários como valor acrescentado de forma diferenciadora. Um elemento diferenciador que poderá alertar para os benefícios da integração do agroalimentar na cadeia de valor do turismo, possibilitando a recuperação da casta autóctone “Negra Mole”, e assim desta forma possibilitar ter como catalisador do desenvolvimento turístico sustentável a recuperação e a promoção da Negra Mole, como fator de valorização do turismo regional, possibilitando não só modernizar a sua produção através de fundos comunitários, como possibilitar ter um canal de comercialização (turismo) que possibilita ter menos constrangimentos de margem versus os canais de distribuição tradicionais e possibilitar escoar o produto por canais mais integradores, apesar de serem nichos de negócio ( aumento do “brand awarness” das Quintas produtoras de Negra Mole).

O impacto de castas autóctones integradas com o turismo tem tido algum ênfase principalmente na zona do Minho (Alvarinho), assim desta forma num espectro mais amplo integrar o agroalimentar (Negra Mole) na cadeia de valor do turismo Algarvio, será porventura agregador, tendo em consideração que segundo os dados da CVA (2022), é a segunda casta menos utilizada pelos produtores. O Enoturismo sem dúvida é um produto turístico recente e transversal, isto é, corresponde à sinergia entre duas indústrias de extrema importância para o país, a vitivinicultura e o turismo e tem um enorme relevo na comunicação ancestral de toda a cultura da nossa nação a nível nacional e internacional, se queremos mais e melhor turismo e diferenciador, temos de alterar algumas estratégias.

A nível estatístico é necessário enquadrar que o TER e TH, segundo os dados consolidados do TravelBI by Turismo de Portugal (2022) o Algarve a nível de dormidas 2022 vs. 2019 teve um aumento de 56,1% e de 2022 vs. 2021 (+56.1%), representando 286.000 dormidas de um total de 19 milhões, número relativamente baixo mas observamos que existe um novo tipo de procura por produtos diferenciados em espaço rural que possam oferecer experiencias únicas, sendo que esta dinâmica em 2022 gerou aproximadamente 21,5 milhões de euros de proveitos globais, e sendo o revpar mais elevado do Algarve em comparação com outras ofertas de alojamento (68,2EUR vs 66,30EUR da Hotelaria convencional).

Nesta dicotomia observamos em Portugal, segundo dados do Pordata (2023), o setor primário a nível de emprego representa 2,7% da população empregada (2022) e o setor terciário 72,7% (2022), onde se inclui o turismo, assim desta forma compreendemos que ao integrar um produto endógeno do setor primário (Negra Mole), poderá ter influência no impacto de uma oferta diferenciadora e de valor no turismo Algarvio, enaltecendo as suas potencialidades e características junto dos produtores e agentes económicos turísticos (Destination Management Company e Operadores Turísticos).

É necessário valorizar a integração do agroalimentar na cadeia de valor do turismo porque pode gerar ofertas diferenciadoras de enoturismo e dinamizar a coesão territorial aliando o setor primário ao terciário e possibilitando a sustentabilidade territorial e a diversificação de produtos turísticos. No que se refere á região do Algarve, esta possui enormes potencialidades de integrar o agroalimentar no setor turístico algarvio, além de que o reconhecimento da marca Algarve a nível internacional poderá aumentar a integração da Casta Negra Mole e possibilitar ter um efeito económico multiplicador nos produtores ao incentivar a produção desta casta autóctone.

É interessante ressalvar que o Turismo de Portugal, fomentou e promoveu uma linha de apoio á valorização turística do interior (Linha Valorizar), este mecanismo financeiro permite apoiar o desenvolvimento de projetos no interior do território que tenham características que permitam agregar as áreas rurais na cadeia de valor do turismo, incrementado a coesão territorial entre o interior e o litoral, esta linha é um veículo financeiro de 100M/Euros, este enquadramento permite concluir que o tema do nosso projeto está correlacionado, uma vez que o desenvolvimento do agroalimentar (Negra Mole) é realizado predominantemente no interior.

O setor do turismo tem uma característica única, possibilita o efeito multiplicador e poderá fomentar a coesão territorial se correlacionarmos o agroalimentar na sua cadeia de valor, isto porque na região do Algarve tendo em consideração que a maior parte da produção vínica é consumida na região, poderá assim ser relevante para o desenvolvimento do agroalimentar (possibilitando o reaparecimento da agricultura biológica e sustentável), e também enaltecer o potencial do desenvolvimento do enoturismo. O desenvolvimento do produto turístico diferenciador como o enoturismo e a área cultural na região do Algarve, integrando o agroalimentar na cadeia de valor do turismo é uma oportunidade de atrair um perfil turístico de maior valor, isto desenvolvendo atividades de animação e promoção de eventos tendo como foco a Negra Mole, no entanto a responsabilidade de desenvolver comercialmente esta área e integração será dos agentes económicos regionais (produtores/empresários), tendo sempre mecanismos europeus e nacionais financeiros que possibilitem acelerar o investimento.

A concentração económica e social no litoral e a sazonalidade do turismo, sem dúvida alguma que temos duas dimensões inerentes nesta dicotomia o tempo e o espaço, nas últimas décadas muito se estudou sobre esta questão, sendo comum em todos os países da bacia do mediterrâneo onde o foco é o turismo de “sol e praia”, sem dúvida que o enoturismo e turismo em espaço rural tendo foco num produto autóctone como a negra mole e integrando a indústria agroalimentar na cadeia de valor do turismo poderá ajudar a mitigar a sazonalidade e a fomentar um turismo de nicho de desenvolvimento rural, é necessário que as épocas turísticas sejam mais longas (baixa, média), e isso só é viável com ligações aéreas e produtos focados na experiência local, possuindo um cariz de valor acrescentado num cliente que procura elementos únicos e autênticos.

Sem dúvida que o turismo é o motor da economia do Algarve, e acarreta impactos a montante e a jusante (positivos e negativos), mas pode também possibilitar agregar outras indústrias na sua cadeia de valor. O foco do desenvolvimento turístico no Algarve, sempre esteve muito ligado ao produto “sol e praia”, como foi mencionado acima, mas é necessário enaltecer que os planos de comercialização e promoção nos principais mercados do norte e centro da Europa, como o Reino Unido, Noruega, Dinamarca, França e Alemanha, pelo perfil do cliente têm diversas motivações na experiência local, sendo que a nova aposta em mercados nicho no Algarve como o EUA e Brasil pode possibilitar um maior leque de oferta de experiências e integrar o agroalimentar (Negra Mole), como produto agregador e diferenciador e fomentar o aumento do TER/TH e Enoturismo no Algarve, que pós-covid aumentou a sua notoriedade e procura.

O setor do turismo sendo um elemento exportador de enorme relevo em Portugal (17.6% exportações globais em 2022 segundo TravelBI by Turismo de Portugal) e em Espanha, possibilitou criar uma linha de entendimento entre ambos os países através da “Estratégia de Sustentabilidade do Turismo Transfronteiriço 2022-2024”, este alinhamento permite criar diversas áreas de cooperação que visem a sustentabilidade e a coesão territorial tendo como base a inovação, competitividade, ambiente, acessibilidade. Atualmente observamos que a coesão social está na base do desenvolvimento turístico do novo plano estratégico turístico tendo como base os pilares da sustentabilidade da UN, mas o caminho é longo e exige não só investimento como uma mudança de mentalidade, certamente o futuro de Portugal e da região do Algarve, passará por incorporar cada vez mais os espaços rurais com o litoral fomentando as sinergias culturais, sociais e económicas tendo por base o agroalimentar na cadeia de valor do turismo.

Em suma, a integração do agroalimentar na cadeia de valor do turismo algarvio é fundamental para compreender e maximizar os benefícios destas sinergias, isto porque permite valorizar produto primário local (casta negra mole), promover a sustentabilidade e o desenvolvimento rural, e melhorar a experiência turística e de valor da região, possibilitando mitigar em alguns momentos a sazonalidade, permitindo dinamizar a coesão territorial. Esta diversificação e integração destes setores importantes da economia nacional e regional, permite diversificar a oferta e apostar nos recursos naturais e paisagísticos das áreas rurais algarvias (serra e barrocal).

É necessário ter ambição e sonhar por um Algarve que encontre o caminho da sua luz, citando Friedrich Nietzche, quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar, temos de ambicionar sermos maiores e melhores que os limites fronteiriços que nos colocam.

NOTA: Este artigo apenas expressa a opinião do seu autor, não representando a posição das entidades com as quais colabora.