Pedro Fernandes: “Dormir mais horas fez com que o meu cérebro começasse a correr”

Pedro Fernandes é uma das figuras mais conhecidas da televisão e da rádio, dois amores que assentam na paixão que tem por comunicar. Recentemente aceitou o desafio de passar das manhãs da RFM para a tarde a fim de apresentar o programa “6PM”. Multifacetado, já fez um “bocadinho de tudo”, tendo-se inclusivamente estreado na literatura infantil com um livro em que aborda o tema do bullying e que se baseia na sua experiência. Na era da cancel culture, lamenta a susceptibilidade que existe actualmente.



Como muitas crianças, o seu sonho era ser jogador de futebol. Perdeu-se um bom jogador?

Era um jogador mediano. Todas as crianças estão convencidas de que têm mais talento do que aquilo que realmente têm. Às vezes, os pais têm uma visão um bocadinho dúbia dos seus filhos, normalmente favorecendo-os, de que poderão ser estrelas. No meu caso, não foi assim. O meu pai puxava-me sempre para a terra, dizia-me que só faltava uma cadeira para eu me sentar no meio do campo porque esforçava-me pouquíssimo para correr atrás da bola. [risos] Já o meu avô achava que eu tinha um bocadinho mais de talento. Mas acho que seria aquele jogador que teria um rasgo de brilhantismo num jogo ou noutro e, quem sabe, com esse rasgo conseguiria ter um belo contrato, como acontece com alguns jogadores, que têm assim uma meia dúzia de jogos brilhantes e isso dá para gerir uma carreira inteira. Mas acho que não chegaria aos calcanhares de um Cristiano Ronaldo. Acho que são muito poucos aqueles que conseguem viver bem só à conta de dez anos de futebol profissional. Eu não seria um desses, com certeza.

Certo é que se ganhou um excelente comunicador. A sua capacidade de comunicar e o seu sentido de humor manifestaram-se cedo?

Desde miúdo tinha alguma facilidade em fazer rir as pessoas que estavam à minha volta. Mas até se conseguir fazer rir estranhos, não se tem bem a certeza se temos algum jeito ou não. Os pais acham sempre graça a tudo o que os filhos fazem. Eu, hoje, rio-me imenso com o que os meus filhos fazem. O meu filho Martim, o mais novo, é a pessoa que mais me faz rir no mundo, mas daí a ele ser um comunicador ou um grande humorista vai um grande passo. Só depois de ter tido as primeiras experiências de palco é que comecei a perceber que aquilo podia ser realmente um caminho. Foi na faculdade que comecei a fazer teatro. Fiz teatro de improviso e acabei por ganhar um campeonato de comédia de improviso numa brincadeira com uns amigos. Foi depois dessas primeiras experiências no teatro e também na faculdade, em alguns trabalhos que implicavam fazer de actor dos nossos próprios guiões, no curso de Publicidade e Marketing, que percebi que podia ser por ali. Depois surgiu a oportunidade d’“A Revolta dos Pastéis de Nata”. Comecei a conseguir fazer disto um meio de subsistência e ir buscar algum rendimento a fazer rir os outros. Então comecei a encarar as coisas com mais seriedade, e foi acontecendo de forma muito gradual e lenta na minha vida até esta faceta mais humorística ou artística tomar conta da minha vida toda no que diz respeito ao trabalho.

A família e os amigos são um bom barómetro para avaliar o nível de humor. Foi testando algumas ideias com eles primeiro, para ver como resultava?

Sempre fui muito do improviso e a rádio também é um bocadinho isso. Sinto-me muito confortável na rádio porque decidimos falar de um tópico e, a partir desse tópico, desenvolvemos tudo de improviso, não temos um guião. E sinto-me muito à vontade nisso. Sempre foi essa a minha escola, a do desenrascanço, do improviso, e as coisas foram sempre correndo bem. Tendo uma base, sabendo daquilo que vamos falar, tendo conhecimento geral do assunto de que vamos falar, depois é tentar improvisar sobre isso. Aqueles rasgos, aquelas tiradas que temos no meio de uma conversa sempre resultaram muito bem na minha vida, quer familiar, quer na escola, quer no meio profissional, e então fui-me sempre baseando nisso para conseguir chegar onde estou hoje.

Diria que isso deu-lhe muito jeito porque, em rádio ou televisão, o improviso é muito importante.

Já me aconteceu começar um programa de fim de ano na RTP com a Filomena Cautela e o teleponto caiu aos 30 segundos, e nós estivemos um programa inteiro sem saber o que ia acontecer. Fomos tendo indicações através do auricular de qual era o momento seguinte, mas tudo o resto foi improviso durante duas ou três horas. Esse jogo de cintura é algo que não me deixa assim tão desconfortável e até acabo por me divertir mais quando isso acontece.

O seu percurso na televisão começa nos programas “Zapping” e “Fenómeno”. Percebeu logo que era algo gostava de fazer ou é um gosto que se vai adquirindo?

Soube logo que gostava imenso de fazer aquilo, tinha era muita vergonha. Tinha muita timidez, ficava com imensos nervos antes de começar algo.

Agora não é assim?

Depende do que for. Na rádio, já não sinto nervos antes de um programa começar, na televisão também já não sinto nervos. Mas, por exemplo, num evento em que seja contratado por um CEO de uma empresa, que gosta de mim, mas em que não se sabe se os funcionários dessa empresa, que são 200, 300 ou 3 mil, como já me aconteceu uma vez, gostam de mim, de repente, tenho de conquistá-los do zero, porque eles estão ali e são forçados a levar com aquela pessoa que vai apresentar o evento e que quer fazê-los rir, e isso é mais difícil. É diferente de quando tenho um espectáculo em nome próprio, em que as pessoas pagam bilhete para me verem porque gostam de mim. Esse público está conquistado à partida. Mas nestes casos não é assim, e aí sinto alguma tremideira, penso como vai correr. É quase como ir ganhando o gosto de uma pessoa de cada vez até que, no final, as coisas correm bem ou correm mal. A maior parte das vezes tem corrido bem, felizmente, mas aí sinto um bocado de nervos e suo um bocadinho.

O “5 Para a Meia-Noite” marcou um período da televisão portuguesa. Que impacto teve no seu percurso profissional?

Foi o programa que teve mais impacto em tudo o que veio a seguir. Foram seis anos e meio. Fiz parte do elenco inicial, dos seis apresentadores iniciais, e fiquei quase até ao fim. Só não fiquei até ao fim porque, entretanto, o director de programas da RTP lançou-me desafios maiores e achei que também era a oportunidade certa de mudar e de os agarrar, e foi quando comecei a apresentar concursos e gostei imenso de fazer aquilo. Mas foram seis anos e meio de um programa com poucos meios em que éramos obrigados a fazer tudo e a pensar o programa do princípio ao fim, e serviu-me quase de escola, porque tinha de estar envolvido em todas as fases do processo - desde a escolha dos convidados à pesquisa para as entrevistas, e a escrita para as entrevistas, a escrita dos sketches e a interpretação; um bocadinho da realização também, porque era sempre discutido com o realizador de exteriores como aquilo ia ficar no final; na edição também tinha sempre uma palavra a dizer. Portanto, acabei por fazer tudo e tenho muita noção de todos os passos que são precisos para se montar um programa de televisão, e acho que isso me ajudou em tudo o que veio a seguir.

Quando lhe fizeram o convite para apresentar o “5 Para a Meia-Noite” imaginou o sucesso que o programa ia alcançar?

Nunca consigo antever o sucesso de nada daquilo em que me envolvo. Faço sempre as coisas com muita alma, com muito coração e muita vontade, e as coisas resultam quando nos entregamos. Acho que no “5 Para a Meia-Noite” aconteceu isso. Puxávamos todos para o mesmo lado num programa que tinha poucos meios, mas que nos divertíamos muito a fazer. O segredo do sucesso foi esse. Não tínhamos amarras nenhumas, fazíamos aquilo com total liberdade e independência. Podíamos fazer coisas más mas, de vez em quando, também fazíamos coisas muito boas. Acho que as pessoas gostavam de ver isso, gostavam de ver cinco indivíduos que não se importavam de falhar. Creio que as pessoas se identificavam muito com isso: nós mostrámos que era possível fazer televisão de forma mais humana, cometendo erros. Esse foi um dos grandes segredos do sucesso que o “5 Para a Meia-Noite” teve junto do público, poder-se assistir a cinco tipos que eram apresentadores de televisão, ou que foram empurrados para aquele papel, e que falhavam todos os dias um bocadinho. E as pessoas riam-se disso e nós ríamo-nos também. É muito importante sabermos rir-nos de nós próprios e crescer a errar. Acho que só crescemos se errarmos muitas vezes até conseguirmos fazer as coisas bem, e ali deixavam-nos errar. Eu cresci muito porque me permitiram fazer isso em televisão e em directo.

Seguiram-se trabalhos de apresentação em programas com diferentes formatos e de temáticas diversificadas. É uma boa forma de testar a versatilidade de um apresentador?

Sim. Até vou ser muito honesto: dava-me muito menos trabalho apresentar um concurso no prime time do que apresentar um programa como o “5 Para a Meia-Noite”, em que era uma semana inteira a trabalhar para aquele dia. Apresentar um concurso, depois de ter as regras bem metidas na cabeça, é só desfrutar, tentar conhecer um pouco melhor o concorrente e depois brincar com ele à medida que vá dando as respostas certas ou erradas e vá avançando no programa. Era um formato em que me sentia perfeitamente à vontade, porque ia para lá com a cabeça mais leve e sem tanta pressão porque, quando se idealiza um programa do princípio ao fim, mesmo de forma inconsciente, acaba-se por imaginar o programa todo na cabeça desde que começa até acabar. Num concurso parte-se de uma estaca zero e não se sabe onde vai acabar, só temos de nos divertir. A pressão era muito menor, mas o gozo também era tremendo.

É muito diferente fazer rádio de fazer televisão?

Acho que a rádio é muito mais instantânea e mais natural. Se eu quisesse - agora não acontece, mas de manhã acontecia - podia chegar à rádio cinco minutos antes de o programa começar e o programa começava e ninguém dava por nada. As pessoas não sabiam se eu tinha chegado uma hora antes ou se tinha acabado de chegar e estava esbaforido e a respirar fundo. Na televisão, não. Tem de se chegar com muita antecedência, há toda uma preparação com a roupa, o cuidado com a maquilhagem, o estúdio, e os meios do estúdio também são outros. Há muitos mais custos, há uma maior pressão para que as coisas corram bem, e na rádio, não. Na rádio é tudo mais natural, mais imediato, e também se cria uma relação mais próxima com as pessoas, porque falamos de nós todos os dias. As pessoas sabem de tudo da nossa vida. Hoje em dia passo por alguém na rua e essa pessoa pergunta-me se o meu filho está melhor, porque disse no dia anterior que ele estava doente. Isso trouxe uma grande diferença para a minha vida no que toca ao contacto mais estreito com as pessoas.

Como está a correr este novo desafio, o “6PM”?

Está a ser uma surpresa muito agradável porque tive de mudar as minhas rotinas. Já não acordo às 5h30, o que é bastante agradável. [risos] Sinto a cabeça mais fresca e mais liberta para criar. Acho que estou a conseguir fazer mais coisas do que fazia de manhã. Também é um formato diferente. Não temos humoristas, mas o facto de poder dormir mais horas fez com que o meu cérebro, de repente, se espreguiçasse e começasse a correr outra vez. Voltei a escrever, voltei a contribuir mais criativamente para aquilo que faço em rádio, e voltei a conseguir criar outras coisas e desenvolver outros projectos que acho que estavam na gaveta. Portanto, acho que só me tem feito bem. Também tive a sorte de ficar com a Mariana Alvim. Aliás, um dos motivos de ter aceitado esta mudança de horário foi poder fazer o programa com a Mariana, porque acho que temos uma química enorme e aquilo, de manhã, funcionava muito bem com ela, e acho que tem tudo para correr bem.

Nas manhãs acompanhava as pessoas quando estão a caminho do trabalho, das universidades, a levar os filhos para a escola. Agora acompanha-as no final do dia, depois de uma jornada de trabalho, mais cansadas, mas sempre com a missão de animar, de ajudar a descomprimir. Há uma preparação diferente para este programa de forma a responder a estados de espírito que são distintos nestes dois horários?

Temos essa preocupação. Sabemos que o ritmo é diferente, as pessoas já estão cansadas. Mas também acho que as pessoas, no regresso a casa e no trânsito, é uma hora complicada e ficam muito tempo paradas no carro. Também precisam de alguém que as distraia e que faça aquele tempo passar mais rápido. Portanto, a missão acaba por ser muito parecida. O cansaço das pessoas e o ritmo é que acabam por ser diferentes. Mas, como somos só dois em vez de sermos cinco, como acontecia de manhã, o próprio ritmo torna-se mais lento, temos mais tempo para falar os dois e falar de coisas diferentes. Esse ajuste acabou por ser automático, em virtude de sermos menos pessoas e de ser outro horário.

Não sei se dá para fazer uma escolha, mas dá-lhe mais gosto trabalhar em rádio ou em televisão?

Acho que não dá para escolher. Gosto imenso de fazer as duas coisas. No fundo, é comunicar e entreter, que é o que gosto de fazer. Por isso, venha o diabo e escolha - neste caso, a minha agente. [risos]

Outro dos seus gostos é a música. O público pôde testemunhar os seus dotes para a música no programa “A Tua Cara não me é Estranha” e também em algumas das paródias que fez na rádio. Constou-me que era uma presença assídua no karaoke.

Acho que foi aí que começou. Sempre gostei de cantar, mas também sempre tive alguma vergonha. As primeiras experiências de karaoke que tive foi em casa de um amigo meu que tinha uma aparelhagem que simulava o karaoke: abafava um pouco o som do vocalista, ligava-se o microfone e cantávamos. Ele tinha a aparelhagem no quarto e, enquanto os meus amigos cantavam ali à vez, eu escondia-me. Esticava o fio até ao hall de entrada da casa e ficava a cantar no hall, e o resto da malta estava no quarto, tal era a minha vergonha de cantar à frente de outras pessoas. Com o passar dos anos, e como o meu pai também gosta de karaoke, começámos a cantar músicas os dois e, às tantas, comecei a cantar algumas músicas sozinho até que, a determinada altura, já tinha um público só meu que já me preenchia os papelinhos do karaoke e vinha entregar-me: “Olhe, por favor, cante esta.” Era muito engraçado. Lembro-me da senhora do karaoke ligar uma vez para casa dos meus avós, lá no Algarve, a perguntar se não ia naquela noite, porque precisava de alguém para ajudar a animar a noite. Acabei por me tornar um habitué dos karaokes em Alvor e, hoje em dia, sempre que tenho uma oportunidade, canto e faço as minhas paródias musicais.

Ainda é possível ver o Pedro Fernandes numa noite de karaoke?

Agora, já não. Tenho vergonha outra vez porque as pessoas já me conhecem. Quando era um desconhecido, a vergonha passou-me. Agora voltei a ter vergonha. Mas nunca se sabe. Pode acontecer. Uma noite mais bem regada é um desinibidor incrível. E o “A Tua Cara não me é Estranha” foi mais um desses casos em que eu gostava imenso de participar naquele programa e, felizmente, aconteceu. Agora vou fazendo na RFM as minhas paródias musicais, como fazia no “5 Para a Meia-Noite”. Aliás, estou para lançar uma no mês de Novembro que acho que vai ter grande impacto.

Escreveu o livro “O Gigante com Pés de Princesa” durante a pandemia e num curto espaço de tempo. Como surgiu a ideia de escrever um livro?

Já tinha alguma vontade de escrever um livro e sempre soube que seria um livro infantil, não sei se por ter sido pai e por ter aquele hábito de inventar as histórias para os miúdos adormecerem - muito parvas na maioria dos casos e que não chegavam a lado nenhum. Esta foi uma das poucas boas que se safaram. Mas foi uma dessas histórias que um dia inventei para o Martim adormecer e, depois, ele gostou tanto que me foi pedindo várias vezes para a repetir, e eu ia acrescentando mais umas nuances. Um dia, a Fátima Lopes desafiou-me numa entrevista a passar esta história para livro, porque a tinha contado resumidamente no programa. Durante a pandemia acabei por ter mais tempo em casa e decidi sentar-me ao computador e ver o que saía. Inicialmente, não era para ser a rimar. Mas sempre que li livros infantis achei que tinham muito mais piada as histórias que rimavam e fiz o esforço para que fosse uma dessas histórias, e por isso demorou um bocado mais de tempo a escrever. Comecei a escrever num ano e depois parei, não estava para ali virado criativamente, e só no ano seguinte é que voltei a pegar nisto e decidi que tinha de concluir a história. Depois de escrevê-la mostrei-a à minha agente, a Beatriz, que disse que chorou ao ler a história, e eu pensei: “Eh pá, queres ver que isto está mesmo bom?” Como com tudo o que faço, ao início não acredito muito até ver a reacção das pessoas e dizerem-me que, de facto, estão boas. Ela mostrou à Porto Editora, que também adorou a história, e avançámos.

O livro acaba por ir buscar as suas experiências, em particular a sua experiência com o bullying. Tendo em conta o peso que o bullying tem na vida de tantas crianças e adolescentes, sente que é importante falar-se mais neste problema e que o seu livro é um contributo nesse sentido?

Quando contei a história, talvez de forma inconsciente tenha ido buscar as minhas experiências do passado e acabei por atribuir algumas características à história com base no bullying que também sofri na escola. Sofri bullying na escola e não contei aos meus pais, acabei por lidar com aquilo sozinho. Felizmente, correu bem, mas podia ter corrido mal. Podia ter entrado numa depressão. Há casos muito piores de crianças que tiram a própria vida porque sofrem bullying. Acho que, se as coisas forem faladas, conseguem ser tratadas e resolvidas. E se este livro, ao ser lido nas escolas, gerar esta discussão e as próprias crianças perceberem “se calhar gozo com aquele meu amigo por causa daquilo e, se calhar, não o devia fazer” ou lerem o livro em casa com os pais e dizerem “isto acontece-me na escola também”, isso pode ser um gatilho para os pais perceberem que alguma coisa está mal. Os miúdos, muitas vezes, escondem isto porque não querem dar parte de fracos ou não querem parecer medricas perante os seus pares, e as coisas acabam por evoluir até um ponto que, depois, pode não ter retorno. Quando escrevi aquela história introduzi de forma inconsciente o bullying mas, depois, quando me apercebi disso, achei que ao escrever uma história, ela teria de ter alguma mensagem. Espero que seja isso que “O Gigante com Pés de Princesa” esteja a fazer. Já recebi relatos de que isso está a acontecer, e que as escolas estão a falar sobre isso e vão pegar no livro como tema para discussão, o que é muito bom e fico muito satisfeito que aconteça.

Este percurso na literatura é para continuar?

Sim, acho que isto pode virar colecção. Já tenho outras ideias para outras histórias. Tenho de arranjar tempo para escrever outra história.

Já teve a oportunidade de trabalhar em vários projectos. Fez televisão, rádio, publicidade, escreveu um livro, fez a dobragem para filmes de animação. O que gostava ainda de fazer?

Já fiz um bocadinho de tudo. Gostava era de voltar a fazer mais coisas daquelas que já fiz e que me deram tanto gozo. Gostava de voltar a fazer teatro, gostava de voltar a fazer cinema, portanto, se calhar, voltar a experimentar algo na área da representação, voltar a ter esse gostinho que tanto gozo me deu das poucas vezes que fiz.

Sente que os portugueses têm um bom sentido de humor?

Temos, mas vivemos uma fase em que está toda a gente sempre à espera da falha do outro para o criticar e mandar abaixo. Isso causa-me alguma tristeza. Mas o que havemos de fazer? Temos de continuar a dar o nosso melhor.

Actualmente há uma maior consciencialização relativamente a vários temas, a cancel culture é um fenómeno que tem peso. Isso reflecte-se em mais amarras sobre o humor?

Não devia ser tudo oito ou oitenta. Hoje parece que tudo ofende. Realmente há coisas em que a mudança foi para melhor e apercebemo-nos que antes fazíamos ou dizíamos coisas que não eram as melhores coisas a fazer ou a dizer. Mas, por outro lado, acho que se está a levar isto a um extremo em que não se pode brincar com nada. Há coisas que fiz n’“A Revolta dos Pastéis de Nata” que, no presente, seriam impossíveis de fazer. Mas as coisas têm de ser vistas e analisadas de acordo com o contexto e com a época em que são feitas. Saber olhar para trás e reconhecer o que fizemos mal e não o repetir é uma coisa, sermos cancelados por coisas que fizemos mal porque, naquele contexto, aconteciam, isso é algo completamente diferente.

Mas tenta ter mais algum cuidado ou avaliar o que faz tendo em conta este momento que atravessamos?

Quando se pensa em fazer algo num guião, algo escrito, uma música ou o que quer que seja, é claro que temos tudo isso em consideração. Agora, quando estamos a fazer um programa em directo, por vezes pode sair alguma coisa da qual podemos arrepender-nos a seguir. Mas já está tão enraizado este cuidado redobrado que as coisas estão muito mais controladas.

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