“Paguei o preço por me ter exposto ideologicamente. Nessa altura senti-me a abalar”

João Manzarra é das caras mais conhecidas e acarinhadas pelo público português, graças à passagem por vários formatos duradouros de sucesso que marcaram a última década da SIC. Nos últimos anos trocou a cidade pelo campo e encontra-se numa fase que lhe permite conciliar a exposição mediática da vida televisiva com outras questões prementes: a causa animal, a falta de sustentabilidade e o consumismo.



Em que medida o “Curto Circuito” foi uma escola para si?
Todo o trabalho acaba por ser uma aprendizagem e, em televisão, o “Curto Circuito” foi a minha primeira. Eu era uma folha em branco a nível televisivo. Sendo um programa com tão poucos muros, em que havia espaço para improviso, em que havia muita disponibilidade para brincar com as câmaras, em que o erro era altamente aceite - e, como se sabe, aprende-se muito com os erros -, a palavra escola é facilmente utilizada. Talvez, mais do que escola, nesta fase da minha vida, diria mesmo ATL. Não havia esse rigor que existe muitas vezes noutros formatos, em televisão generalista.

Como foi a transição da SIC Radical para a SIC generalista?
Recordo-me de que, nessa altura, não trouxe nada de muito diferente do que trazia do “Curto Circuito”. O que fez com que me fossem buscar foi, possivelmente, o agrado com a minha proposta de até então. E eu depois fui dando nuances, pequenas diferenças para aquilo que me era pedido, mas foi uma coisa gradual. Eu nunca tive de pensar muito no que teria de mudar. Fui apresentando a minha proposta, aquilo que sou, que é muito perto daquilo que é a minha pessoa social, com os amigos e quando tenho de entreter, e essa proposta foi agradando às pessoas que me iam contratando. O entusiasmo era sempre o mesmo, não houve uma grande mudança. O meu espaço em televisão foi mais um passo a seguir ao outro do que propriamente uma subida abrupta.

Quão importante foi o “Ídolos” para a sua carreira?
O primeiro “Ídolos”, que apresentei com a Cláudia [Vieira], foi, possivelmente, o programa de televisão com mais impacto que me recordo de ter apresentado, e acho que as pessoas também se recordam muito desse programa. Foi daqueles programas que o país parava para ver e foi o meu segundo programa como apresentador na SIC generalista. Naturalmente, causou muito impacto, deu-me uma projecção muito grande. O meu nome, de repente, era muito falado. Também devido a todos os ingredientes que o programa tinha, havia ali um formato em que todas as peças encaixavam e eu era uma delas. Mas, como a maioria das pessoas não me conhecia, isso suscitou muita curiosidade, teve um grande impacto mediático. Foi um salto bastante grande, de repente. E eu era muito novo, na altura, para todo esse impacto que se gerou à minha volta. Tinha a fama, tinha os convites. As pessoas colocavam-me num pedestal que eu não compreendia. Dei por mim e havia uma euforia à minha volta maior do que aquilo que eu era, olhando para trás. Foi um programa que atingiu audiências recorde e a SIC não era uma estação líder de audiências na altura. Tive uma sorte grande de apresentar o “Ídolos”. E, claro, terá trazido expectativas para mim enquanto apresentador. E foram-me dando outras oportunidades, que fui concretizando, umas melhores que outras.

Já apresentou quase todos os formatos televisivos. Que tipo de programa gostava ainda de fazer?
Gostava de fazer um programa mais de rua, inserido numa área mais de reportagem e documental. É engraçado como as pessoas mudam: antigamente, a minha resposta teria sido um programa de viagens, o que até continua a ser algo bastante apelativo e, provavelmente, ainda gostaria de fazer algo assim, mas, na verdade, não tenho essa resposta muito amadurecida porque não é uma coisa sobre a qual pense muito.

Numa entrevista com alguns anos disse que não tencionava ser apresentador de televisão para sempre. Ainda pensa assim? Que outros planos tem?
Eu, agora, penso de maneira diferente. Por ter vivido uma fase da vida em que estava com dificuldade em encaixar a hiperexposição que tinha e o desgaste a vários níveis que isso acarreta, não estava a conseguir entender a minha vida para sempre nesse registo. Durante os últimos anos consegui transportar a minha vida para um lugar diferente. Uma vez que saí de Lisboa, acabo por conseguir ter um espaço onde consigo respirar, não ter uma cadência que a vida de cidade traz e poder jogar com isso, com uma harmonia diferente, mesmo sendo uma pessoa com mediatismo. Hoje em dia tenho uma vida que se encaixa muito mais no meu perfil, sendo apresentador, do que há uns anos atrás. Isso deixa-me feliz. Já não tenho muito essa intenção de deixar a apresentação. A minha resposta mudou. O ser humano não é estanque, daí distinguirmo-nos dos animais. O meu cão, desde que o conheço, não mudou muito. Nós, não. O ser humano tem essa capacidade incrível de se transformar. O contexto, as circunstâncias, crescer... muda muito as nossas expectativas. Estou a achar interessante falarmos disso, que foi uma coisa que disse há uns anos. Há dez anos, quando fiz o “Ídolos”, era difícil sentar-me a ler um livro; hoje, não há dia que passe sem que não o faça, por exemplo.

Já apresentou, ao longo dos anos, vários formatos que tiveram continuidade: “Ídolos”, “Vale Tudo”, “Factor X”, “A Árvore dos Desejos”, “A Máscara”. Como acha que adquiriu tamanho capital de simpatia por parte do público?
A verdade é que sinto essa simpatia por parte das pessoas. Também é verdade que os programas que apresentei nem sempre obtiveram os resultados pretendidos, mas também já senti o contrário, que, noutros momentos, essa simpatia não esteve tão presente. Eu tive sempre um impacto muito positivo quando aparecia. Acho que apareço de uma maneira diferente; não é mais profissional ou mais rigorosa, é diferente. Depois houve outra fase, que foi quando expus algumas mudanças na minha vida, nomeadamente quando mudei de alimentação para vegan. A maioria das pessoas não adoptam os hábitos que eu adopto, e nessa altura senti que comecei a ser uma pessoa algo caricaturável. Havia uma grande parte das pessoas que aceitavam plenamente mas, de outra camada, senti alguma perda de empatia. Também me manifestei publicamente, há uns anos, sobre a questão dos refugiados, e, nessa altura, as reacções foram muito violentas, com algumas ameaças, muito ódio. Paguei o preço por me ter exposto ideologicamente. E, nessa altura, senti-me a abalar. Agora tenho vivido uma fase mais de reconciliação. E o programa que foi fundamental para isso foi “A Árvore dos Desejos”. Foi um programa que me aproximou muito daquilo que eu sou, trouxe muita verdade. E, felizmente para mim, as pessoas gostaram daquilo que viram. E acredito que algumas dessas pessoas tenham pensado: “OK, este gajo até é porreiro.” Há outros programas em que há um certo afastamento do público, é o apresentador que vem de fato com o microfone. Nós, quando estamos no um-para-um, as relações, geralmente, são melhores - e esse programa trouxe essa proximidade.

Especificamente em relação ao “A Máscara”, que vai na terceira edição, quais acha que são os factores de sucesso do formato?
Os programas repetem-se porque têm audiência. “A Máscara” é um programa intergeracional. Acho que é interessante haver conteúdo televisivo a que os pais possam assistir com os filhos. Isso é muito bom. Não é à toa que “A Máscara” aparece sempre numa época de férias dos miúdos. O programa é brincadeira do princípio ao fim. Enaltecemos muito a brincadeira: entre nós, os investigadores, as irritações que os miúdos têm. Nós próprios ficamos muito crianças a fazer este programa. E depois é um grande jogo das escondidas, destapamos e mostramos quem é a pessoa. E na brincadeira há espaço para toda a gente, adultos e crianças.

Para si, como é apresentá-lo?
Eu adoro apresentar “A Máscara”! Costumo dizer isto: “A Máscara”, ou as pessoas entendem que é uma grande brincadeira e adoram, ou não percebem bem o programa. Também há quem perceba e não goste, claro... Felizmente, a maioria gosta e percebe. Para mim, é exactamente o espaço para dizer o que quero. É uma competição muito leve, mas antes, sim, uma grande diversão. Já tive programas mais emocionais ou em que havia um sonho mais presente, mas também me sabe bem ter um programa com esta leveza de entretenimento e poder realmente extravasar e dizer coisas que nunca esperei dizer na vida.

Imagino que, nos últimos anos, os convites de outros canais tenham sido muitos.
[Risos] Já houve, naturalmente, sim. Algum assédio e algumas conversas nos últimos 15 anos. Interessante que já mudei de agência, de namorada, de casa, de carro. Só não mudei de estação nem de país.

Dá poucas entrevistas. Porquê?
Primeiro, porque moro longe. [Risos] Sinto também que as redes sociais criam um bocado isso, no sentido em que há menos coisas exclusivas para dizer. O que tenho para comunicar, faço-o directamente através das redes sociais. E dou poucas entrevistas também porque com muitos dos órgãos de comunicação que me pedem entrevistas já tive um ou outro problema, quer de violação da privacidade, incomodarem os meus familiares ou inventarem e publicarem coisas sobre mim, o que é muito incómodo. Há muitos órgãos de comunicação com que não falo. Tenho até processos em tribunal com algumas revistas. Nunca fui muito de me expor e falar da vida pessoal, especialmente porque a vida pessoal traz a pessoa dos outros: a minha vida pessoal são as pessoas que estão à minha volta, e acho que é importante que mantenham a sua privacidade.

Como tem sido a convivência com o Bruninho [burro que o apresentador adoptou e baptizou em homenagem a Bruno Nogueira]?Tem sido boa, mas o Bruninho tem-se revelado um animal muito excitado... Isto, agora, é um desabafo: quando resgato o Bruninho, ele estava amarrado num descampado, subnutrido e com feridas, e eu pensei, na altura: “Qualquer vida que eu lhe der é melhor.” Só que tenho um espaço para o Bruninho onde ele está sozinho. Vou lá eu e um vizinho, que me ajuda a tomar conta dele, mas, às vezes, penso: “Ele poderia ter uma vida ainda melhor.” No outro dia fui a um santuário de burros e custou-me ver lá os burros todos juntos. Eles são animais gregários, temo que o Bruninho possa estar ali um bocadinho sozinho. Tanto é que, quando vou lá, ele vê-me como um igual e tem brincadeiras muito brutas. Estou, portanto, numa fase em que estou a pensar arranjar uma vida melhor para o Bruninho.

Qual a sua opinião sobre o veganismo fundamentalista?
Para mim, não existe algo que seja um vegano fundamentalista. Uma pessoa vegana é alguém que tem para si muito claro o quer para a vida: não utilizar nada que tenha recursos animais. Tenho algumas regras para mim: em casa, são só coisas de origem vegetal. O facto de ter mudado de uma vida de cidade para uma vida no campo permitiu que mudasse algumas coisas. Hoje em dia, posso dizer que sou vegan 98% das vezes. Posso ainda ter um cinto, uns sapatos ou os estofos do meu carro em pele, que tinha antes de ser vegano, e não me pareça que deva mudar o discurso por isso. Claro que não vou ao McDonald’s ou comer uma entremeada. E, para não haver aqui conflitos de discurso nem hipocrisia, até posso dar outro exemplo: para a minha casa, só faço compras de origem vegetal, mas o meu vizinho tem ovos de galinhas que vivem impecavelmente ao meu lado e passei também a comer ovos; se em casa de amigos me derem uma sobremesa com lacticínios, eu provo. O meu discurso mudou um pouco, mas em nada isso envolve as minhas convicções sobre o sofrimento que a indústria animal causa, como também na questão ambiental. Tive estas pequenas actualizações, mas o que para mim está certo é ser vegano. Quanto mais o veganismo estiver presente, quanto mais oferta, quanto mais esta cultura crescer, melhor para todos. Para os animais, para o planeta e para a nossa saúde.

Além da causa animal, que outras actualmente importam para si?Actualmente, a sustentabilidade é algo que está muito presente. É fundamental, na minha essência, ser porta-voz para comunicar dentro dessa área. Ultimamente, além da causa animal, que defendo, a ligação entre o consumo de animais e o seu impacto ambiental é muito importante. Tenho-me focado também em algo de que fui vítima durante muitos anos e continuo a ser, tal como todos, que é o excesso de consumo. Há um impacto muito grandes das coisas que dizem que temos de comprar, que temos de ter para pertencer, coisas que nos colocam em determinados estatutos sociais. Ou que não colocam: ter diz-nos quem somos, não ter diz-nos também quem somos. Eu próprio tenho o impulso de consumir mais coisas do que aquelas de que necessito. Esta tendência de ter de apresentar novos looks, mudar de carro, do telemóvel que se troca todos os anos porque saiu um modelo novo, esta cadência de consumo interessa-me bastante abordar. Eu até já fui veículo de pedir às pessoas para comprarem um carro, um computador ou o que seja, através da publicidade. Essas são questões das quais, hoje em dia, tento abstrair-me ao máximo, tratando-se de coisas de consumo imediato e rápido.

Isso foi diminuindo o seu leque de compromissos publicitários?
Não faço publicidade para nada que envolva recursos animais, mas, agora, também com todas as marcas com quem trabalho tenho sempre bastante cuidado em saber qual é o impacto que vão causar a nível de sustentabilidade. E, claro, o leque de marcas com quem posso trabalhar foi-se reduzindo ao longo dos anos, mas está tudo bem, é só uma questão de opções da minha parte.

É importante para si estar envolvido em causas sociais enquanto figura pública?
Para mim, sim. A vida boa, que antes era um lugar confortável, em que recebia o meu dinheiro e desfrutava dele, deixou de ser boa, no sentido em que isso traz um vazio muito grande. A vida boa passou a ser aquela em que acrescento a possibilidade de comunicar coisas que são importantes para melhor convivermos e estarmos em sociedade, para que o mundo seja um lugar melhor: é nisso que acredito. Claro que essa é a minha perspectiva daquilo que é o melhor e em que, muitas vezes, estão em desacordo do outro lado, mas deve também haver abertura ao diálogo. Ser um agente de informar, mas também um agente de dialogar. Para mim, é importante. Para outras pessoas, não será. E talvez tenham uma vida óptima e realizada sem essa parte. Ter causas é essencial para o que considero uma vida boa porque a vida boa implica um sentido.

Há uns anos manifestou-se publicamente pela causa dos refugiados. Como foram as reacções?
Na altura, agi activamente por ter sentido que era necessário pensar no que se poderia fazer para aproximar aquelas pessoas distantes e que pareciam uma ameaça de nós. Nós relacionamo-nos com pessoas no nosso dia-a-dia quando saímos de casa que, anteriormente, considerámos distantes por alguma razão, mas que acabaram por adquirir uma proximidade e que consideramos como iguais. Nesse sentido, senti que poderia haver um canal de aproximação através das palavras e dos gestos, mas entrei num espaço onde já havia muita violência de discurso, e nem sempre foi fácil sentir que havia tanto ódio e tanta raiva na nossa sociedade. Receber ameaças e fazer parte de um discurso tão violento foi bastante complicado. E é difícil saber como não se alimenta esse discurso. É difícil não alimentar o monstro do ódio, responder, não responder... É difícil lidar com isso. Este é um assunto que agora está mais distante da esfera pública, infelizmente, porque ainda há muitas pessoas por acolher. E temos de ver também que o ódio não vem apenas do nacionalismo, de radicais, fascistas ou de extrema-direita. Muitas famílias viam com maus olhos essas pessoas que poderiam vir. Quando esse tipo de atitudes está remetido para uma extrema-direita, está tudo bem, é isso que os radicalismos fazem. O que aconteceu foi um aproveitamento do medo das pessoas normais, semeando o ódio.

Como se sente ao perceber que as suas escolhas poderão influenciar também as escolhas do público?
O influenciar, honestamente, até é um pouco assustador. Só me sinto bem quando, do outro lado, essa influência vem com felicidade. Se fiz com que alguém mudasse e a vida dessa pessoa se tornasse uma vida melhor, claro que fico muito feliz. Nessas condições, sim, é gratificante. Embora também sinta que nem tudo serve a todos. O que faço é apresentar a proposta de vida que me serve e porquê, mas nunca um papel de dizer ao outro o que fazer. É mais do género: “É isto que eu faço, é isto que eu sou.” Se isso servir a outras pessoas de forma positiva, tanto melhor.

*Entrevista editada por Octávio Lousada Oliveira

$!“Paguei o preço por me ter exposto ideologicamente. Nessa altura senti-me a abalar”
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