Mariana Alvim: “Estou num meio que tem mais fama do que proveito”

Mariana Alvim, 43 anos, é uma das apresentadoras de “6PM”, programa de fim de tarde da RFM de segunda a sexta-feira. Mãe de três filhos, antiga marketeer, ex-guionista dos “Morangos com Açúcar” e da novela “Meu Amor”, galardoada com um Emmy, Mariana Alvim agarrou a rádio na última chamada, apesar de um táxi quase ter deitado tudo a perder. É também a voz do podcast “Vale a pena”, em que os entrevistados recomendam livros, uma paixão assumida. Não se vê mais 30 anos a fazer a mesma coisa e anseia por desafios.



Estou em frente a uma escritora, como disse à sua professora quando tinha 13 anos, a uma profissional de marketing, a uma guionista ou a uma radialista?

Eu, escritora, não tenho coragem de me chamar, sou uma escritora wannabe. Tenho essa aspiração e já escrevi três livros para adolescentes, mas gosto mais de dizer escrevedora. Sem dúvida que estou sempre a escrever, pelo menos na cabeça, mesmo não que esteja tudo anotado no papel. Mas sou um bocadinho disso tudo, portanto. Fui guionista, fui marketeer, sou radialista. Sim, sou um bocadinho de tudo.

Se lhe perguntarem: “Profissão?”

Se me perguntarem “profissão?”, eu digo locutora de rádio. É o meu emprego. Mas escrevo sempre que posso. Tenho um podcast, também já sou uma podcaster, gosto imenso.

Tem três livros para adolescentes editados na Colecção Fininhos e já disse que não são obras autobiográficas, apesar de haver uma personagem inspirada em si, por ser muito magra.

Sim, tinha complexos de ser magra demais.

Mas a história saiu toda da sua cabeça?

Sim. Quando me fizeram o convite, não houve briefing. Ou seja, disseram-me: “Queremos um livro de adolescência sem fantasia.” Na altura estava muito na moda o Harry Potter. Queriam uma coisa realista. Depois fui falar com a minha mãe, que me disse: “As adolescências são normais.” Quando escrevi “Morangos com Açúcar” sentia isso. Por mais que as gerações sejam diferentes da nossa, os sentimentos são os mesmos, somos as mesmas pessoas, os medos, os receios, as inseguranças. E então peguei nisso. Eu era magrinha demais, tinha muitos complexos por isso, mas todos os jovens têm outros complexos, mesmo que não sejam esses. Não é nada autobiográfica a não ser por essa coincidência. Foram as coisas dos 15 anos, as conversas das amigas. Depois, o que aconteceu foi que escrevi o primeiro e o segundo livros e, ao escrever o terceiro, reli os outros dois e tive de reescrevê-los. Porque, de repente, tinham passado seis anos, elas ainda trocavam mails e não iam à internet durante as férias de Verão. Não era realista. Qualquer miúdo de 15 anos tem um smartphone, já não é por mails que se fala, é por WhatsApp. Na altura, de repente, tudo mudou. Tive de inserir o Instagram, tinha de haver referências a essas coisas.

Da forma como o mundo gira, arrisca-se a ter de reescrever novamente.

Tem razão. O TikTok, teria de meter. O meu filho mais velho já tem uma aplicação nova que eu nem sei qual é.

Mas como começou essa aventura na escrita?

Eu já era guionista, já escrevia os “Morangos com Açúcar”, que era um sonho antigo. Durante e depois da faculdade fui trabalhar em marketing, mas tirava cursos de escrita, pensando sempre “esta não é a minha paixão, o que é que eu estou aqui a fazer” a ir numa direcção contrária àquela de que gostava. Se nós temos os nossos sonhos, embora tentar caminhar para eles. Houve uma editora, que agora já não existe, que veio ter comigo a perguntar se eu gostava de escrever um livro para adolescentes. Partiu deles o convite e, depois, a ideia foi toda minha.

E agora está a escrever um romance.

Às vezes falo nisso para me obrigar a continuá-lo, mas sim. Eu leio tanto, acho sempre que há coisas tão boas, quem sou eu para escrever um livro? Mas estou a escrever um romance.

Em que ponto está?

Estou um bocadinho a mais de metade, tenho mais de 100 páginas escritas, parei há um ano. E agora tenho muitas ideias e até alterações, que já as fiz, algumas anotadas em papel. Continuo a escrever, mas agora mais na minha cabeça. Tenho tudo num dossiê e muitas notas para continuar, não quero parar.

E quando podemos comprar?

Gosto que me dêem prazos. Com essa pergunta, sinto pressão, mas gostava de dizer que para o ano vou acabá-lo. Talvez funcione melhor dizer se disser no Natal do ano que vem.

Na pesquisa que fiz vi uma metáfora muito engraçada em relação à sua vida. O seu pai comprou um saxofone aos 60 anos e a Mariana comprou o seu bem mais cedo, quando deixou uma vida muito bem paga no marketing.

Na faculdade tinha estágios obrigatórios e fui parar à Unilever, uma multinacional. Fiz Erasmus em Bruxelas e voltei para acabar a faculdade. Vinha um bocadinho “quero sair daqui, quero fazer outras coisas”, e então, o estágio numa multinacional... achei que para currículo era óptimo, para depois ir lá para fora. E, de repente, estava em marketing nesse tal estágio. Fui ficando mais tempo também do que era preciso na faculdade, mas para criar currículo, e, de repente, é isso: estabilidade, ter um emprego bom quando se sai da faculdade, tempo de vacas gordas, um óptimo ordenado ainda a viver com os meus pais. De repente, passaram cinco anos e eu ainda lá estava. E quanto mais sénior somos, menos giro é. Sentia que queria fazer rádio, queria fazer escrita, não era essa a minha área.

Estava acomodada ao ordenado?

Sem dúvida. E não só. Porque hoje sei com facilidade dizer que o ordenado não é tudo. Porquê? Porque, depois, acabei por ir para outras áreas de marketing noutras empresas, fazendo estágios em rádio e ia concorrendo a alguns concursos. E ganhei alguns. Tirava férias, tirava cursos em pós-laboral, e também tirei férias para tirar cursos de rádio e de escrita. E quando mudei de emprego novamente para uma editora, a sentir que o gosto é livros e o marketing é que me paga as contas... aí, já era mais sénior ainda e tinha de fazer Excel e análises, e vivia no computador, e o giro de uma editora são os livros, que eram 2% do meu trabalho. Então fiz uns testes de guionismo, quando trabalhei na TVI também, para escrever novelas, e aí foi o meu recorde de ordenado. Já não era tempo de vacas gordas, mas ainda tinha boas condições, e não estava nada feliz. Portanto, na altura, a frase que eu disse foi “tenho 28 anos e um filho, não tenho 40 anos e três filhos”, que é o que acontece agora, e então é agora que arrisco. Fui ganhar muito menos. Sem dúvida que o ordenado ajuda porque casei cedo, tinha uma renda para pagar, tinha um filho já para tratar, fui mãe cedo também, e não tenho heranças ou parentes ricos, dependia de mim e do meu marido. Não sabia se estava a ser corajosa ou irresponsável, mas tinha poupanças. Fui ganhar muito menos, fui seguir os meus sonhos e, finalmente, pôr-me então na estrada certa para o sonho que queria, e comecei a escrever telenovelas. Depois consegui ser aumentada, mas tinha de tirar poupanças todos os meses para pagar contas. E fazia um sacrifício. O meu marido alinhou, mas acabou o almoçar fora com amigas ou ir comprar uma camisola.

E foi aí que disse ao seu pai que não ia comprar o seu saxofone só aos 60 anos.

Exactamente. Falei com os meus pais e disse: “Não estou a pedir opinião, estou a informá-los que amanhã me vou despedir.” Foi um choque enorme porque estavam muito orgulhosos por eu ser marketing manager. De repente disse que ia largar tudo, ia passar a receber a recibos verdes e ia escrever novelas para a TVI. Os meus pais ficaram calados, e eu: “Então, pai, não diz nada?” “Tu disseste que querias só informar, não querias opinião.” E foi aí que eu disse ao meu pai que ele tinha comprado o saxofone aos 60 anos e eu gostava de comprar o meu antes. Porque o meu pai seguiu muitos sonhos depois de se reformar e ainda está a fazê-lo. Tirou um curso de mergulho, é um reformado que está a fazer muita coisa, e eu gostava de fazer essas muitas coisas antes, em jovem.

Quando deixa essa vida boa, com um bom ordenado...

A segurança.

... sim, passou a receber um quarto do ordenado e a recibos verdes.

Literalmente.

Mas... já recuperou?

[risos] Agora estou num meio que tem mais fama do que proveito em termos de condições. É um meio giríssimo, mas não é um meio rico. O que tenho agora é a possibilidade de ter vários empregos e vários projectos. Já não tenho 20 anos, tenho 43, tenho três filhos. Agora, graças a Deus, para mim, o mais importante é conseguir pagar contas e dar boas condições aos meus filhos. Não é a segurança fixa ao final do mês que tive, mas estou numa empresa segura e que se porta bem, e estou nos quadros. Portanto, isso também me dá segurança, claro, e depois é tentar trabalhar mais e o máximo.

E é muito mais feliz?

Sou muito mais feliz, sem dúvida. Por isso é que digo às minhas amigas que, de facto, já ganhei um grande ordenado-base e, a essa base, nunca mais lá cheguei, mas sou feliz, e não era o dinheiro só que chegava, porque passamos muito tempo do nosso dia e da nossa vida a trabalhar.

Foi guionista dos “Morangos com Açúcar” e da novela “Meu Amor”, a primeira a ganhar um Emmy. Isso é uma medalha para si?

Na altura, foi vaidade, foi giro, nunca tinha acontecido cá. Foi todo um mundo e um orgulho fazer parte de uma equipa que teve esse mérito, mas não é do que mais me gabo. Até falo mais que escrevi os “Morangos”, que foi uma escola enorme como escrita e até com malta jovem. Não é o Emmy nem a medalha, foi a escola que tive durante esses dois anos. Foi muito, muito giro. O meu orgulho vem mais daí.

Esses anos ajudam-na de alguma forma hoje, na sua profissão?

Na facilidade de escrita e de diálogo, que é uma coisa que se usa muito em rádio. Estive sete anos no marketing a pensar que tinha perdido sete anos da minha vida até ir realmente para onde eu queria. Mas, agora, vejo que não, que foi um investimento. Tenho ferramentas de cada área por onde passei e a Mariana que sou hoje é graças a isso, em termos de ritmo, em termos de trabalho, em termos de entrega. E de esforço também, porque eram muito exigentes as minhas áreas. Portanto, trago essa escola, sem dúvida.

Ganhou vários castings de rádio, mas devido àquela segurança de que já falámos foi sempre abdicando desses primeiros lugares. Sente que a RFM era a sua última oportunidade?

Completamente, foi exactamente isso que me fez ir. Tinha ganho um casting na Mega, que é do grupo. Quando estava na Unilever tinha entrado num estágio na Renascença como jornalista. Também optei pela Unilever, ainda com ideias de ir lá para fora. Mas uma história de amor deixou-me cá em Portugal, fez com que cá ficasse, e valeu porque já estamos juntos há 20 anos. Eu estava muito contente como guionista e a novela “Meu Amor” ainda não tinha acabado quando a rádio me chamou, e até pedi para acabar a novela e a rádio disse que me queria imediatamente. Isso até me custou, porque estava mesmo feliz na minha profissão. Estava todo o dia a escrever e sentia-me em casa. Encontrei-me. Estava felicíssima e realizada. E era uma profissão bastante exigente. E o que senti foi exactamente isso. Estive a escrever um programa da manhã para uma rádio, estive a treinar para outra rádio, de outro grupo que não é o meu, foi o tal estágio que não foi da Renascença. Last call, é agora ou não é.

Mas quando percebeu que era a mesmo a sua última oportunidade?

Foi quando ganhei o casting. Só o casting em si... Eu tirei férias para estudar a RFM, que não era uma rádio que ouvia muito até porque andava de transportes. Estava completamente focada, “tenho de ganhar este casting”, e eram mil e tal mulheres a nível nacional. Lembro-me de tudo. Lembro-me de que tinha cinco euros no táxi para chegar ao casting e estava tanto trânsito que o táxi ia em frente para o Cais do Sodré. Só tinha cinco euros e disse que tínhamos de passar por uma caixa Multibanco. Mandou-me sair do carro e fui do Cais do Sodré ao Chiado a correr, esbaforida. Foi tudo um sofrimento até à última. Lembro-me também de escrever a novela da noite com phones, a ouvir a emissão da RFM para os conhecer, para falar a língua deles, para estar preparada para as segundas e terceiras etapas no casting. Vivi muito isso, as minhas colegas também, e depois, quando ganhei, nem queria acreditar e pensei que tinham valido a pena todos os cursos que tirei de comunicação e de rádio. Valeu o currículo paralelo que estava a construir e que achei que era só por passatempo.

Durante o casting, já tinha decidido que ia dizer sim a essa última chamada?

Não era um emprego, era um estágio de quatro meses, e, por sorte - e eu acredito que o universo se mexe -, o meu emprego era no Chiado, onde era a rádio. Ia às 5h00 para a rádio, o programa acabava às 10h00, e depois ia a correr para uma rua mais abaixo, no Chiado, escrever novelas. E houve dias que me custou horrores. Acordava às 5h00, já não rendia tanto e tinha um bebé de dois anos. Foi duro, foi uma boa dieta.

Dormia poucas horas?

Poucas, cinco horas. E é engraçado porque nessa altura decidi: “Quero fazer rádio, mas não quero este horário da manhã.”

Está na rádio há 13 anos.

E fiz o “Café da Manhã” durante nove anos e meio.

Como está a rádio em Portugal?

Está a crescer, curiosamente. Temos cada vez mais vídeos e mais facilidade de acesso a tanta informação, mas as audiências de todas as rádios continuam a crescer.

Acha que a rádio conseguiu adaptar-se aos novos tempos?

Ainda temos de nos adaptar mais. Imagino no futuro, no carro, podermos pôr para trás. Falta só isso, que já temos na televisão.

Tem três filhos e o mais velho tem 16 anos. Ele ouve rádio?

Não.

Como se combate isso? Para as audiências serem boas é preciso conquistar as próximas gerações?

É uma boa pergunta. Pensamos nisso e, devagarinho, temos de estar onde eles estão. A RFM tem uma aplicação, por exemplo, que se pode ouvir online, no telemóvel. E, aí, estamos a tentar de todas as formas estar onde eles estão.

Não tem receio de que essa nova geração não tenha a mesma apetência para a rádio?

É uma pergunta difícil, porque ninguém sabe o futuro. O que já está a acontecer é que as pessoas do TikTok e do YouTube estão a ir para a rádio. Ainda há o ir atrás de um ídolo: se os miúdos gostam daquele youtuber e ele, agora, está na rádio, isso faz com que ouçam rádio. E os miúdos ainda andam com os pais à boleia e os pais ouvem rádio no carro.

Esteve muitos anos no “Café da Manhã” e passou agora para o “6 PM” - Pedro [Fernandes] e Mariana. Adaptou muito a sua linguagem?

Não. Sou a Mariana que conheciam de manhã.

É precisamente igual? Não teve nenhuma fase de estudo nem de avaliação do tipo de ouvinte que há de manhã e ao fim da tarde?

Ao princípio, o que achámos foi que, de manhã, temos de ajudar as pessoas a acordar e dar-lhes a energia para superarem não só o trânsito, que é uma chatice, como a neura de irem trabalhar. Temos a missão de ajudar as pessoas a acordar bem-dispostas, e isto não é um clichê. Ao princípio, ainda pensámos: “Bem, se calhar, ao final da tarde, as pessoas estão cansadas, estão a ir para casa, e o registo é mais calmo.” Mas, na prática, não fizemos essa mudança. Já vínhamos moldados das manhãs. Eu sou muito eu e o Pedro é muito ele, e nós somos genuinamente divertidos e com energia. Portanto, acho que acabámos por não mudar. Parece-nos que o feedback é positivo porque temos muitas mensagens e muita interacção. Se calhar, daqui a uns tempos percebemos, através de um estudo ou de umas audiências, que temos de ser mais calminhos. Aí, tentaremos adaptar-nos e falar a linguagem dos ouvintes do final da tarde. Mas, para já, somos os mesmos.

Há muita concorrência entre o “Já se Faz Tarde” da Comercial e o “6 PM” da RFM. Costuma ouvir a concorrência?

Não dá para pôr para trás. Não consigo ouvir quem faz no meu horário, mas sim, sempre que posso vou espreitar.

Após tantos anos de manhã, a decisão de passar para a tarde foi sua?

Foi uma decisão da RFM.

E como encarou essa decisão?

Eu sabia que iria acontecer mais cedo ou mais tarde, isto é cíclico. Nunca esperei estar tanto tempo nas manhãs. Foram quase dez anos. Ninguém estava à espera, e éramos uma equipa relativamente recente que viveu 90% do tempo numa pandemia, separados, em casa. E agora é uma adaptação, ou seja, isto também tem a ver com a nossa vida pessoal, com a logística. O meu marido levava os meus filhos à escola e eu ia buscá-los à tarde. Era a motorista da logística toda. A minha primeira fase foi “que horror, vou deixar de os ir buscar e tratar da logística”. O meu marido tem um restaurante e também tem de se adaptar, porque é um emprego a que eu não posso faltar. Depois tive a fase de “olha que bom, não vou levá-los nem à ginástica, nem ao râguebi, nem à natação”. Mas é óptimo matar saudades de vê-los de manhã e acordá-los para irem para a escola. Fisicamente, o que eu sinto mais no meu corpo é o bom de não acordar às 5h30. Não tenho saudades nenhumas. Estou mesmo a celebrar este novo horário. Também me está a custar, porque vejo menos os meus filhos. De repente, chego às 20h30 a casa e estão à minha espera para jantar. Custa-me um bocadinho também. Mas, por outro lado, não estou com mau feitio porque não estou refilona. Não é saudável acordar às 5h30 da manhã. Portanto, eu achei sempre que seria por pouco tempo e, de repente, foram quase dez anos.

Agora, já pode sair à noite.

No outro dia tivemos um jantar de aniversário e o meu marido veio ter comigo e disse: “Já reparaste que ainda não pediste para irmos embora?” A primeira grande mudança deste novo horário é que já não olho para o relógio.

Vê-se a fazer televisão?

Já fiz algumas experiências. Durante muito tempo, disse que não, porque sou de uma geração que, quando entrou em rádio, não havia redes. E eu, muito honestamente, adoro o anonimato. Agora, já não o temos, mas, quando entrei, era dessa geração. Adoro o anonimato. Ninguém vira o pescoço. Quero estar num tête-à-tête com uma amiga a beber uma sangria e ninguém olha para mim a noite inteira. Gosto disso. Agora, claro, as coisas mudaram, já não temos o anonimato que tínhamos. Já não ponho isso num prato da balança. Televisão, experimentei e gostei mais do que estava à espera, porque é muito gira a adrenalina do directo. É muito giro também ter um feedback imediato, que é uma coisa que não tenho em rádio. Na RTP fiz as “Praias Olímpicas”, um programa em Agosto, na praia, muito exigente, ainda para mais em directo, mas aprendi imenso. Foram 15 dias intensos. Depois faço de vez em quando, reportagens para o Canal Hollywood. E fiz uma vez as touradas na RTP, mas eu não queria ser a menina das touradas...

Gosta de touradas?

Não. E nem sabia nada sobre isso, aprendi para fazer a reportagem. Na altura disse foi: “OK, ser repórter para a RTP, não ser a menina que só faz touradas.” E depois de participar percebi... que não quero.

O que precisava de ser um desafio aliciante para chegarem ao pé de si e convidarem-na a fazer televisão que pudesse tentá-la a deixar a rádio?

Tenho agora um podcast já há um ano, o “Vale a pena”, que correu muito melhor do que estava à espera porque achei que um podcast sobre livros seria uma coisa de nicho. E está a correr muito, muito bem. Sou uma pessoa um bocado insegura. Estou com tanta validação externa que acredito que está a ser bom. Os números são óptimos, está a ser incrível. Está a dar-me imenso gozo. Não só é a minha matéria de coração, que são os livros, como é giro entrevistar pessoas e o tom descontraído que conseguimos ali. Estou a conhecer novas facetas da Mariana e uma delas é entrevistar.

Por ser mais sério?

Não, tem de ser divertido porque eu sou uma miúda descontraída. Se for formal e entrevistar políticos, não, obrigada. O entretenimento é o meu sonho. Não tenho feitio para me vender, por mais que eu achasse graça a fazer televisão. Se calhar, é um bocado preguiçoso ou pouco ambicioso dizer isto, mas tenho esperança de que venha alguém ter comigo. Depois, eu acho que, hoje em dia, são as miúdas de 25 anos que fazem televisão. Nem todas, mas as mais velhas começaram mais cedo. Não sei se largaria a rádio se, eventualmente, desse para conciliar. A rádio é o primeiro emprego em que eu digo que, se ganhasse o Euromilhões, não me despedia no dia a seguir.

Se ganhasse o Euromilhões continuava a fazer rádio?

Acho que sim. Se calhar, não, obrigatoriamente, todos os dias. [risos]

Mas deixe-me insistir: que projecto em televisão a faria abdicar da rádio?

Se tivesse um podcast na rádio com formato também em televisão, entrevistas descontraídas, acho que era capaz de ser um novo projecto interessante para mim.

Ou seja, o amor pela rádio é tão grande que era preciso ser algo do outro mundo.

Não sei, mas que venham novos desafios. Ter 50 anos o mesmo emprego também me assusta. E já lá estou há 13.

Em relação ao podcast, porque são mulheres a grande maioria dos entrevistados?

Porque são mais leitoras e porque quem me ouve também são mais mulheres. Tenho muitos homens que recusaram o meu convite. Acho que as mulheres são mais leitoras. Acho que há mais leitoras do que leitores. Ainda consegui bastantes homens convidados. Tenho algumas pessoas que dizem que sim e depois desaparecem, e são mais os homens que fazem isso.

Qual foi o convidado que gostava de ter tido e não conseguiu?

O José Luís Peixoto, o Afonso Cruz e o Gonçalo M. Tavares disseram-me que sim. E estou ainda à espera de conseguir. O Gonçalo M. Tavares, muito simpático, tem voltado ao contacto para conciliarmos agendas, o que ainda não aconteceu, mas quero muito conseguir entrevistá-lo. Sou fã. O José Luís Peixoto também já me disse que sim, mas não pára em Portugal. O Afonso Cruz, a mesma coisa. Não quero sentir-me chata e, às vezes, acho que as pessoas não querem, mas não têm coragem para dizer que não. Lá está, três homens.

Este podcast é uma forma também de a Mariana se manter em vários tabuleiros das suas paixões?

Sim, é mais um emprego. Dá muito mais trabalho do que esperava, em termos de investimento de tempo. Estudo muito e preparo muito a entrevista. Estava com necessidade de fazer um projecto novo. E foi no confinamento que comecei a pensar nisso. Estava mais parada, estava a ler muito, muito, muito. Imenso. Houve um dia que li um livro e falei com tanta paixão lá em casa que o meu marido disse: “Tens noção de que esta é que é a tua paixão? Esquece os números e o sucesso. Mesmo que ninguém oiça, faz um podcast sobre livros.” E eu dei-lhe razão. Pensei que em Portugal não se lia muito mas, afinal, lê-se mais do que eu pensava. Não é que as pessoas não gostem de ler: perderam o hábito. É mais um projecto dentro da comunicação, que é a minha praia, e falar de livros, que é a minha paixão.

Voltamos sempre ao mesmo: e as novas gerações... lêem?

Acho que o TikTok, impressionantemente, ajudou a espoletar vendas de livros. Se uma pessoa cool lê um livro, os miúdos imitam. Houve um livro lançado em Portugal há quatro anos que não vendeu nada; no ano passado foi falado no TikTok e, cá, foi um bestseller. Dei esse livro ao meu filho adolescente e ele adorou.

Quantos livros lê por ano?

Não conto, mas na pandemia li dois livros por semana. Leio mais do que dois livros por mês. Esta semana já li dois. Leio muito.

Estando na Renascença - Emissora Católica Portuguesa, nunca se sentiu condicionada na forma como apresenta os programas?

A 100%. Temos todo o cuidado, mas também não é do meu feitio ter uma linguagem de que a Renascença não fosse gostar. Mesmo no podcast, houve um episódio em que apaguei alguns palavrões do convidado. Sou conservadora também, por natureza. Há brincadeiras que não convém ter. É uma rádio católica. Os humoristas é que têm de ter mais cuidado porque a linguagem do stand-up em palco não pode ser levada para a nossa rádio. Acho que aí, sim, há um cuidado. Não digo censura, mas uma atenção. Temos os nossos ouvintes, que não conhecemos. Portanto, há um respeito a ter. Nunca tive de estar consciente do que estou a dizer ou com cuidado. É-me natural.

Há pouco disse que não se via 30 anos a fazer a mesma coisa. Como se vê dentro de dez anos?

Quero fazer mais coisas. Estou a fazer rádio, podcast e a escrever. A televisão, eu dizia que não, mas, agora, já acho mais interessante, se calhar, mais um novo projecto. Estou na área certa. Já estive em empregos onde não estava contente, já passei por isso. Tenho um mundo. Tenho muitos colegas da rádio que foram da faculdade para a rádio; eu, não. Tive vários empregos antes. Fui aos 30 anos para a rádio e acabei o curso aos 21. Daqui a dez anos... assusta-me um bocadinho, não quero estar 30 anos no mesmo sítio, é verdade. Mas se eu for feliz e me forem dando desafios novos, vou ficando. Fiquei na Unilever cinco anos porque fui mudando de área. Na rádio, também. Sem querer, passaram 13 anos, mas fiz fins-de-semana de manhã, depois fiz fins-de-semana à tarde. Fiz o “Café da Manhã”, que quando me chamaram eu disse que não queria porque sou dorminhoca. E o director disse: “Não estou a perguntar, estou a fazer.” Comecei como repórter e fui ficando cada vez mais no estúdio, e fiquei locutora das manhãs, que foram mudando também de equipa. Houve sempre mudanças. Não estou há 13 anos, ou há nove anos e meio, a fazer o mesmo. Agora tenho uma nova mudança, num novo horário, num projecto novo, e, no fundo, parece um emprego novo. Essa rotatividade interna, acho que todas as empresas deviam fazer, para nos conhecermos, para não crescermos na vertical, crescermos assim aos esses e aprendermos várias áreas. Posso pensar, “mais dez anos na rádio, que tédio”, mas se forem dez anos... estou divertidíssima neste horário, estou a divertir-me imenso. Portanto, se calhar, daqui a três, quatro ou cinco anos, ainda estou a fazer isto. Mas que venham novos projectos. Gosto do desafio.

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