Gilmário Vemba: “Ainda sonho com um país onde não seja preciso haver um membro da família bem-sucedido”

De Angola para Portugal, passando por Moçambique, Gilmário Vemba pôs cerca de 125 mil portugueses a debater os poderes das “filhas da Eva”. O humorista que deu os primeiros passos nos Tuneza é dos mais recentes fenómenos nas redes sociais. Quisemos saber quem é, o que pensa e, afinal, se é mesmo preciso “ter um certo limite”.



Gilmário Vemba, angolano, 36 anos, quatro filhos... Afinal, quem são as filhas da Eva?

As filhas da Eva... Eu ouvi um podcast do Filipe Bondé, um filósofo brasileiro, e ele falava que Eva era gostosa. Na minha cabeça fez esse sentido. Imagina alguém que está no Paraíso, está bem e tem a ordem do ser supremo, uma única tarefa. Para ser convencida a romper esse vínculo com Deus, Eva tinha de ser muito gostosa, tinha de ser boa. Então, passei a idealizar a filha da Eva como aquela mulher irresistível, aquela mulher a que, independentemente de todo o teu carácter, de todos os teus ideais, de toda a moral junta, é difícil resistir. Para mim, essas são as filhas da Eva.

Formou-se em Relações Internacionais e Análise Política, foi aí que a coisa descambou para o humor?

Entra antes. Não me lembro de um dia pensar “olha, eu quero fazer humor, quero ser humorista”, não. Eu começo a fazer teatro em 2000, tinha 15 anos, fazia parte de um grupo de teatro e para nós a comédia acabava por ser o símbolo do grupo. Digamos que as pessoas gostavam e eu, dentro da minha forma de ser, tinha sempre o ar de engraçado. Mesmo quando fazia a escola de Cinema e Teatro em Angola, tinha professores que me diziam: “Tu tens jeito para a comédia”. Foram-me sempre empurrando para a comédia. Em 2002 começámos a fazer pequenos sketches para promover o teatro que a gente fazia e então a comédia entra para a vida do Gilmário de forma abrupta. Depois começo a interessar-me e começo a pesquisar, porque tenho essa mania. Quando começo a fazer uma coisa quero saber quem já fez, como é que fez, como é que se faz. Comecei a consumir muito de comédia e graças à internet encontrei o stand-up. Já apreciava o Chris Rock, Dave Chappelle, Kings of Comedy, pelo nível intelectual da abordagem dos temas que eles traziam para a comédia.

Como é que a sua formação académica o ajuda no humor?

O humor em si é duro, fora a intenção de fazer rir, ele conta histórias muito tristes. E é estranho, porque o que nos faz rir é o mesmo que nos faz chorar. Por isso é que temos aquela cena do “too soon”. Por ser muito recente, as pessoas ainda não conseguem rir. Toda a vivência do humor é isso e eu sempre quis fazer um curso que fosse do ramo das ciências sociais.

Porquê?

Porque eu sou muito falador. Dava bem para fazer Direito, Sociologia, Antropologia, História... E apareceu a ideia da Análise Política e naquela altura fazia algum sentido, porque nós estamos num sistema e num país que é muito politizado. Tudo gira à volta da política, daí essa necessidade de perceber como é que isso se processa e como é que seria falarmos dos assuntos sociais, tratarmos das coisas sem ferir susceptibilidades, sem apresentar partidarismos. O curso, todo ele, é baseado em análise, em negociação, e então para mim fazia sentido, porque o curso é bom para nos capacitar a ser melhores analistas, melhores negociadores, e porque nós, durante os nossos espectáculos, estamos a negociar uma ideia com a nossa plateia. Estamos a apresentar uma ideia, queremos negociar, queremos chegar a todas as frentes e então o curso fazia todo o sentido aqui também.

E continua a fazer sentido? Qual é a sua relação com a política angolana?

Com mais entendimento. Quando comecei tinha 17 anos e um jovem não está totalmente mergulhado no mundo político. Não paga contas, não percebe como é que um governante, um ministro ou um Presidente tem impacto na sua vida pessoal. Enquanto jovem, tu não tens muita noção, a não ser que cresças já num ambiente politizado, propenso a isso. O jovem está mais para a diversão, para a sua exploração, e não está propriamente atento àquilo que é o efeito da governação na sua vida prática. Então, quando a pessoa cresce, acaba por ter um bocadinho mais de clareza nesse assunto. Cresci, tenho a minha própria casa, tenho a minha própria família, quero ter os meus negócios, quero ter o meu trabalho e sinto que tenho mais a dizer hoje do que na altura em que comecei.

O que é que tem a dizer hoje? Que análise faz da política angolana?

Eu acho que a política do meu país tinha de largar os conceitos antigos, a maneira de exercer a política. No passado pode ter sido necessário aquele regime mais pesado e controlador. O Zedu [José Eduardo dos Santos] não é ditador, eu acho que a política, naquela altura, praticava-se de uma forma que fazia todo o sentido naquele contexto da guerra fria, descolonização... Uma série de coisas que aconteceram dentro da política e da maneira de organizar o país naquela altura faziam sentido. Mas o que é que acontece? Nós continuamos a ter os mesmos governantes e acredito que as noções continuam a ser as mesmas. É como o teu pai dizer que a geração dele é melhor, porque faz assim ou faz o outro.

Mas há alguma diferença quando falamos de José Eduardo dos Santos e de João Lourenço?

Diferença, como? É diferença no nome, porque a base... Quando tu estás filiado num partido, o partido tem um mote. Não é o Presidente sozinho que decide as coisas. Trocar de Presidente não tem um grande impacto. Para mim, já foi bom e eu acho que foi fantástico. Eu estive na cerimónia da tomada de posse e eu fiquei realmente emocionado, porque era aquela luz a dizer “essa cena é possível”. Eu nasci e o José Eduardo já era Presidente, eu cresci e o José Eduardo sempre foi Presidente, cheguei aos 32 anos e aí há uma troca. Há sempre uma esperança e agora estamos à espera da próxima troca, que é a troca de partido. Eu acho que é necessário. Embora haja muita gente com medo da diferença, ou de um possível conflito - o diferente traz sempre um certo medo -, para nós é necessária. Nem que seja para ver o outro lado, nem que seja para ver como são os cinco anos daquele lado. Vamos ver outras cabeças a pensar, para a escolha ser melhor depois, porque estamos a vida toda a ver só um lado.

Como é que chega até aqui? Como é que chega a Portugal?

Chego da mesma forma como aparecemos em Angola: é fruto do trabalho. Vamos fazendo um trabalho, vamo-nos dedicando, vamo-lo fazendo com afinco e as portas vão-se abrindo à nossa frente. As pessoas ligaram porque viram que eu tinha alguma coisa para oferecer, uma cena fixe, e eu quero continuar a fazer as coisas desta forma. Não muito a planear, traçar metas e fazer um plano de acção. Prefiro a espontaneidade porque às vezes, neste caminho, o ritmo é muito ansioso e a expectativa, muito grande. Imagina, não venho aqui para Portugal a querer encher o Altice Arena até 2028... Isso para mim é muito ambicioso. Eu sei que se eu trabalhar bem, se eu me dedicar bem, coisas boas virão e elas virão no seu tempo e eu não quero saber que tempo é esse, porque é como quando alguém te promete alguma coisa e ficamos o ano todo ansiosos. Quando é que acontece? E se passa um dia, começamos a ficar meio depressivos e pensamos que não vai acontecer, tanto trabalho para nada, tanto esforço e nada, e eu não quero isso: eu quero aproveitar ao máximo aquilo que eu consegui até hoje - e se a vida me der mais, eu vou ter.

O seu medo de barcos é real?

É mais uma metáfora. Uma ideia, tirada de uma análise. Sobre aqueles povos de antigamente que viram os seus parentes a entrar num barco e nunca mais regressaram, e aqueles que subiram e foram parar ao outro lado com uma vida que eles nunca esperaram. Isso cria traumas. É como meter o dedo numa tomada, levamos um choque e nunca mais queremos encostar o nosso dedo ali. A minha análise do barco é exactamente isso. Como é que nós, “blacks”, vamos subir a um barco, sabendo do historial todo, sabendo do navio negreiro, onde é que nós vamos parar? Tipo: a navegação devia ser algo proibido na nossa realidade. Mas é só brincadeira, eu entro no barco na boa.

Então porque é que a maior parte dos seus espectáculos são no Norte do país e não são no Seixal, em Almada, no Barreiro? Não tem mesmo receio de entrar num catamarã?

[Risos] Eu aqui dependo completamente daquilo que a minha agência vai marcando. Uma vez ou outra posso sugerir um espectáculo e, dentro da organização da agenda, a gente faz. Não venho para Portugal nem para o mundo para estar preso a essas cenas de dizerem que tenho de fazer esses espectáculos na comunidade porque tem de ser, porque sou preto. Não. Vou fazer espectáculos como se fosse fazer o espectáculo em qualquer parte de Portugal, não vou fazer um espectáculo porque tem “blacks” lá ou porque tenho de andar de catamarã, nada disso.

Já consegue medir as diferenças das plateias aqui em Portugal?

Ainda não, não fiz espectáculos suficientes e ainda não consigo ter essa percepção. Ainda há muitos portugueses que não me viram e quem estiver a ler esta entrevista, por favor, vá ver-me.

Consegue fazer um paralelismo entre uma plateia portuguesa e uma angolana?

As diferenças, basicamente, são as realidades. Angola é um país que está numa fase de desenvolvimento, há muita linguagem e muitos temas que são abordados de outra forma. Se eu estiver aqui como “black” a actuar em Portugal, eu vou fazer piadas que têm a ver com racismo ou com a genética, porque aqui faz sentido, em Angola não. Então, a diferença são as realidades, porque toda a gente se ri da mesma forma. O público de Angola é mais participativo, ao ponto de ser invasivo. Eu estou a actuar e pode haver alguém na plateia a falar comigo ou a tentar fazer piada também, e isso raramente acontece aqui. Se acontece é porque está lá um conterrâneo meu.

O que prefere: aquele público mais interventivo ou o que deixa brilhar o Gilmário?

Cada espectáculo é um espectáculo. Às vezes, o chato da plateia faz com que as coisas corram ainda melhor, e há vezes em que te estraga o espectáculo. Claro, eu estou aqui a fazer o meu discurso, tu do outro lado falas e às vezes complica, porque a permissão tem de partir do artista para a plateia e não ser só assim, alguém que está lá e resolve falar e fala demais.

Voltando atrás, acha que a sua análise do barco aqui em Portugal, o país do colonizador, resulta da mesma forma?

As piadas resultam a partir do momento em que tu apresentas um contexto a quem vai assistir. Algumas pessoas não vão entender à primeira. Demora, às vezes, até as pessoas perceberem, mas, num espectáculo, tu ofereces o contexto, a pessoa percebe e todo o mundo já se ri. Não importa se é branco, se é preto. Todos sabem a história da escravatura.

O que nos faz rir depende da latitude ou há piadas que resultam sempre?

No final, todos nós somos pessoas e sofremos todos dos mesmos problemas e para mim é uma revelação perceber isso. A mesma piada que eu vou fazer sobre relacionamentos vai funcionar em Portugal e funciona em Angola. Fazer uma piada entre pobre e rico vai funcionar aqui ou lá, é igual. Só que aqui eu gozo mais com a realidade. Gozar no sentido inverso. Um gozo que é de admiração, porque aqui está tudo mais organizado em termos de vivência, está tudo muito melhor que em Angola.

Aqui os cães nem mordem, não é?

Porque aqui não têm essa necessidade. Para mim, a brincadeira é exactamente essa. Os vossos cães vivem num ponto em que eles nem têm necessidade de morder. Não precisam de trabalhar para receber comida, fazem parte da família. Aqui já está neste nível. Gozo com isso e gozo com as reclamações que eu ouço aqui. “Eh pá, estás a reclamar disto aqui, tu tens de ir para Angola.” Porque, se tu estás a reclamar disto, é porque não sabes o que é realmente sentir a falta de alguma coisa. Eu, basicamente, venho a Portugal dizer que os portugueses são sortudos e que deviam realmente apreciar o privilégio de viverem aqui, de terem o que têm, de terem os direitos que têm, as oportunidades que têm, porque lá de onde eu venho, muito do que vocês têm como adquirido é uma noção impossível.

Como por exemplo?

Aqui ouve-se muito a discussão do que comer, a qualidade da comida, e eu venho de uma realidade onde as pessoas estão a discutir se comem, ainda não chegaram ao nível de discutir a qualidade. Às vezes, ouço aqui as pessoas a reclamarem dos transportes e eu sei que lá nós não temos sequer essa questão, porque não temos nem o nível, nem o número de transportes que vocês têm. Para mim é fixe dar essa noção e às vezes recebo mensagens de “tugas”: “Eh pá, tu disseste coisas que me tocaram realmente, realmente eu não tenho apreciado a vida que tenho”.

Qual é a sua realidade em Angola?

Eu falo na voz da experiência, porque eu sou de uma família pobre e às vezes falta. Às vezes falta o mínimo, o básico, que é o do comer para eles, para os filhos, então eu sei perfeitamente do que estou a falar. Se tu não estiveres a trabalhar, tens a possibilidade de pedir ajuda ao Estado, nem que seja com o valor para a tua cesta básica mensal. Comer não te vai faltar, mas em Angola a realidade é outra. Se tu não tiveres de onde tirar, vais mesmo passar fome. Se não tiveres um primo, um irmão, um tio que te ajuda naquele momento, vais passar mal. É uma realidade presente no país e presente na minha vida. Agora, com a pandemia, muita gente que estava no mercado informal não teve a sorte de ter um apoio. Eu trabalho, consigo alguma coisa e durante a pandemia senti muito os meus primos e os meus tios a ligarem para mim. E não digo nem para me mostrar, nem para me queixar, porque nessa altura a única coisa que eu pensava era que ainda bem que consegui fazer algum até aqui, porque assim consigo fazer chegar. Ainda sonho com um país em que não seja preciso haver um membro da família bem-sucedido que seja o farol.

Já é uma dessas pessoas.

Sou uma dessas pessoas, mas há mais. Em Angola, nós vivemos num sistema de família alargado. Somos muitos, mas eu sou um desses faróis. Tenho outros primos e tios que fazem o mesmo, porque parece que temos de ter essas pessoas, se não, dentro da própria estrutura do país, tu não encontras essa possibilidade.

E agora, com a pandemia, está aqui preso em Portugal.

Já estou aqui há cinco meses distante dos meus filhos, mas a trabalhar, que é necessário, e eu tenho compromissos que precisam de ser fechados. Trabalho aqui para a Disney, mas por conta da pandemia tem sido complicado viajar e fechar o projecto. Aconteceu-me estar em Angola, ter aqui tudo preparado e não conseguir vir porque os voos eram adiados. O meu visto de trabalho também demorou. Levou 90 dias a ser emitido, a eu ter a documentação em dia. Cheguei aqui e a empresa pediu-me para ficar um bocadinho mais para adiantar boa parte dos projectos, porque ficou aquele medo, aquele trauma. Estou preso.

Qual é a sensação?

Eh pá, é má. Apesar de todos os problemas, Angola é o meu porto seguro. Tenho os meus pais, os meus irmãos, os meus filhos e a minha mulher. Aqui estou sozinho. Perdoem os meus amigos que me levam a jantar, mas eu sinto falta [da família]. Se eles estivessem aqui, talvez fosse menos doloroso, porque o que eu estou a fazer é mesmo um sacrifício. Trabalho é importante, internacionalização é importante, mas estar este tempo todo sem a família é sacrifício.

De qualquer forma, a pandemia também o lança na Internet.

Já tinha começado antes, mas para Portugal acredito que tenha funcionado. Há videos meus mais antigos dos Tuneza que chegaram aqui, mas agora o pessoal vai fazendo a relação: esse é o “tio Martins”, aquele gajo que fazia aqueles vídeos. Mas eu já estou na internet há muito tempo, desde 2012, para aí.Os seguidores no Instagram têm disparado.Sim, estou quase com um milhão e meio e não são só portugueses. As minhas redes sociais são maioritariamente de angolanos e moçambicanos, são os meus públicos fortes, mas também está a crescer aqui. E 10% do meu público no Instagram é português, 10% de um milhão e meio, já estamos a falar de quase 150 mil portugueses.

Então e que história é esta de andar a negar as suas origens, de andar a falar um português correcto, sem gírias? Que críticas são estas?

Há pessoas que clicam nas tuas coisas hoje e pensam que te conhecem. As pessoas vêem-me no palco e, quando começam a falar comigo, dão conta de que eu falo [de maneira] completamente diferente. Não falo como as minhas personagens. É um hábito que eu ganhei da família. A minha avó, mãe da minha mãe, sempre foi muito rígida nisso, a minha mãe, idem. Não podia entrar em casa a falar à bairro, mas isso para mim é ganho pessoal, porque eu sempre fui o tipo de jovem que queria falar bem. O meu sonho era ir para televisão e sempre fui tímido. As pessoas que são tímidas procuram ser o mais correctas possível, porque, se eu sou tímido, tenho medo de falar, tenho medo que as pessoas me julguem por causa daquilo que eu digo, tenho medo de ferir as pessoas por causa daquilo que eu disse, então sempre procurei falar bem.

Quem fala à bairro não fala bem?

Claro que fala bem, mas o que é que acontece? Se eu falar à bairro, tu provavelmente não me vais perceber. Mesmo outra pessoa que é de outro bairro não me vai perceber, porque são modos de falar diferentes e eu sempre procurei falar para todos, ter uma linguagem que chegasse a todo o mundo, que todo o mundo percebesse. Não importa se é do bairro de Portugal, se é do bairro de Angola, se é do bairro de Cabo Verde ou Moçambique. Vamos tentar falar de forma perceptível para todos. Se calhar eu não seria entendido num bairro brasileiro, porque a aplicação das palavras é diferente. Então eu sempre procurei comunicar bem.

A mensagem tem de chegar.

Claro. Lembro-me de quando íamos actuar para uma zona em Angola que é Miami Beach, uma zona muito elitista com muitos portugueses, muitos angolanos bem viajados e bem posicionados no mercado, muitos artistas, muitos famosos, e a primeira vez que a malta subiu ao palco e fez uma actuação, o Kayaya Jr., um produtor de eventos, dono da Step Model em Angola, falou connosco e pediu para melhorarmos a nossa linguagem: “É que se vocês falam e uma parte da sala não vos percebe, vocês estão a actuar só para uma parte da sala e isso pode impedir-vos de chegar a mais sítios”.

Então não é bem negar as origens, até é para mostrar que temos todos direito à mesma coisa.

Exacto, não é negar a origem. Às vezes nós não crescemos porque achamos que temos um regionalismo. Claro que, se eu quiser chegar a mais pessoas, tenho de comunicar para mais pessoas e tenho de fazer com que as pessoas me percebam. Se vem a Beyoncé e quer conectar-se com as pessoas e começa só a falar inglês para um plateia que não percebe inglês, as pessoas vão dizer: “Minha senhora, canta e vai embora. Não adianta falar, porque tu estás há horas e horas a falar e ninguém aqui está a entender nada”. Então, é comunicação, quero falar para ser percebido. E, no meu caso, eu não tenho sotaque português, sou apenas uma pessoa que gosta de articular bem as palavras. Gosto de falar bem português e tenho tanto cuidado com isso que já fiz um curso de língua portuguesa para poder limar algumas arestas. Tudo isso porque eu quero crescer. Porque, se eu falar angolano, dentro da minha gíria, em Moçambique também não me vão perceber.

Agora, o plano é a internacionalização.

Eu quero internacionalizar-me dentro do mercado português, do mercado que fala a língua portuguesa, e tenho de ser o mais aberto possível, principalmente dentro da linguagem “stand-up”. Eu não vou ao palco com a personagem do “tio Martins”, não estou lá a fazer uma personagem, não é uma peça fechada, é uma relação “tu falas, eu escuto”. Mas se eu estou a falar, tu tens mesmo de perceber o que eu estou a dizer. O resto são só pessoas a perseguir. Quando tu cresces, há sempre alguém que quer encontrar algo na tua pessoa e dizer “vou-te apanhar por aqui”, “vou-te pregar a rasteira” e “vou dizer que tu não vales nada”.

Esta projecção traz essas pessoas também?

Traz também o bom. Mas é importante perceber que, para negar as minhas raízes e as minhas origens, tinha de dizer: “Olha, não sou angolano, o semba para mim não é música, tinha de negar toda essa angolanidade que eu carrego comigo, e quem vê os meus espectáculos bem sabe, não tem nada a ver com a fala.

O seu espectáculo no Porto já está esgotado. Teve de abrir uma nova data, tem outro em Braga. O que é que as pessoas podem esperar?

Bom humor. Eu digo sempre: venham para o meu espectáculo que vocês vão-se divertir. Não há ali uma matemática específica. Eu acho que já ultrapassei muito aquela necessidade de o artista passar sempre uma moral. Eu quero que as pessoas vão para lá e se riam, que se riam muito, e se puderem aprender alguma coisa, não porque eu ensinei, mas porque eu disse alguma coisa que abriu ali os horizontes... Mas para o meu espectáculo, venham e curtam. É rir do princípio ao fim. Quem já foi ao meu espectáculo, já sabe que é isso.Tem de ter um certo limite.Ya, tem de ter um certo limite.

Aquilo de falar por cima, blá-blá-blá com o Gilmário...

Não, tem de ter um certo limite. Você não pode ir ao espectáculo e tentar fazer o espectáculo, não é? Isto não é espectáculo de música. O músico é que passa o microfone à plateia e fica a assistir enquanto cantamos e ficamos sem voz. Num espectáculo de humor, tu tens mesmo de ouvir.

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