Entre choque e curiosidade, o primeiro filme pornográfico português até fez manchetes

Em 1977, um ano depois da estreia de “Garganta Funda” em Portugal, “Cartas de Amor de Uma Freira Portuguesa” torna-se um dos primeiros filmes eróticos com portugueses, em que Ana Zanatti faz de freira perversa.



No pós-25 de Abril não se viam filmes pornográficos em Portugal. Primeiro, porque não havia: tinham passado apenas cinco anos de o género começar a ser legalizado numa série de países, culminando com o lançamento do “Blue Movie” de Andy Warhol, o primeiro filme a mostrar sexo explícito nas salas de cinema norte-americanas. Mas em 1977, um ano depois da estreia de “Garganta Funda” no Capitólio, marco na exibição de filmes pornográficos em sessões públicas, uma série de actores portugueses fizeram parte de uma produção erótica que daria que falar. Dirigido pelo realizador espanhol Jess Franco, “Cartas de Amor de Uma Freira Portuguesa” conta a história de Maria, uma rapariga forçada pela Inquisição a tornar-se freira como penitência. No convento, Maria é submetida a uma série de torturas e humilhações corporais por parte do padre e da madre superiora. Filmado entre o Palácio da Vila, em Sintra, o Museu Condes de Castro Guimarães, em Cascais, e o Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, o filme conta com elenco maioritariamente luso, com destaque para Ana Zanatti, que faz de freira sádica e perversa. Também Herman José, Vítor Mendes e Nicolau Breyner participam no filme, que chegou às manchetes do jornal Tal & Qual.

Numa sociedade conservadora como a portuguesa, acabada de sair de uma ditadura, retratar o tema da sexualidade (mesmo que ao de leve) no cinema gerava curiosidade. No meio de um alvoroço à saída do Cinema São Jorge, em Lisboa, um espectador tentou explicar o fenómeno pornográfico a Susana Ruth Vasquez, jornalista do Modas e Bordados: “Estar a ver no ecrã um homem e uma mulher fazerem o que só se faz na intimidade é um bocado forte. Mas talvez seja falta de hábito da nossa parte, porque nunca nos davam estas coisas a ver.”

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