Andreia Rodrigues: “Acho que já provei o que tinha a provar”

Andreia Rodrigues, apresentadora do reality show da SIC “Quem Quer Namorar com o Agricultor?”, é de conversa fácil. Assume que nunca foi envergonhada e revela que hoje podia estar num laboratório. Confessa que quer fazer outras coisas, pensar num programa da estaca zero até passar a ficha técnica. Admiradora de Júlia Pinheiro, não hesita quando lhe perguntamos se sente que tem mais a provar por ser casada com o director-geral de entretenimento da estação. A resposta é lapidar: “Já passei essa fase”.



Começou como assistente do “1, 2, 3” em 2004...

Há muito tempo. Verdade.

Como se deu essa entrada no mundo da televisão?

Comecei por fazer publicidade, tinha 16 anos, na L’Agence. Ao princípio trabalhava em moda, mais na vertente de publicidade, e iam existindo castings para alguns programas. Tive alguma curiosidade em experimentar, na altura, aquilo que era um programa de televisão, perceber o que era. E foi assim que fiz um casting e lá fui parar.

Já conhecia o sucesso do programa nos anos 80?

Sim. Na altura, com a Bota Botilde.

Mas a televisão era o seu objectivo de menina ou tinha outros interesses?

Não, de todo. As memórias que tenho da minha infância era de gostar de cantar, de dançar para a família. Mas acho que isso, em geral, todas as crianças gostam, não creio que revelasse alguma tendência. Sempre fui apaixonada por ciências e sempre achei que era essa a área que iria seguir. Quando estava no secundário decidi-me pelo agrupamento de ciências e queria seguir química aplicada. Mas, pelo facto de ter entrado para uma agência e essa agência me ter mostrado um outro mundo, um outro meio pelo qual me fui apaixonando, percebi que, a par da paixão que tinha pelas ciências e pelo mundo científico, havia um outro lado que tinha a ver com comunicação e que, provavelmente, teria muito mais a ver comigo e iria fazer-me mais feliz. E então, terminado o 12.º ano, fiz uma paragem para perceber exactamente o que queria. Comecei a trabalhar mais na área da comunicação, a investir mais na área da publicidade, na moda, a fazer alguns programas, coisas pequenas, pontuais, e depois fui construindo o caminho que me trouxe até aqui.

Como encarou a sua família o facto de se ter tornado modelo?

Foi a minha tia paterna que me incentivou a entrar na agência. Aliás, foi ela que me inscreveu. A L’Agence era, na altura, em Campo de Ourique, numa cave. A verdade é que a minha tia achava que eu era fotogénica e gostava imenso de fazer fotografias. Então, ela própria me incentivou a ir, uma vez que era só atravessar a estrada. E assim foi. Os meus sempre viram isso de braços abertos e de uma forma muito compreensiva. No entanto, sempre me incentivaram a construir realmente um caminho o mais sólido possível e a ter a certeza daquilo que queria. Mas sempre me incentivaram a correr atrás dos meus sonhos. E se era esse o caminho que eu queria fazer, então que o fizesse e procurasse ter a melhor versão de mim mesma nesse caminho.

Então, se não estivesse hoje no mundo da comunicação, possivelmente estaria num laboratório?

Sim, mas, salvo algumas excepções, acho que é muito cedo a altura em que temos de escolher o agrupamento que seguimos, em que definimos a profissão que queremos ter para o resto da vida. A escolha é feita numa fase muito prematura e, aos 14 anos, queremos ser tantas coisas e há alturas em que não queremos ser nada. Há um turbilhão de emoções e somos tomados por essas emoções, e, muitas vezes, por uma série de vontades. Eu, na altura, era isso que queria seguir. Mais tarde, por exemplo, achei que psicologia podia ter sido também um caminho. Sou muito interessada em psicologia, quem sabe até em voltar a estudar e tirar um curso superior, porque é uma área que me entusiasma e sobre a qual leio e procuro realmente saber mais. Tenho um fascínio pela mente humana.

A Andreia já é mãe, as suas filhas ainda estão distantes de terem de tomar uma opção. Como se pode mudar o sistema educativo para que uma criança não tome aos 14 anos uma decisão quase definitiva na sua vida?

Da forma como as coisas estão feitas e desenhadas, não se tira partido do melhor do adolescente, da criança... Devemos olhar para a capacidade daquela pessoa. Se eu tenho uma miúda com 14 anos que é excelente em Matemática, ela pode não ser tão boa em Geografia. Claro que há questões que são básicas, há coisas que todos temos de saber, faz parte daquilo que é a cultura geral. Mas, se aquela miúda é tão boa em Matemática, porque não potenciar isso? Se aquela miúda é incrível em termos físicos, porque não potenciar isso? Porque não lhe damos ferramentas para que, nos anos seguintes, em vez de termos de definir a área, mais do que a área, as disciplinas... Posso ter um fascínio por Português e por Matemática. Porque tenho de as separar? Porque não posso misturar as duas se sou fascinada pelas duas, até que tenha realmente capacidade e maturidade para descobrir o que quero ser? Acho que a forma como as coisas são construídas deveria ser dando mais espaço e potenciando, sim, o melhor de cada um, e não obrigando, não espartilhando, que é o que acontece hoje em dia.

Porque cada criança é uma criança.

Sem dúvida, e o lado emocional da criança também deve ser valorizado. Porque há actividades em que aquela criança se sente mais confiante. Se estimularmos aquilo que é o melhor dela, ela sentir-se-á mais forte e capaz de enfrentar o futuro e tomar decisões, muito mais segura do que se tiver de ser obrigada a seguir um conjunto de disciplinas nas quais não se revê tanto. Era algo que devia ser repensado. Acho que há um longo caminho até chegarmos lá, mas acho que vale a pena falarmos sobre isso e trazermos isso à discussão.

Voltando à sua carreira, quando concorreu ao “Sonho de Mulher”, que se destinava a eleger a Miss Portugal 2005, era Andreia Condesso e hoje é a Andreia Rodrigues.

Continuo a ser a Andreia Condesso, mas há que perguntar à agência. Na altura acabámos por escolher um nome mais comercial, digamos assim. Hoje em dia, acho que Condesso é um nome fortíssimo. Logicamente que, aos meus 16 anos, se calhar achou-se que o Rodrigues era mais fluido. E também dava menos azo a confusões. Passei a minha infância, o primeiro e o segundo ciclo a tentarem perceber como se escrevia o meu nome. Se era com um N, com dois S, com um Ç. Havia dúvidas. O Rodrigues é Rodrigues, não há muito que questionar. A agência deu essa sugestão e fiquei com o Rodrigues, que é o nome da minha mãe, nome que me orgulha muito.

Em 2008 foi eleita Miss Portugal. Esse era um objectivo?

Não era, de todo, um objectivo. Recuando um bocadinho, em 2004, o “Sonho de Mulher” foi pela experiência televisiva. Posso confessar, a vida dá estas voltas: a produtora com quem hoje trabalho, a Fremantle, foi a produtora que fez o “Sonho de Mulher” em 2004. Na altura fui inscrita pelo meu padrasto e a minha mãe também dizia: “Tens tanto jeito para estas coisas...” E eu disse: “OK, vamos.” Não renego desafios, por norma. Entrei em 2004 e confesso que, na altura do casting, decidi desistir. Achei que não fazia sentido, não era por ali que queria fazer o meu caminho. Lembro-me perfeitamente de dois elementos da produção terem vindo ter comigo e me terem dito: “Andreia, fica pela experiência, desfruta, vais poder explorar uma série de vertentes em ti, não perdes nada.” E eu aceitei. Em 2008, a pessoa que recuperou a patente de Miss Mundo Portugal quis que Portugal voltasse ao concurso. E então, como era uma questão de dois, três meses - estávamos a pouco tempo do arranque e tínhamos de comunicar à Miss Mundo quem era a representante do país -, a pessoa responsável veio à agência e disse que queria ver algumas mulheres com características das mulheres portuguesas. E na altura, como eu tinha feito um programa em 2004, sentiram que poderia fazer algum sentido esta continuidade. A minha primeira resposta foi negativa, até porque o concurso era para ser na Rússia, estávamos em 2008, já havia alguns conflitos no país e não era um país que me apetecesse... Honestamente, não queria, não era coisa que me apetecesse fazer, um concurso na Rússia. Já não estava nesse mood, 2004 fazia parte do passado. Entretanto, voltam a ligar-me a informar que o concurso tinha mudado para a África do Sul, Joanesburgo, e dizem-me: “Eles querem mesmo que sejas tu.” Pensei: “Tanta insistência... As coisas, às vezes, têm um porquê. África do Sul, why not? Vou poder fazer uns safáris, vou divertir-me. Era das mais velhas do grupo, já estava, penso eu, no limite da idade, e pensei que não ia ter outra oportunidade similar. E se estavam a ser tão insistentes, por alguma razão era. As coisas não acontecem por acaso. Quando vou para o concurso, a SIC, o “Fama Show”, desafiou-me a fazer algumas reportagens para passarem cá. E foram essas reportagens e o trabalho que fiz enquanto repórter de mim mesma que fizeram com que, depois, me chamassem para o casting do “Fama” e foi assim que entrei oficialmente na SIC. Portanto, tinha mesmo de ir ao concurso.

Que tipo de ferramentas lhe proporcionou o facto de ser modelo naquilo que faz actualmente?

Não acho que ter sido modelo ou ter sido Miss me tenha trazido algum tipo de ferramenta. Foram experiências que, obviamente, me trouxeram algumas coisas enquanto aprendizagens. Mas, mais do que neste caso específico, por exemplo, da Miss Mundo, quando a SIC sugere que seja feita uma reportagem... não tendo eu bases nesse sentido, eu própria tive de criar e ir à procura de ferramentas para o fazer. E fi-lo. Na realidade, a vida foi-me dando ferramentas e foi-me colocando os desafios, e eu fui encontrando forma de os ultrapassar. E é esse caminho que foi fazendo de mim a mulher que sou enquanto apresentadora e comunicadora. Acho que não tem nada a ver com o facto de ser modelo. Ser modelo dá-nos noção de postura, de linguagem corporal, algum à-vontade, mas que, naturalmente, eu já o tinha. Sou uma pessoa descontraída, gosto de conversar, gosto de estar com pessoas, não sou envergonhada. Portanto, a moda trouxe-me um à-vontade em frente a uma câmara, foram muitos castings, principalmente para a área de publicidade. Mas, depois, aquilo que a televisão tem vindo a mostrar ao longo destes anos é que a verdade impera, e isso não é uma coisa que possamos trabalhar. A técnica, podemos trabalhar, a forma como lemos um teleponto, podemos trabalhar. Agora, a pessoa que somos... isso não é passível de ser trabalhado ou, pelo menos, em programas em directo é muito difícil porque os personagens não se mantêm num programa em directo. Ou então percebe-se quando algo não bate certo.

A Andreia fez participações como actriz na série “Uma Aventura” e na sitcom “Malucos do Riso”. Porque é que nunca mais fez representação?

Não acho que estivesse talhada para isso. Houve uma fase na L’Agence em que me deram a possibilidade de fazer um casting para uma série que depois foi um verdadeiro sucesso. E eu disse que não.

“Morangos com Açúcar”?

[Ri, mas não responde.] Eu sabia o que queria, o caminho que queria trilhar: se eu tiver sucesso nesta área é porque estou capaz de desempenhar um papel nela, é porque tenho capacidade para o fazer e o meu foco tem de estar nesta área, é aqui que quero investir. Não me interessa ser conhecida, não me interessa aparecer. Interessa seguir o caminho que quero trilhar. É aqui que está o investimento e é aqui que vou procurar ser melhor e procurar ganhar ferramentas, trabalhar cada vez mais, investir cada vez mais em mim, tentar aprender, aprender, aprender. E eu sempre disse: “Não, vou continuar a caminhar por aqui e a tentar este caminho, é esta porta que quero abrir, não vou começar a disparar para todos os lados.” E assim foi. Passado um tempo, estou no “Fama”.

Então, a representação é uma página virada na sua vida?

Ainda há pouco tempo fiz uma participação especial enquanto Andreia Rodrigues. E não digo desta água nunca beberei. Aos 38 anos, não me parece agora que me vá dedicar à arte de representar, até porque tenho um enorme respeito por quem o faz e acho que é um trabalho de muitos anos, dedicação e investimento. Chegar agora e começar a representar, não acho que faça grande sentido, pelo menos para mim, comparativamente com aquelas pessoas que eu acho que são verdadeiramente incríveis, muitos deles mais novos, porque estudaram e investiram nisso, alguns com um talento mais natural do que outros - mas o trabalho faz toda a diferença, não basta ter sorte, temos de trabalhar a sorte que temos. Portanto, comparativamente com eles, não faria qualquer sentido. E eu procuro sempre tentar ser boa naquilo que faço ou, pelo menos, procurar fazer cada vez melhor e aprender. Não acho que tivesse um caminho a fazer nesse sentido. Uma brincadeira ou outra... mas investir como profissional nessa área, acho que não.

Quando lhe foi apresentado este projecto do “Quem Quer Namorar com o Agricultor?”, o objectivo era combater o “Big Brother”, que era emitido na TVI?

Não me lembro, confesso. Na altura, não me disseram o que é que estaria do outro lado...

Mas era para liderar audiências...

Acho que fazemos qualquer projecto com um objectivo. As primeiras edições foram um fenómeno de audiência, imbatíveis. Mas, agora, olhando para o “Agricultor”, o “Agricultor” não tem uma só emissão. Tem uma emissão segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e domingo. De segunda a sexta tem determinados resultados, ao sábado tem outro, e ao domingo outros ainda. Quando olho para o resultado do “Agricultor”, continuo a acreditar que cumpre o seu objectivo e que tem excelentes resultados para o objectivo delineado. Qual é o objectivo do “Agricultor”? Essa é uma questão que deve ser colocada à direcção da SIC. A mim cabe-me desempenhar o melhor possível o meu papel, seja a segunda, a terceira, a quarta, a quinta ou a sexta temporada, que é aquela em que estamos actualmente. Procuro trazer sempre algo de novo ao espectador dentro daquilo que são as minhas circunstâncias, as ferramentas que tenho e até onde posso ir. Também tenho os meus limites: é um programa que está formatado e obedece a uma série de regras. Mas, ainda assim, tento trazer um cunho para o programa, que quem vê seja surpreendido. E procuro sempre dar algo mais do que tiveram na edição anterior.

O programa foi alvo de algumas polémicas, houve quem o considerasse machista e até foram aventados incidentes que não foram revelados pela produção. Como se posiciona a apresentadora Andreia Rodrigues no meio disto?

Acho que isso se esfumou na primeira edição, ou seja, havia uma ideia do que podia ser, mas ninguém sabia o que vinha aí, ninguém sabia que programa seria o “Quem Quer Namorar com o Agricultor?”. Acho que, entretanto, isso se percebeu. Como em qualquer programa de televisão, há o objectivo de mostrar uma realidade que é sempre enfatizada, potenciada de determinada maneira. Neste caso, não havia agricultoras na primeira edição e, na segunda, não houve agricultoras que se tivessem candidatado. Quando começou a haver agricultoras candidatas, elas entraram no programa em pé de igualdade. As regras são exactamente as mesmas para todos. Portanto, isso foi-se esfumando, até porque se percebe que é um programa familiar com o objectivo de divertir, entreter, mostrar também um bocadinho daquela que é a realidade da vida no campo. Quando uma pessoa está solteira, dá-se a conhecer a outros. Se eu não tiver compromissos com ninguém, nada me impede de jantar com uma pessoa e, amanhã, se descubro uma nova pessoa na minha vida e se me apetece namoriscar, posso fazê-lo. Tudo isso é possível quando estamos à descoberta, quando estamos solteiros. O que acontece ali é que temos seis pessoas que estão solteiras e decidem estar juntas nesta experiência. A maior parte das convidadas vai de coração aberto, mas também muito para viver esta experiência de uma nova vida, a vida no campo. A maior parte deles ficam amigos e isso é transversal a todas as quintas e a todas as experiências. E isso é muito interessante porque, acima de tudo, o espírito que ali existe é de amizade. Claro que, depois, há pessoas que acabam por encontrar uma ou outra coisa na outra com que se identificam, nascem relações umas vezes e, outras vezes, não. A vida é assim mesmo. Agora, qualquer polémica que tenha existido acabou por se esfumar logo na primeira, segunda edição.

Mas sente-se mais feliz quando as pessoas no programa encontram um par ou, para si, é-lhe indiferente?

Não, não é. Estou a torcer para que eles sejam felizes e fico muito contente quando encontram um par, porque o certo é que aquelas pessoas, e eu vi isso nas primeiras emissões, tinham uma vida muito solitária. No caso do Luís, por exemplo, que esteve na primeira edição e não encontrou ninguém, e decidiu voltar a entrar na quinta edição e hoje tem o seu par, tem a mulher da sua vida, estão a tentar procurar construir uma família. Isto também prova que há pessoas que vão ali pela experiência, mas também de coração aberto. Neste caso, aquela mulher queria conhecer aquele homem e aquele homem queria conhecer aquela mulher. É um programa de televisão e não podemos esquecer-nos disso mas, se resultar, fico superfeliz com isso. Nós temos um casal que já tem dois filhos, e isso é fantástico.

Até quando vamos ver a Andreia Rodrigues como apresentadora do “Quem Quer Namorar com o Agricultor”?

Há uma questão que, para mim, é fundamental, e essa foi sempre a minha atitude. Estou aqui para o que a SIC precisar. Claro que, se houver alguma coisa que vai contra os meus princípios, não a farei. Mas estou aqui. E se a SIC achar que o “Quem Quer Namorar com o Agricultor?” é um programa importante nesta grelha, ou em qualquer outra grelha por determinado motivo, não vou deixar a SIC na mão. Não vou ser eu a criar essa questão. Portanto, acho que este espírito é o espírito geral de todos os activos da SIC: “É preciso, estamos aqui.” Há um espírito de coesão familiar, estamos juntos efectivamente, a remar todos no mesmo sentido. E, portanto, enquanto a SIC achar que o “Quem Quer Namorar com o Agricultor?” faz sentido, lá estarei. Se me apetece fazer coisas diferentes? Há dias em que me apetece mais do que outros. Claro que me apetece fazer coisas diferentes. Já tive o privilégio de fazer em televisão muitas coisas, vários registos. Há uns em que me encaixo mais e me sinto mais feliz a fazer do que outros. Mas sou muito feliz a fazer aquilo que faço e penso sempre em qual é a minha missão, e a minha missão neste programa é fazer chegar a mensagem ao outro lado, proporcionar a quem está a ver-nos o melhor: emoções, fazê-las rir, fazer-lhes companhia. Isso é o que me dá realmente um enorme prazer na profissão que tenho, esta capacidade que temos de chegar ao outro lado e dar a mão, mesmo que não estejamos lá fisicamente.

Abriu-me a porta para uma pergunta. Disse que se recusa a fazer alguma coisa que seja contra os seus princípios. Já recusou alguma coisa na SIC devido a esse motivo?

A única coisa a que disse não... Eu procuro respeitar todas as visões. Sou zero extremista, mas há coisas com as quais não me identifico. Não me identifico com touradas, por exemplo. E, se não me identifico com touradas, não posso fazer um programa num sítio onde estão a tourear. Era um programa com alta rotatividade de apresentadores e fiz uma série deles. Numa das vezes seria um programa dedicado às touradas. Ora, atenção, eu conheço pessoas da área, alguns são meus amigos, mas temos pontos de vista diferentes. Achei que não iria estar a desempenhar um papel da melhor maneira a defender um espectáculo com o qual não concordo. Na altura passei essa mensagem à SIC, e foi bastante fácil de compreender. E, no domingo seguinte, já lá estava eu num outro programa.

Está na SIC desde 2009. Tem recebido convites para mudar de estação?

Houve uma altura em que isso foi falado. Acabei por ficar na SIC. Foi uma altura importante em termos profissionais, em que houve também um crescimento profissional para mim na SIC. Foi uma altura de muitas dúvidas, mas a verdade é que a SIC acabou por me abraçar.

E não está arrependida, presumo.

Não, não estou. Estou muito feliz e sou muito grata pelo caminho que tenho feito na SIC. Eu gosto da SIC, gosto do ADN da SIC e gosto desta família que se construiu. Muitos deles são meus amigos, estiveram no meu casamento. Estou a falar dos editores, das produtoras, de pessoas com quem construí uma relação para lá das câmaras e são as minhas pessoas. Se o meu caminho passar por outro lado, é a mesma questão de há pouco... não estou a fechar nenhuma porta neste momento, creio que não faz sentido. Mas é o que é, e estou muito feliz com o meu percurso e muito grata por tudo aquilo que a SIC também me tem trazido.

Sente que por ser casada com Daniel Oliveira, director-geral de entretenimento da SIC, tem de provar mais que as outras pessoas?

Acho que já passei essa fase. Acho que já provei. Acho que já provei o que tinha a provar. Eu não trabalho para a unanimidade. Todos nós temos pessoas que gostam, pessoas que não gostam do registo, da forma de estar. Sinto-me cada vez mais abraçada pelas pessoas. A ideia que tenho, grosso modo, é que as pessoas percebem que a Andreia é a Andreia e cada um desempenha o seu papel. Sou eu que estou a apresentar o “Quem Quer Namorar com o Agricultor?”, sou eu que estou a fazer aquele programa, sou eu que estou a fazer aquela entrevista, e isso acho que já provei. Tenho sempre a vontade de fazer mais e melhor. Nunca acho que sou mais ou melhor do que o programa que estou a fazer. E procuro ter sempre essa atitude, essa humildade de olhar para o percurso que tenho pela frente: “Agora faço este programa, já fiz 20 entrevistas, portanto, isto vai ser fácil.” Não. É mais uma entrevista, tenho de prepará-la da melhor maneira, como se fosse a primeira. Em todos os programas temos de mostrar que merecemos aquilo que estão a dar-nos. As oportunidades são também um caminho que fazemos.

E o que gostava de fazer que ainda não fez?

Uma coisa que gostava muito de fazer - que já fiz um bocadinho, mas é uma coisa que gostava muito de fazer, talvez um dia - era produzir mais. Gosto muito de estar em salas de edição, gosto muito de acompanhar a edição dos programas. Gosto muito de pensar no programa desde a estaca zero até ao momento em que ele está no ar e passa a ficha técnica, e está feito. Esse é um lado que gostava de explorar mais, a parte da produção, alinhar um programa, construir um programa a todos os níveis. Portanto, espero ter a oportunidade, no futuro, de o fazer, porque é algo que me dá imenso gozo. Grande parte da magia na televisão está mesmo aí.

Tem duas filhas. Gostava de vê-las no mundo da televisão?

Pode parecer um clichê: quero vê-las naquilo que as fizer felizes. Os valores que quero passar-lhes, o que é importante? Trabalharem para serem boas naquilo que fazem, nunca acharem que as coisas estão garantidas, terem sempre uma atitude humilde perante as coisas e os desafios que lhes são propostos e enfrentá-los com segurança, com confiança, mas trabalhando sempre para serem melhores. E acho que, se fizerem isto, elas vão vingar seja em que área for. Acima de tudo, enquanto mulheres. E acho que isso é o mais importante, que é terem a certeza e sentirem a confiança de que podem, pelo menos, lutar por aquilo, porque têm capacidade e oportunidade para o fazer. Não quero de forma alguma direccioná-las seja para o que for. Quero que sejam felizes. É um clichê, mas é verdade.

Em que apresentadora de televisão se revê?

Há uma pessoa com quem me identifico muito, e isso tem a ver com o próprio trajecto que fui fazendo, e foi uma pessoa que esteve sempre ao meu lado: a Júlia [Pinheiro], no sentido da forma como, enquanto mulher, ela também abraça várias áreas dentro da televisão. É uma mulher que trabalha conteúdos, que apresenta, uma mulher muito sensata, com uma cultura geral incrível. É uma mulher que me inspira. Fez agora 60 anos e continua a construir uma carreira absolutamente invejável, e a desafiar-se a ela mesma, e, isso, acho que é absolutamente inspirador.

Sei que gosta muito de cozinhar. Qual é a sua especialidade?

Tenho várias. Se vamos falar de especialidades infantis, as minhas panquecas são irresistíveis. Normalmente, faço bonecos com as panquecas e as minhas filhas adoram-nas. Agora, para nós, faço uma massa muito boa, mas o risoto... sou boa a fazer risoto. Sou daquelas pessoas que estão 40 minutos a mexer com uma colher o belo do arroz até ele ficar no ponto.

É a minha última pergunta: como se imagina dentro de dez anos?

Espero poder continuar a fazer televisão. Não sei como a televisão estará daqui a dez anos. Apesar de nós dizermos que a televisão vai mudar - e já se fala disto há muitos anos -, ela continua mais ou menos igual. Os conteúdos adaptam-se, os tempos adaptam-se, mas continuamos a fazer televisão obedecendo a algumas regras que têm sido as mesmas ao longo dos anos. Imagino-me a continuar a fazer televisão mas, acima de tudo, a trabalhar conteúdos. Gostava muito que, daqui a dez anos, pudesse estar a pôr um bocadinho mais a mão na massa e a investir mais nesse sentido, a par da apresentação. A mulher que serei daqui a dez anos irá determinar aquilo que me imagino a fazer. E isso depende desta caminhada, que espero seja uma caminhada repleta de crescimento pessoal e profissional. É isso que espero e que, acima de tudo, me sinta realizada.

E feliz?

E feliz, sem dúvida, ver as minhas filhas crescerem. Não há nada mais enriquecedor do que pensarmos que estamos a formar bons seres humanos, e esse é o meu grande objectivo. Tudo o resto pode falhar. Se, daqui a dez anos, olhar para as minhas filhas enquanto adolescentes e pensar, “OK, estou a construir bons seres humanos”, acho que o objectivo fica cumprido.

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