Ana Patrícia Carvalho: “Sou um furacão tranquilo”

Quando o director da SIC perguntou a Ana Patrícia Carvalho se sabia alguma coisa sobre futsal porque era a única vaga que tinha, a aspirante a jornalista nem hesitou: não sabia, mas se lhe dessem cinco minutos iria ao Google aprender tudo. Este sábado, 8 de Janeiro, a SIC Notícias comemora 21 anos de emissão. Destes, 15 foram com a pivô que desde o início de 2020 é um dos rostos da “Edição da Noite”.



Como é que o seu trabalho e o dos seus colegas da SIC e do Expresso está a ser afectado pelo ataque cibernético aos sites da Impresa?
O que eu posso fazer é remeter para o comunicado que a SIC já emitiu e dizer que este é um ataque a todos os jornalistas, à liberdade da imprensa e à democracia, e que é na adversidade que a SIC e o Expresso mostram a capacidade que têm de superar e de se adaptarem. Continuamos no ar a informar, a todas as horas, e continuamos a tentar repor os nossos sites.

E em que consiste ao certo o trabalho de um pivô, além do que é visível quando ligamos a televisão?
Não é apenas ler o texto do teleponto, não.

Por exemplo, hoje, terça-feira, 4 de Janeiro, é dia de ir para a frente das câmaras?
Sim.

São agora 16h50. O que tem na agenda?
Um dia normal começa por volta das 15h00. Já falei com o meu coordenador e a minha produtora para perceber quais vão ser os temas que vamos abordar. Vamos decidir quem são os convidados e, consoante quem forem, começo a preparar as entrevistas. Tenho um pré-alinhamento do que poderemos ter de peças. Depois, até à hora do jornal, tenho de rever pivôs e escrever lançamentos. O ideal seria ir para o jornal com tudo fechado e revisto mas, muitas vezes, acontecem notícias de última hora e tudo o que foi trabalhado durante o dia acaba por cair, ficamos sem rede e vamos agarrar a notícia de última hora.

Não é apenas ler o teleponto.
Não, até porque quem escreve o que aparece no meu teleponto sou eu.

Os jornalistas que fazem as peças não escrevem?
Eles têm propostas de lançamentos, às vezes. [risos] Eu tenho sempre o cuidado, perante aquela proposta e perante o que é a notícia, de simplificar. Sou muito factual na escrita, muito directa. Tento sempre escrever de forma oral para que todas as gerações sentadas à frente da televisão entendam o que estou a dizer.

Esses são os predicados da escrita jornalística, mas na televisão ainda é mais acentuado?
Também tem a ver com o estilo de cada pivô. Há quem seja mais palavroso e quem seja mais directo.

No pico da pandemia houve uma tendência entre alguns pivôs de caírem em discursos moralistas, quase a pregar sermões aos telespectadores. A Ana Patrícia alinhou nesse registo?
Eu estive sempre no ar durante a pandemia. Penso que no primeiro estado de emergência tivemos semanas de trabalhar sete dias e, depois, estar sete dias em casa. Lembro-me que no final desses sete dias, logo no início, quando ainda estávamos a adaptar-nos, de no final dessa semana justificar a ausência dos sete dias seguintes. Sempre fui muito factual e lembro-me de ter sempre uma frase de despedida, como “proteja-se” ou “cuide de si”, também para lembrar às pessoas que o jornalismo fazia sentido e que deviam sempre procurar fontes fidedignas. O nosso maior desafio no início da pandemia foi mesmo o combate à contra-informação e às fake news, e ao facto de nos grupos de WhatsApp haver sempre um amigo de um amigo que era médico e que dizia que, afinal, já havia não sei quantos mortos e que os jornalistas não estavam a dizer a verdade. Tivemos um trabalho muito grande nessa altura. Isso tem a ver com o que estávamos a dizer há pouco, sobre o estilo de cada pivô, e de o meu ser mais directo. Não tinha muito mais a dizer que não fosse “cuide de si” e “proteja os seus”.

Isso foi mesmo no início da pandemia.
Sim, foi surreal. Ligávamos para o hospital e questionávamos a DGS e o Ministério da Saúde para saber se havia mortes ou não. Perguntávamos se já tinha morrido alguém e a resposta, nessa fase, era não. Mas nos grupos de WhatsApp circulavam as histórias do primo do amigo, o que tornava as coisas difíceis para nós, porque julgavam que não estávamos a dizer a verdade - e estávamos, claro, mais do que nunca. Por isso costumo dizer que o jornalismo mostrou o quão importante é. Não apenas por mostrar o que estava a acontecer... É que parece que uma mentira se agarra mais na memória das pessoas. Combater isso foi um grande desafio. Era difícil dar números que fossem mais do que números, pois eram mortos, internados, pessoas em estado grave, que têm famílias, e de repente tens o equivalente a um avião de 300 pessoas a cair todos os dias no país.

E a linguagem dos pivôs mudou. Diziam quantos internados houve e quantos novos casos se registaram. Já as mortes deixaram de se “registar”, passaram a “lamentar-se”. Foi uma forma de suavizar a realidade?
Não, até porque não creio que nada nessa linguagem seja para suavizar. Parece-me que é factual, e claro que todos os dias lamentávamos a morte de pessoas. Para mim, era chocante a forma como as pessoas banalizavam esses números. Pensava: “Caramba, se caísse um avião e morressem 20 pessoas, o país estaria em choque. Morrem 300, qual é a parte que não perceberam?” Como dizia, cada pivô adapta a linguagem. Há quem possa frisar e sublinhar que lamentamos a morte, enquanto outros podem ser mais factuais e dizer que morreram X pessoas e Y estão internadas em estado grave. Não se trata de números - são pessoas, histórias e famílias.

Olhando para trás, acha que houve alguma coisa que a comunicação social poderia ter feito de forma diferente no tratamento jornalístico da pandemia?
Acho que não. Na realidade, as incertezas iniciais eram muitas, e continuam a sê-las. Acho que nós, SIC, SIC Notícias e Expresso, tentámos sempre obter respostas e esclarecer as pessoas. Inicialmente, na questão das máscaras, se deveríamos usá-las ou não. Porque as informações eram muito contraditórias. E penso que a comunicação social teve muita força para que fossem tomadas decisões e para que tivéssemos respostas concretas. O país ia parar ou não? E as pessoas iam ficar em casa quanto tempo? Fomos à procura dessas respostas. Claro que foi duro quando ouvíamos as pessoas dizerem que estavam cansadas da pandemia. A questão é que continua a ser notícia e, por isso, continua a abrir noticiários. Mas a notícia que gostávamos de dar era a do fim da pandemia. Isso sim, devia abrir o jornal. Esperemos que em breve, se bem que essa incerteza ainda continue.

Nem que seja para passar à fase da endemia.
Já estamos mais próximos disso. Se calhar, já não pensávamos passar o Natal assim, mas esperemos que estejamos mais próximos de passar à endemia.

Se antes parecia, por vezes, que qualquer assunto era comentado pelo mesmo grupo de opinadores, com a pandemia passou a dar-se mais palco aos verdadeiros especialistas. Estamos mais bem informados?
Foi importante ouvir especialistas em diversas áreas. Os médicos, dos pediatras até aos virologistas. Ouvimos toda a gente e todos deram o seu contributo. Claro que era importante - e também o fizemos - ouvir o lado da economia, o que as empresas estavam a fazer, o que era preciso, quais as respostas. Acho que o jornalismo teve muito essa missão de conseguir perceber que normas iam entrar em vigor, que respostas iam ser dadas a estas pessoas, perceber caminhos e cenários.

Disse que a escolha dos convidados passa também por si?
Há sempre uma reunião de planeamento do dia com a direcção e os diferentes coordenadores e editores das diferentes áreas. Com o meu coordenador e a minha produtora, há sugestões dos temas a abordar. Muitas vezes, ou já me chegam esses convidados sugeridos ou eu própria digo que, perante certo tema, acho que podíamos convidar este ou aquele. Tenho essa margem. O jornal tem muito a minha marca.

Tem 36 anos e está na SIC há 15. E é pivô há quanto tempo?
Há oito ou nove anos, agora não tenho a certeza.

Entrou para a “Edição da Noite” quando?
Comecei nas madrugadas, fiz manhãs, depois o “Jornal da Meia-Noite”, durante muitos anos. A “Edição da Noite” já fazia de vez em quando, mas fiquei com o lugar um pouco antes da pandemia - portanto, quase dois anos. Também faço o jornal da noite generalista.

É algo que ambicionava?
É algo que foi surgindo. Queremos sempre crescer enquanto pivô para ganharmos o nosso espaço e conquistarmos o nosso horário. E eu fui tendo sempre oportunidades ao longo dos anos. Tenho a sorte de já ter feito todos os horários.

A maioria daqueles que saem dos cursos de Comunicação querem ir para televisão. Foi o seu caso?
Não, até porque, quando saí da faculdade, o meu objectivo era fazer rádio. Fui parar à televisão por acaso. É curioso, porque eu dou aulas e, muitas vezes, pergunto aos meus alunos porque escolheram o curso, porque querem ser jornalistas, e eles respondem com a maior naturalidade que querem aparecer e apresentar. As pessoas devem ter as suas ambições, claro, mas acho que é preciso sujar um pouco os joelhos, como costumamos dizer, antes de alguém se tornar pivô. Eu tive de sair em reportagem, tive de conhecer a realidade do terreno. Ser pivô não era uma ambição que eu tinha.

Como aconteceu?
Foi um desafio. Estava em fim de contrato, apareceu esta vaga e foi-me proposto. O que eu disse na altura é que não fazia a mínima ideia se tinha talento para isso. “Vamos fazer um teste e logo se vê.” Imagine, fiz o teste numa quinta-feira e, no domingo, já estava a apresentar e a coordenar. O meu objectivo era mesmo ser jornalista. Nos primeiros dois anos, confesso que sofri muito. Achava que tinha imensas falhas, que não tinha talento, que precisava de formação - que nunca tive, fui aprendendo no ar. Depois, quando ganhei confiança na minha coordenação, creio que foi aí que consegui encontrar o meu espaço e o meu estilo, mais descontraído e sereno. Foi aí que agarrei o meu lado pivô.

Por acaso, sereno é como descreveria o seu estilo.
É um contra-senso, [risos] porque no dia-a-dia sou tudo menos serena. Sou um furacão tranquilo.

Vamos ter de desenvolver esse conceito. O que quer isso dizer?
Porque eu sou muito intensa, sou uma pessoa sempre com muita energia, que não pára. E depois chego ao estúdio, sento-me e parece que estou no meu momento zen. Pode cair o mundo que estou ali com toda a tranquilidade. É para encher duas horas? Tudo bem. Estamos num breaking news? Adoro e torno-me a pessoa mais serena do mundo. Gosto de preparar os jornais, mas adoro quando há uma notícia de última hora. Acho que ainda faço as coisas com a mesma pica de quando tinha 21 anos.

É a chamada vertigem do directo?
Sim. Claro que já me perguntaram se, com o passar dos anos, isso não se tem amenizado, se eu já não sinto aquelas borboletas na barriga, aquele nervosismo. Acho que temos sempre esse nervosismo porque há uma responsabilidade grande de estarmos em directo. Com o passar dos anos, posso estar mais confiante e segura do meu trabalho, mas tenho sempre presente o peso do directo.

Qual foi a notícia de última hora que a marcou mais?
Na eleição que deu a vitória ao Donald Trump, eu fiz a emissão até de madrugada, quando todas as indicações davam a vitória à Hillary, e, depois, aquilo foi uma reviravolta que ninguém estava a perceber que estava a acontecer. São as noites eleitorais e aquelas surpresas de última hora. Também estava em directo durante o ataque ao Capitólio.

Tem saudades de fazer reportagens?
Tenho, e de vez em quando ainda faço, mas, neste momento, estou focada em ser pivô e em melhorar.

Vamos continuar a pedalar para trás. Entrou na SIC aos 21 anos, depois de tirar Comunicação Social na vertente de Jornalismo. Bastou enviar currículo?
Não. Depois da licenciatura fiz um curso de Rádio e Televisão no CENJOR. Quando estava a terminar, e já a enviar currículos, tive uma entrevista na SIC, mas para entretenimento. Não pude entrar nesse projecto porque queria acabar o curso mas, depois, fui chamada a substituir uma anotadora que adoeceu e acabei por fazer a semana de castings em Lisboa. Andava atrás dos apresentadores quando me cruzei com um professor da faculdade que trabalhava na SIC e me perguntou o que estava ali a fazer. Expliquei-lhe que era temporário, que era só aquela semana de castings para o programa e que o que eu queria mesmo era jornalismo. Ele disse-me para enviar currículos. Na altura, o que eu queria era rádio, ainda cheguei a ir a algumas entrevistas, mas tinha uma voz demasiado de miúda, ainda por trabalhar. Em todas me disseram que precisavam de alguém para o imediato. Depois vim a uma entrevista na SIC com o Ricardo Costa e disse-lhe que a minha ambição era ser repórter de guerra porque era do Barreiro.

E ele?
Olhava para mim e ria-se. Depois disse-me: “Pronto, muito bem, gosto das tuas ambições, mas o único projecto que tenho neste momento é futsal. Percebes alguma coisa?” E eu, imediatamente, muito fresquinha, disse: “Claro que sim.” Ele ficou a olhar para mim muito sério e comecei-me a rir. Aí disse-lhe que, para ser sincera, não, não sabia nada de futsal, mas que um jornalista tem de perceber de tudo e, se me desse cinco minutos, ia ao Google e lhe traria as regras todas. E assim foi.

Tornou-se especialista em futsal?
Sim, a fazer reportagem de pista, relatos e resumos. Depois foram surgindo oportunidades de fazer outras coisas. Fui passando de editoria em editoria até me desafiarem a ser pivô.

Houve alguma editoria em particular que tenha deixado saudades?Acho que todas, na verdade. Comecei no desporto... E acho, honestamente, que quem faz desporto faz todas as áreas.

Porquê?
Talvez pela experiência que se ganha nos directos a fazer relatos. Eu não lido bem com silêncios. Tenho de estar sempre a falar, e acho que isso vem daí. Depois fiz economia, sociedade, internacional, e entrei para as pools do “Primeiro Jornal” e do “Jornal da Noite”, o que significa que estamos na equipa e podemos ir fazer qualquer área. Não quero dizer que sou uma espécie de Bimby do jornalismo, [risos] mas acho que é preciso ter muitas valências e nunca é demais saber um bocadinho de cada área.

Num período formativo da sua vida estudou para ser bailarina. Que traços lhe deixou essa experiência?
Vários. Deixou esta persistência e a busca sempre da perfeição e, sobretudo, a disciplina. Sou quase obcecada no dia-a-dia. Tenho de saber tudo o que está a acontecer. Também resiliência e insistência pois, às vezes, fazia mais do que um treino por dia e não saia de lá enquanto não conhecesse a coreografia toda.

Foi uma lesão que a levou a estudar comunicação social?
Comecei a formação como bailarina muito pequena, com sete anos. Sempre quis ser bailarina e jornalista - queria ser ambas as coisas. Depois tive essa lesão, que à partida seria temporária. Eu teria de parar por dois anos e depois poderia voltar aos treinos. Foi na altura em que deveria entrar no Conservatório e foi aí que decidi ser jornalista. Já voltei ao balé e gosto de ver bailados, mas a minha profissão estava mesmo destinada a ser jornalista.

Porquê?
Não tenho jornalistas na família, mas lembro-me de, em pequena, ir comprar os jornais para o meu pai. E lembro-me de estar em casa a folhear os jornais depois de ter ido à papelaria. Ainda hoje, na era digital, tenho de ter um jornal em casa. Quem me tira um jornal em papel tira-me tudo. Veio daí e do estar à mesa com a família a ver as notícias na televisão. Ninguém me influenciou, fui eu mesma. Sou assim, muito decidida. Posso até pedir uma opinião, mas tendo já a certeza prévia sobre o que vou fazer.

Decidida ou teimosa?
Decidida e teimosa. Há quem diga que é carisma. [risos]

Como lida com a exposição mediática?
Nunca tinha pensado nessa questão porque sou apenas um veículo para passar informação mas, ao longo dos anos, tenho sentido o lado positivo de as pessoas me abordarem. Já tive uma senhora com quase 80 anos a abordar-me na rua e a agradecer porque via as notícias ao longo do dia, mas só à noite é que conseguia perceber o que estava a acontecer. Isso está em linha com o que falávamos há pouco, sobre a clareza na linguagem. E é bom saber que quando as pessoas querem saber mais sobre algo que está a acontecer, é a SIC Notícias que procuram.

A CNN Portugal representa uma ameaça ou a concorrência é saudável?
Acho que qualquer concorrência é boa e devemos dar-lhe essa credibilidade, mas, de facto, a SIC Notícias, que vai fazer 21 anos a 8 de Janeiro e foi o primeiro canal de informação em Portugal, continua a ser a grande marca de informação.

Procura acompanhar a concorrência para conhecer o produto que a CMTV e a CNN Portugal põem à frente dos telespectadores?
Acho que temos de perceber o que a concorrência faz, tanto em Portugal como lá fora. Mas a SIC Notícias, como digo, sempre senti que é o canal que marca o passo. Não quero com isso dizer que a concorrência copie, longe disso.

Dá aulas de quê e onde?
Dei aulas de Jornalismo na ETIC e no ISEG, mas desde a pandemia parei.

Continua a moderar debates e a apresentar eventos corporativos?
Sim, também.

É caso para perguntar: a SIC não a trata bem?
Eu sou a workaholic. [risos] Muitos desses eventos são do grupo Impresa ou em parceria, e vou em representação da SIC, SIC Notícias ou Expresso. Os que faço por fora e que saem desse âmbito, faço-os pelo peso que tenho no canal. Mas sou bem tratada, sim. [risos]

O que vê no seu futuro?
Sei que estou em boas mãos, disso tenho a certeza. Agora, independentemente das minhas ambições ou de saber o que quero, a minha carreira tem sido sempre muito pautada por oportunidades que vão surgindo. Como uma que surgiu no entretenimento, recentemente.

Como se proporcionou apresentar o “Estamos em Casa”?
Foi um desafio que me foi colocado pelo Daniel Oliveira, coordenado com o Ricardo Costa. Correu muito bem e acho que é bom os pivôs e jornalistas terem essa oportunidade de fazer coisas diferentes.

É para repetir?
Isso já não sei... Se me colocarem de novo esse desafio, sim, porque não?

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