Ucrânia: nunca diga nunca

Ucrânia na NATO? Isso nunca, diz a Rússia. Os norte-americanos respondem que “nunca” aceitarão o veto de Moscovo sobre quem pode ou não aderir à Aliança Atlântica. As duas potências nucleares estão a negociar à beira do abismo e as discussões sobre a Ucrânia começaram sem a presença dos ucranianos, enquanto as conversas sobre a segurança europeia se iniciaram sem presença de europeus.



As duas maiores potências nucleares do mundo, Estados Unidos e Rússia, estiveram esta semana a negociar o futuro da Ucrânia e a segurança da Europa de leste, mas, até ao fecho desta edição, não havia acordo nem ruptura. Moscovo quer evitar a adesão da Ucrânia à NATO e a Aliança Atlântica recusa-se a aceitar este suposto direito de veto. Na quarta-feira, após quatro horas de conversas em Bruxelas, o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, reconheceu que “não será fácil ultrapassar as divergências”.

Os Estados Unidos acusam a Rússia de estar a mobilizar mais de cem mil soldados junto à fronteira ucraniana, com a intenção de invadir o território do país vizinho. Fontes citadas pelo New York Times afirmam que a mobilização está a crescer e que o ataque pode estar iminente. O Kremlin nega qualquer projecto de invasão e recusa a ideia de sanções americanas por fazer manobras militares no seu próprio território.

A ameaça da mobilização militar teve credibilidade. Nas discussões em Genebra, na segunda-feira, Moscovo obteve uma vantagem inicial ao conseguir que a conversa fosse exclusiva entre Rússia e Estados Unidos. Ou seja, falou-se da Ucrânia sem a presença dos ucranianos e de segurança europeia sem a presença dos europeus.

A negociação de Genebra durou sete horas e envolveu duas delegações diplomáticas de alto nível. Não foi detalhado o conteúdo, mas os dois lados pareciam satisfeitos. Já com europeus na mesa, as discussões continuaram na quarta-feira, em Bruxelas. Antes de essas conversas começarem, o Presidente russo, Vladimir Putin, deixou bem claro que pretendia falar de segurança europeia, mas também da segurança russa. O essencial, para Moscovo, é travar qualquer nova expansão da NATO para leste e impedir que Ucrânia e Geórgia entrem na organização ou possam comprar armas ocidentais.

Na primeira conversa, a Rússia fez ameaças, mas também declarações conciliatórias. O chefe da delegação russa, Sergei Riabkov, disse que a Ucrânia não poderá ser membro da NATO, “nunca, nunca, jamais”. Moscovo quer garantias por escrito e, em troca, abre caminho a um acordo sobre armas nucleares de curto alcance.

O lado americano também usou palavras fortes para dizer que a “NATO nunca fará a promessa” de não aceitar a adesão ucraniana. Apesar de tudo, a frase americana é flexível, pois não se aceita o direito de veto, mas também não se afirma que a Ucrânia vai entrar na NATO. No fundo, as declarações sugerem que a margem de manobra será curta, mas os russos também reconhecem que a linguagem dos americanos se suavizou e que Washington está a escutar alguns dos seus argumentos.

Uma coisa é clara: a Rússia não aceitará a adesão da Ucrânia à NATO e está disposta a agir para o evitar, só não se sabendo qual será o formato dessa acção. A hipótese de conflito armado parece assustar toda a gente, sobretudo os europeus. Se os ocidentais aceitarem a condição exigida pela Rússia, a Ucrânia ficará com soberania limitada ou, na melhor das hipóteses, com estatuto de neutralidade semelhante ao da Finlândia durante a Guerra Fria.

Trunfo económico

O dilema entre guerra europeia e liberdade de um país parece difícil de resolver. Moscovo tem muitas formas de exercer pressão, não apenas as militares. A tensão no leste agravou-se nas últimas semanas por causa da Ucrânia, mas também devido à instabilidade no fornecimento de gás natural russo, matéria-prima crucial para a segurança energética da Europa. Este factor está a provocar inflação e os gasodutos ainda nem sequer foram encerrados.

Moscovo quer assegurar a abertura do gasoduto Nord Stream 2, entre Rússia e Alemanha, através do Báltico, que evita a passagem pela Polónia e a Ucrânia. Os ucranianos estão a pressionar o Congresso americano para que imponha sanções ao uso dessa infra-estrutura russo-europeia, obrigando a administração Biden a interferir num negócio que interessa à Alemanha e custou 10 mil milhões de euros a um consórcio da Gazprom.

A UE compra à Rússia 40% do seu gás natural importado e a maior quantidade do combustível corre pelos gasodutos que atravessam a Ucrânia, a qual cobra direitos de passagem. Em 2019, a Rússia facturou 18 mil milhões de euros com as suas exportações de gás para a Europa. Com a abertura do Nord Stream 2, a Ucrânia vai perder receitas. Por outro lado, Moscovo procura diversificar os seus mercados, vendendo para a China.

O chefe da diplomacia dos EUA, Antony Blinken, dizia no início da semana que o Nord Stream 2 pode funcionar como um trunfo para os aliados ocidentais, mas as melhores cartas parecem estar em mãos russas. A dependência energética explica a cautela do lado europeu da NATO, sobretudo dos alemães, que não deverão prosseguir com novas vendas de armas aos ucranianos.

A Grande Rússia

Com todas estas complexidades, o que querem os russos? A saída das forças da NATO que estão na Ucrânia a treinar militares locais e a paragem da venda de armamento sofisticado que só pode ser usado contra tropas russas. Talvez a possibilidade de negociar com os EUA de igual para igual, como nos bons velhos tempos da competição entre americanos e soviéticos. Existe também a intenção de Vladimir Putin de reconstruir o Império Russo, que teve o seu auge no período da União Soviética.

Isto leva ao problema dos limites da NATO. Criada em 1949, a aliança visava impedir que a Europa Ocidental se tornasse comunista. Com o fim da URSS, em 1990, foram feitas promessas de que a NATO não iria expandir-se na direcção de Moscovo. Putin diz, com todas as letras, que foram “enganados”.

O principal argumento russo é nacionalista: Ucrânia e Rússia estão ligadas desde o início da sua história (Rússia de Kiev, século X); a Crimeia é russa desde o século XVIII, habitada por étnicos russos e tártaros pró-russos; é também sede da base naval de Sebastopol.

Em 2014, tropas russas invadiram a Crimeia e Moscovo promoveu a insurreição nas províncias russófonas separatistas do Donbass, no leste da Ucrânia, guerra civil que provocou, entretanto, 13 mil mortos e grande destruição.

Os americanos não aceitam estas interferências e consideram que elas resultam de ambições imperiais. Para Washington, as antigas repúblicas da URSS são Estados independentes e o alargamento da NATO defende esses países de eventuais ataques russos. O direito de veto de Moscovo seria o fim da Aliança Atlântica.

Vistos de Moscovo, os alargamentos nada têm de defensivo e as rebeliões em Minsk e Kiev fizeram parte da estratégia ocidental de cercar a Rússia. Desde o fim da URSS, a NATO aproximou-se centenas de quilómetros de Moscovo e a eventual adesão da Ucrânia colocaria a fronteira a meros 500 quilómetros da capital russa.

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