Socialistas alemães vencem e sucedem a Merkel

A esquerda venceu na Alemanha, mas deverá governar com o centro, sendo também possível a sobrevivência da grande coligação com os democratas-cristãos, os grandes derrotados da noite. O próximo chanceler deverá ser Olaf Scholz.



A esquerda venceu na Alemanha, mas pela margem mínima, o que limita as combinações do próximo governo. Segundo projecções com base em votos contados (não são ainda os resultados finais, mas serão próximos), os socialistas do SPD venceram as eleições legislativas, com 25,5% dos votos, mais um ponto percentual do que os conservadores da CDU. Em deputados, a sua vantagem é de cinco eleitos (202 contra 197). Os democratas-cristãos ficaram em segundo lugar e sofreram uma derrota histórica. Na realidade, a CDU nunca ficara abaixo de 30% numas eleições legislativas. Desta vez, na comparação com 2017, perdeu 8,4 pontos percentuais.

No que respeita à formação do governo, tudo dependerá dos dois partidos seguintes, Verdes e liberais (FDP), cada um deles a poder reclamar vitória: os ambientalistas progrediram 4,9 pontos percentuais face a 2017 e elegeram 110 deputados. Os liberais elegeram 93 deputados e atingiram 11,7%, ficando acima da extrema-direita da Alternativa para a Alemanha (AfD), que perdeu votos e eleitos.

O próximo chanceler alemão será, com toda a probabilidade, Olaf Scholz, actualmente vice-chanceler e ministro das Finanças. O candidato social-democrata tem 63 anos e tirou o seu partido de uma situação de declínio que parecia irreversível. A confirmar-se a vitória, Scholz terá duas opções de governo: pode formar uma coligação de três partidos, de SPD com Verdes e FDP, o que somaria 405 deputados (são necessários 366), ou pode manter a grande coligação ainda no poder, agora com a CDU nos segundos-violinos. Esta combinação teria 399 deputados e garantia certa continuidade.

Pelos comentários na noite eleitoral, Scholz deverá tentar a primeira escolha, juntando os três partidos que ganharam votos em relação a 2017. É provável que as negociações se prolonguem por meses. O partido A Esquerda, de pós-comunistas, teve um péssimo resultado e escapou por uma unha negra ao limite de 5% para entrar no Parlamento. O mau resultado inviabilizou a possibilidade de uma coligação entre SPD, Verdes e Esquerda, pois faltam 13 eleitos.

Sai Merkel

Esta eleição representa o fim da era de Angela Merkel. A chanceler esteve no poder 16 anos e poderá ficar ainda alguns meses, até haver governo. A sua longevidade no poder é apenas comparável com a do seu mentor Helmut Kohl e com a de Otto von Bismarck, no século XIX. Apesar de tudo, dificilmente o legado político da chanceler cessante será comparável ao papel histórico destes seus antecessores.

Merkel teve um estilo prudente de exercício do poder, o que beneficiou a posição alemã, embora com o custo do adiamento de reformas. Na crise das dívidas soberanas (em que Portugal tanto sofreu) podia ter sido utilizado também um mecanismo de mutualização de dívidas semelhante ao actual Programa de Recuperação e Resiliência, mas a chanceler recusou-se na altura a dar esse passo. Em consequência, o programa da troika em Portugal foi mais brutal do que devia ter sido.

Por outro lado, a direita alemã acusa Merkel de ter cometido um erro com consequências a longo prazo para a Alemanha: a entrada súbita de 1,7 milhões de imigrantes durante a crise migratória de 2015 e 2016. A Alemanha estava a perder população e a entrada de refugiados deu um impulso demográfico, mas o fluxo migratório também provocou um choque político, já que os recém-chegados vinham de países em conflito e de culturas muito diferentes. Há uma estatística reveladora: uma em cada quatro crianças nascidas na Alemanha tinha mãe estrangeira.

Com a população nativa a envelhecer e outra importada a crescer depressa, a Alemanha terá no futuro um novo problema: a fatia crescente de população mal integrada. Os muçulmanos na Alemanha (porventura a comunidade com mais problemas de integração) são neste momento 6,5% da população. Nos cenários demográficos de baixa migração, serão mais de 11% em 2050; nos cenários de alta migração, podem atingir os 20% da população alemã dentro de 30 anos. Esta será uma questão política central nas próximas décadas.

O futuro

Além de ter de lidar com este problema, o próximo governo alemão enfrenta tarefas difíceis, nomeadamente a definição do papel da Alemanha na Europa e da relação com os Estados Unidos e com a Rússia. Os americanos estão a focar-se na região do Pacífico; por isso, a Alemanha terá de decidir se a sua liderança na Europa é apenas económica ou se, pelo contrário, terá de ser reforçada a componente política e de defesa. Isto tem implicações: a Europa vai ser mais federal? Vai ser criado um sistema permanente de mutualização de dívida na União Europeia? Berlim acabará por ter um orçamento militar superior ao de Paris? Vamos passar de um sistema de reformas cautelosas para uma Alemanha mais activa?

Analisando a história, há outra constante: a relação complexa com a Rússia. O próximo governo terá de saber lidar com este problema. A Alemanha importa 93% do gás natural que consome e a maior parte vem da Rússia, em breve através de um gasoduto pelo Báltico que dispensa a passagem pela Polónia ou pela Ucrânia. Uma boa relação com a Rússia significa a definição de zonas de influência de que Moscovo não abdica, provavelmente incluindo a Ucrânia, o que pode ser politicamente difícil para um executivo em Berlim.

Há também a questão da transição energética. A Alemanha está a concluir o primeiro terço de um plano de longo prazo para passar do consumo de combustíveis fósseis para energias renováveis. Em relação ao valor de base de 1990, a redução de emissões de gases com efeito de estufa deveria ter atingido 40% em 2020, mas tudo indica que a Alemanha terá ficado aquém da meta, embora próximo. Como o fecho das centrais nucleares foi antecipado para 2022, o objectivo de atingir 80% de redução de emissões em 2050 tornou-se mais difícil. O progresso das energias renováveis tem sido impressionante mas, para compensar o fim do nuclear, a Alemanha vai manter durante mais tempo o consumo de carvão.

As energias renováveis têm limitações, por exemplo o crescimento adicional dos parques eólicos ou o maior consumo de electricidade de um parque automóvel electrificado. Há sobretudo o custo agravado de sustentar a diferença entre as tarifas pagas às empresas de energia renovável e o preço no mercado da electricidade. Esse custo é de 30 mil milhões de euros anuais, um quinto da factura de energia das famílias. A transição energética terá igualmente de pagar a recuperação das regiões mais atingidas pelo inevitável encerramento das centrais a carvão (até 2038).

Os críticos do programa dizem que o custo só pode aumentar e que existe uma ameaça à competitividade alemã, além do risco de falhas de energia. Os defensores do programa querem acelerar os prazos, dizem que os preços vão baixar e confiam no desenvolvimento de tecnologias que o país poderá exportar para todo o mundo.

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