“Sinto-me completamente insegura”. O balanço de quem vive ‘em liberdade’ há cinco dias em Inglaterra

O país - que tem o maior número de mortos a nível europeu, mas é também um dos mais avançados na vacinação - levantou as restrições. A decisão não é consensual e, ao NOVO, houve quem confidenciasse: “quantas pessoas vão ter que morrer até o governo perceber que tem de voltar atrás?”.



Inglaterra vive em “liberdade” desde segunda-feira, dia em que o uso de máscara deixou de ser obrigatório por lei e “caíram” os limites aos ajuntamentos em espaços abertos. Discotecas e outros espaços de animação nocturna voltaram também a funcionar pela primeira vez desde Março de 2020.

A decisão - que nenhum outro país ousou seguir e que o governo britânico justificou com o facto de o número de óbitos e internados não estar a seguir a mesma tendência de crescimento que o de casos - foi tomada apesar dos avisos dos especialistas para “consequências devastadoras”.

Mas, quase uma semana após o levantamento das restrições, que balanço faz quem lá vive? O NOVO falou com portugueses a residir no país e a grande maioria teme os efeitos da decisão.

“Mais prudência não ficava mal”

“Sinto-me completamente insegura”, começou por explicar Raquel Vicente, que trabalha como enfermeira em Inglaterra há três anos, ao NOVO.

“Uso transportes públicos para ir para o trabalho e é desconcertante como da noite para o dia as pessoas deixaram de usar máscara...como se o vírus já não existisse”, lamentou, defendendo que “o facto de o governo ter ido contra o aconselhamento dos especialistas, sabendo que os casos podem aumentar até 200 mil por dia, prova o quanto parece não se importar com a vida dos cidadãos”.

“É uma situação difícil. Mas, na minha opinião, seria melhor um relaxamento faseado das restrições”, explicou Henrique Castro, que trabalha como engenheiro há três anos no país, ao NOVO. “Eles têm que manter a economia a crescer e a verdade é que as hospitalizações e mortes diárias não estão a seguir a mesma tendência que os casos diários devido ao número de pessoas vacinadas. De qualquer das formas, um bocado mais de prudência não ficava mal”, afirmou.

Daniel Almeida, gestor de recursos num hospital desde 2016, não concorda “na totalidade” com as decisões do governo, mas admitiu que “alguém tem de dar o primeiro passo para perceber o efeito de retirar as restrições”.

Mas se há quem não concorde com estas mudanças, há também quem considere que o governo tomou a decisão certa. “Estamos num ponto em que o efeito das vacinas já se nota. Ou seja, podemos ter muita gente infectada, mas o número de pessoas hospitalizadas está muito baixo. Por isso, acredito que o perigo já não é muito”, disse Joana Ribeiro, cientista biomédica em Inglaterra há três anos, ao NOVO, lembrando que qualquer caso positivo de covid-19 ou contacto com positivo continua a ter de cumprir o período de isolamento.

A principal preocupação é que o Sistema Nacional de Saúde [NHS] volte a ficar sobrecarregado. “Algo que ninguém quer ver”, vincou Henrique Castro, acrescentando que “continua a ser uma das partes vitais do país”.

Mas, de acordo com Raquel Vicente, isto já está a acontecer. “Os internamentos já estão a aumentar em todo o país. Os hospitais já se estão a preparar para aquele que pode ser um dos piores Invernos de sempre”, revelou, alertando que além dos novos casos, é também necessário pensar nas pessoas que sofrem do chamado longo covid, “que continuam a regressar [aos hospitais] para serem internadas”.

“Além disso, há notícias de vírus infantis que estão a aparecer e de que as crianças podem precisar das mesmas máquinas que os adultos precisam para combater a covid-19. Como é que vamos fazer o racionamento de recursos? Os profissionais de saúde estão cansados desta batalha e não são só eles que sofrem. No final do dia, toda a gente é afectada, seja porque se perde o convívio com as outras pessoas, seja porque se perde aquela consulta ou cirurgia urgente que teve que ser adiada e podia ter salvado uma vida”, continuou, admitindo que é muito triste ver tudo isto acontecer e sentir a frustração de nada se poder fazer. “Sinto que estou à espera que a tempestade chegue”, confidenciou.

Fazendo um balanço dos primeiros dias de “liberdade”, Henrique e Joana admitem não ter sentido grande diferença. “A maioria das pessoas e estabelecimentos não alterou em nada a forma como lidam com a covid-19”, afirmou o engenheiro. “A única diferença que notei foi que pude ir a casa de banho de um restaurante sem máscara”, acrescentou a cientista biomédica.

Já Daniel limita-se apenas a referir que os números falam por si mesmo. “Estão a aumentar, isso deve-se ao facto de haver menos restrições”, frisou.

Mas voltará o Governo atrás na decisão? Se Joana Ribeiro não considera provável que tal aconteça, Raquel Vicente não tem dúvidas: “não só é provável, como vai mesmo ter que acontecer”.

“A única questão que se coloca é: quantas pessoas vão ter que morrer até o governo perceber que tem de voltar atrás?”, asseverou.

Os danos provocados pela ‘Pingdemic’

‘Pingdemic’ foi o nome dado pela imprensa britânica ao crescente número de pessoas colocadas em isolamento após terem sido notificadas com um alerta [ping] pela aplicação de telemóvel do serviço de saúde britânico.

Dados divulgados na quinta-feira indicavam que um novo máximo de 618.903 pessoas receberam um alerta em Inglaterra e País de Gales na semana entre 8 e 15 de Julho de que tiveram um contacto de risco com uma pessoa infectada.

O fenómeno já causou constrangimentos em diversos sectores. Esta sexta-feira, o Governo anunciou que os trabalhadores essenciais da indústria alimentar podem não cumprir o isolamento profiláctico após contacto de risco com infectados passando em alternativa a fazer teste diário à covid-19.

A medida pretende evitar escassez de produtos alimentares que várias empresas do sector alertaram ser uma possibilidade devido ao elevado número de funcionários actualmente ausentes do local de trabalho, o que está a ter impacto no abastecimento de lojas.

O Reino Unido é país europeu com o maior número de mortos, quase 129 mil durante a pandemia covid-19, mas é também um dos mais avançados na vacinação, tendo já 88% da população adulta pelo menos uma dose e 69% a vacinação completa.

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