Português fugiu às cheias na Alemanha de barco e escapou à tragédia: “Era a única forma de sair da minha casa”

José Santos reside em Hattingen, na Alemanha, e viveu momentos de aflição quando, na madrugada de quinta-feira, acordou com os bombeiros a baterem-lhe à porta. Agora hospedado num hotel, o profissional de saúde garantiu ao NOVO que o hospital onde trabalha lhe ofereceu férias de cinco dias, mas recusou.



José Santos, português a viver na Alemanha, mais concretamente na cidade de Hattingen, não ganhou para o susto esta quinta-feira, dia em que as chuvas torrenciais não deram tréguas no país, com dezenas de mortos e centenas de desaparecidos. Ao NOVO, o profissional de saúde, natural de Moita dos Ferreiros, na Lourinhã, e há cinco anos a fazer a especialidade de neurologia no Hospital Santa Isabel, na pequena vila de Niederwenigern, descreveu um cenário assustador. Foi alertado pelos bombeiros, na madrugada de quinta-feira, que estava em risco de vida e saiu de casa pela janela... de barco.

“Tem estado a chover ininterruptamente e torrencialmente nos últimos sete ou oito dias. Todos os dias. O rio só começou a dar de si há cerca de dois dias. Lembro-me que nessa altura, quando voltava do trabalho no hospital, vi que o rio estava com uma corrente muito forte e violenta. Fiquei um bocadinho assustado. Até liguei à minha namorada, que vive em Lisboa, e disse-lhe o que estava a acontecer. Vivo a um minuto do rio e quando cheguei a casa a água ainda não tinha chegado lá, mas já tinha galgado o leito inicial. Liguei para as autoridades e perguntei se havia algum risco e se podia ficar lá naquela noite. A única coisa que me disseram foi que estavam a monitorizar a situação e que, de momento, não tinham qualquer recomendação para dar. Restava aguardar”, começou por contar, nunca prevendo, porém, a tragédia que viria a acontecer.

“Fiquei mais ou menos descansado. Fui para a cama, na quarta-feira, às 22h30. Estou a dormir profundamente quando de repente, às 3h00 da manhã, oiço alguém a bater à porta do meu quarto com muita força. Eram os bombeiros a perguntar se estava tudo bem e se sabia o que estava a acontecer. Disse-lhes que não”, relatou, explicando que lhe disseram de imediato que o rio estava a subir descontroladamente desde a meia-noite. Levantou-se da cama, foi à janela, olhou para baixo e só via água à frente.

“Parecia que estava no meio de um lago. Os bombeiros disseram-me que estava em risco, que já tinha havido deslizamento de terras e casas a ruir, por isso tinha de sair dali. Pediram-me para fazer uma mochila pequena e levar comigo o essencial para três dias. Foram buscar um barco. Era a única forma de sair da minha casa. O rés-do-chão estava com água até à cintura. Não dava para sair pela porta. Havia muita pressão de água. Trouxeram o barco, por volta das 4h00. Saltei da janela e percorremos à volta de 600 metros para sair da água e irmos para um local seguro”, revelou José Santos, que estava naturalmente “bastante assustado” com o que estava acontecer.

Ficou à espera que fossem resgatadas mais pessoas. No barco, com José Santos, foram mais sete pessoas, incluindo um português que dá aulas de Biologia na Alemanha. Foram levados para um alojamento provisório da Protecção Civil, no qual foi oferecido pequeno-almoço. “Depois só voltaram a falar connosco a partir das 12h00 a perguntar se tínhamos algum sítio para ficar. Eu disse que não, vivo na Alemanha sozinho. Podia perguntar a amigos alemães se podia ficar com eles, mas disseram-me logo que iam ver com escolas, ginásios e hotéis para ver se podíamos ficar lá”, continuou.

“O que decidi foi que queria ir para um hotel, mas estava complicado, porque estavam com receio de que a água também atingisse os hotéis. Então tive de esperar. Não foi possível ir trabalhar, porque a estrada que dava para o hospital foi cortada. O hospital não sofreu qualquer dano, porque se encontra num ponto alto”, disse, acrescentando que a unidade hospitalar não recebeu novos colegas e por isso, ficou a trabalhar a 30 ou 40%, com os profissionais de saúde do turno da noite.

Teve direito a dias de férias mas preferiu trabalhar
Tudo ficou mais calmo e José Santos ficou num hotel perto de uma estação de autocarros. “Foi bom para mim. A Protecção Civil ajudou-me muito, até o próprio consulado português em Dusseldorf me ligou a perguntar se precisava de alguma coisa. Estou a ser apoiado, o que é de louvar”, admitiu. No entanto, com a preocupação, dormiu mal durante a madrugada desta sexta-feira.

“Tentei ir dormir, mas tive uma noite pesada, com pesadelos. Por isso, decidi vir trabalhar. Ontem o meu hospital e a empresa que detém o hospital decidiram dar a todos os trabalhadores afectados pelas cheias cinco dias úteis de férias. Eu teria direito a esses dias, mas, depois do dia de stress que tive, decidi vir trabalhar. Não só pelos meus doentes mas também pela minha saúde mental. E está tudo a correr bem felizmente”, contou, visivelmente satisfeito, ficando agora à espera de saber se pode regressar à sua habitação, em Hattingen.

“As autoridades disseram que, se não houver chuvas torrenciais, no domingo já será possível ir a casa a pé. Pode ir lá também um engenheiro ou arquitecto analisá-la para ver se existem danos estruturais. Só depois disso podemos regressar às casas”, concluiu.

Certo é que apoio nunca faltou, nem mesmo vindo de Portugal, nomeadamente de amigos, familiares e até habitantes da sua terra natal. “Em Portugal, quando souberam do que estava a acontecer comigo, a minha família e amigos ligaram-me, muito preocupados, e mandaram-me mensagens. A minha família foi incansável, ligava-me praticamente a todas as horas. As pessoas da minha terra também foram muito importantes para mim. Recebi muitas mensagens de pessoas da vila que também me mantiveram com a saúde mental boa o suficiente para resolver as coisas”, confessou José Santos.

Para os próximos dias, prevê-se bom tempo na Alemanha. Que seja um sinal de que a tragédia já terminou. No entanto, centenas de pessoas continuam desaparecidas. É mesmo a pior catástrofe natural do país no período do pós-guerra.

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