Os nossos piores amigos

França diz que foi traída pelos seus aliados e que Joe Biden fez exactamente o mesmo que faria o antecessor, Donald Trump. Paris perdeu um lucrativo contrato para construir 12 submarinos e o eventual comprador, a Austrália, preferiu ter acesso à tecnologia dos submarinos nucleares americanos. Este foi o preço de uma nova aliança para o Índico e Pacífico, AUKUS, visando a China, e que integra apenas Estados Unidos, Reino Unido e Austrália. A desilusão europeia pode ter consequências no futuro da NATO e constitui uma forte ameaça para a relação entre franceses e norte-americanos.



TÓPICOS

O anúncio do reforço de uma parceria militar entre Estados Unidos, Reino Unido e Austrália está a transformar-se numa inesperada crise entre aliados, com potencial para afectar a segurança da União Europeia e até o futuro da NATO. A França foi tratada como potência de segunda categoria e reagiu com irritação ao cancelamento de uma encomenda australiana de 12 submarinos da classe Barracuda. A intenção das potências ocidentais é defender a região do Índico e do Pacífico, contendo a China, mas o torpedo no negócio francês pode transformar a iniciativa num tremendo erro do Presidente Joe Biden.

A França acusa os australianos de terem mentido, os americanos de deslealdade e os britânicos de oportunismo. Na origem do conflito está a decisão da Austrália de trocar os submarinos convencionais de fabrico francês - negócio avaliado em pelo menos 56 mil milhões de euros - por submersíveis nucleares norte-americanos, pelos quais Camberra nem terá de esperar tanto tempo. Os seus novos submarinos serão mais sofisticados e podem manter-se submersos durante períodos mais longos. A Austrália não é uma potência nuclear, mas ganha acesso a equipamento militar ultra-secreto que, além dos EUA, apenas o Reino Unido possui.

Seis países, incluindo a França, operam submarinos nucleares. Segundo Le Figaro, em Junho circulavam rumores de que a Austrália tinha dúvidas sobre o negócio francês e, numa reunião entre o Presidente Emmanuel Macron e o primeiro-ministro Scott Morrison, foi sugerido aos australianos que estudassem a aquisição de submarinos nucleares franceses. Na altura, já deviam estar fechadas as negociações com os EUA sobre o acordo Indo-Pacífico, mas Morrison escondeu o jogo.

Contra China

Essa nova parceria, AUKUS, baptizada com as iniciais dos países signatários, prevê trocas de tecnologia e cooperação naval. O anúncio em videoconferência, na semana passada, devia ter sido uma oportunidade mediática para fazer brilhar os líderes australiano, britânico e americano, cada um a braços com os seus problemas domésticos: Joe Biden perdeu prestígio com a queda de Cabul; Boris Johnson tem de resolver as dificuldades do Brexit; e Scott Morrison enfrenta protestos contra as restrições covid.

O alvo não nomeado da aliança militar é a China, mas parece que ninguém contou com a reacção francesa. No mundo cruel dos interesses das nações, a oportunidade de obter as armas de topo nunca é desperdiçada mas, aparentemente, tudo foi negociado em segredo. Segundo dizem os franceses, trata-se de um comportamento hostil, “inaceitável entre aliados”. Paris está a usar palavras pouco habituais entre parceiros, como “duplicidade” e “mentira”.

O Presidente americano terá dificuldade em reparar as relações com a França e com os aliados europeus. Joe Biden tinha iniciado o seu mandato com a ideia de que “a América está de volta”, mas os acontecimentos sugerem que se tratava de exagero.

A França diz que a decisão americana no caso dos submarinos teve a imprevisibilidade típica do anterior Presidente, Donald Trump. Esta ideia compromete o futuro das relações transatlânticas, que já andavam tremidas: Biden fez o que Trump teria feito.

Quando soube do fim do negócio dos submarinos Barracuda, Paris chamou os seus embaixadores nos EUA e na Austrália e cancelou um encontro sobre defesa com os britânicos. Na comunicação social houve quem defendesse a saída imediata do comando militar da NATO, estrutura a que o Presidente Sarkozy regressou em 2009. Esta consequência é improvável, mas não há dúvida de que a Aliança Atlântica sofreu um forte abalo.

Não há memória de uma França tão irritada com aliados essenciais da NATO. Foi uma humilhação, a segunda em poucos meses, após os europeus terem sido praticamente ignorados na retirada de Cabul. Também ninguém terá esperado que os franceses transformassem o conflito numa questão de âmbito europeu. A Austrália está a negociar com a União Europeia um acordo de comércio livre, mas Paris já fez saber que a conclusão deste acordo está comprometida. As negociações prosseguem, mas será ingénuo admitir que a discussão será fácil.

Questões de preço

O ponto de vista dos australianos é diferente. A construção dos 12 submarinos da classe Barracuda foi anunciada em 2016 mas, desde então, o custo quase duplicou, para 56 mil milhões de euros. A esta verba havia que acrescentar os 90 mil milhões de euros que seriam pagos em manutenção dos navios durante a sua operação. Os submarinos não seriam entregues antes de 2035, os últimos só em 2050. A ideia de envolver a indústria australiana foi rapidamente abandonada.

A Austrália considera que está na linha da frente do conflito com a China. A sua única ameaça existencial foi a guerra com o Japão, durante a Segunda Guerra Mundial, só superada com ajuda naval americana. Agora, a Austrália sente-se crescentemente ameaçada pela China, com pressões económicas e ataques cibernéticos. Está a investir na sua marinha e Pequim acusa Camberra de interferir em interesses chineses, ao bloquear investimentos, espalhar desinformação e apoiar críticos em Hong Kong e Taiwan. Do ponto de vista australiano, a ameaça chinesa só pode aumentar e a aliança AUKUS é uma garantia que cai do céu.

Segundo a imprensa francesa, a questão dos submarinos teve forte contributo do primeiro-ministro britânico Boris Johnson. Em relação ao Reino Unido, os franceses reagiram sem disfarçar o desprezo. Boris Johnson explicou que a aliança AUKUS não visa dividir nem excluir ninguém, abrindo caminho à participação da França, que tem interesses no Pacífico. O facto é que Londres e Paris já estavam a afastar-se, devido às turbulências do Brexit, e o caso dos submarinos só pode piorar a relação. Sem os ingleses, a segurança europeia não terá a mesma solidez.

Após o fiasco de Cabul, os países europeus tencionam rever as bases da sua segurança, já que os Estados Unidos estão a mudar de estratégia, menos preocupados com a Europa e concentrados na China. Estes esforços devem acelerar também devido ao caso dos submarinos.

Nos próximos meses, a UE deverá começar a discutir a criação de uma cooperação reforçada que permita conceber novos armamentos próprios, estruturas de comando e até unidades militares comuns. O Presidente Emmanuel Macron tem defendido estas ambições. Macron está a lançar as bases da sua campanha eleitoral, visando as presidenciais do próximo ano, e o tema tem ressonância, pois a acção independente é uma ideia popular em França. A menorização do país reforça a tese.

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