O novo rosto da extrema-direita que põe em risco a segunda volta para Le Pen

Antigo jornalista Éric Zemmour começa a surgir nas sondagens como um nome a ter em conta na corrida ao Eliseu. Republicanos franceses só escolhem candidato em Dezembro. Emmanuel Macron só deverá anunciar a recandidatura ao cargo no início do próximo ano.



A seis meses das presidenciais francesas, a corrida baralhou-se com o aparecimento de mais um potencial candidato. Até agora, todas as sondagens realizadas desde Maio de 2017, data das últimas eleições, vaticinavam um novo confronto entre o actual Presidente, Emmanuel Macron, e Marine Le Pen, da União Nacional (RN na sigla original e antiga Frente Nacional). No entanto, Éric Zemmour, antigo jornalista e figura polémica pelo seu discurso xenófobo e anti-imigração, surge bem colocado para conseguir a passagem à segunda volta: no mais recente estudo de opinião realizado pela empresa Harris Interactive, aparece à frente de Le Pen nas intenções de voto [ver tabela.

O candidato que ainda não o é oficialmente - e que até há pouco tempo era o anfitrião de um programa de comentário político na CNews - já foi obrigado, por diversas vezes, a responder em tribunal por declarações discriminatórias e discurso de ódio. Numa das ocasiões afirmou que os traficantes de droga eram principalmente “pretos e árabes”. Noutro caso, mencionou que os empregadores tinham o legítimo direito de rejeitar candidatos negros ou muçulmanos.

“Racista e negacionista”

Nas últimas semanas, Zemmour tem estado em digressão pelo país a promover o seu mais recente livro, “La France n’a pas dit son dernier mot” (A França ainda Não Disse a Última Palavra). O agora político defende que está em curso uma guerra de civilizações e que, caso não seja posto um travão na imigração, o país corre o risco de se transformar numa república islâmica. Éric Zemmour não esconde a admiração que nutre por Donald Trump e tem mesmo orgulho em comparar-se com o ex-presidente dos EUA. Nascido em 1958 e filho de judeus argelinos de nacionalidade francesa, que emigraram para França na altura da guerra da independência da Argélia, tem também uma visão polémica sobre o período da II Guerra Mundial. O ex-jornalista defende que o marechal Philippe Pétain, líder do colaboracionista regime de Vichy, foi alguém que auxiliou os judeus e rejeita que o antigo líder da França ocupada tenha participado nas deportações para os campos de concentração nazis. “É um discurso bafiento, típico da extrema-direita francesa. Não há nada de novo. A novidade é a aceitação que tem vindo a ter no espaço público. O facto de lhe ser dado tanto espaço e legitimidade pelos meios de comunicação social marca um ponto de viragem”, explicou Cécile Alduy, professora na Universidade de Stanford e especialista em política francesa, em declarações ao jornal inglês The Guardian.

Dizem alguns analistas que a retórica utilizada por Zemmour quase faz com que Marine Le Pen pareça moderada, ainda para mais num momento em que a candidata do RN tem vindo a suavizar as posições para apelar a uma base maior de eleitores. Na semana passada, o ministro da Justiça, Eric Dupond-Moretti, referiu-se a Zemmour como “racista” e “negacionista”. A ascensão deste novo rosto da direita radical francesa colocou o islão e a imigração no centro do debate político. Numa recente entrevista ao Le Figaro, Gérald Darmain, ministro do Interior, fez questão de frisar que foram fechadas várias mesquitas que eram controladas por islamitas radicais. “Nunca nenhum governo fez tanto contra o islão político”, assegurou.

Do lado da direita moderada e mais tradicional, Michel Barnier veio também defender uma moratória sobre a imigração, por um prazo de três a cinco anos. Aquele que foi o negociador-chefe da União Europeia para o Brexit é um dos possíveis candidatos pelo Les Républicains (LR). O partido fundado por Nicolas Sarkozy em 2015 irá escolher o seu representante para a corrida eleitoral numa convenção partidária agendada para 4 de Dezembro. Xavier Bertrand, ex-ministro e actual presidente da região de Altos da França, e Valérie Pécresse, presidente da Ilha de França, são os outros dois nomes que parecem reunir mais apoios entre os republicanos. Na sondagem da Harris Interactive, Bertrand parece ser a hipótese mais forte a nível nacional, obtendo 13% das intenções de voto.

Socialistas em crise

Os militantes do Partido Socialista foram esta quinta-feira a votos para escolher o seu candidato. Anne Hidalgo, actual presidente da Câmara de Paris - reeleita para um segundo mandato no ano passado -, e Stéphane Le Foll, autarca de Le Mans, eram as alternativas em cima da mesa. À hora de fecho desta edição não havia ainda resultados oficiais, mas Hidalgo era a favorita para suceder a Benoît Hamon, o candidato de 2017. Caso se confirme a escolha de Hidalgo, será a segunda vez que os socialistas indicam uma mulher como candidata - em 2007, Ségolène Royal perdeu para Sarkozy.

Parecem muito distantes, mas não são assim tão longínquos os tempos em que o PS se posicionava como uma das forças políticas dominantes em França. Em 2012, ainda não passaram dez anos, François Hollande venceu as eleições e os socialistas controlavam as duas câmaras do Parlamento e ainda as principais regiões. O cenário actual está longe de ser encorajador. Na sondagem da Harris Interactive (seja qual for o candidato republicano), Hidalgo nunca vai além dos 6%, ficando sempre atrás de Jean-Luc Mélenchon, o esquerdista da França Insubmissa, e em empate técnico com Yannick Jadot, o designado pelos Verdes para a corrida ao Eliseu.

A menos que alguém consiga maioria absoluta no primeiro escrutínio, as presidenciais francesas jogam-se a duas voltas. A primeira está agendada para 10 de Abril de 2022 e a segunda para duas semanas depois, a 24 do mesmo mês. Emmanuel Macron, que tudo indica só anunciará a recandidatura no início do próximo ano, deverá ter garantida a passagem à segunda volta. Nos vários cenários traçados para a primeira volta obtém no mínimo 24% dos votos, o que lhe dá uma relativa margem de tranquilidade. Na duelo derradeiro, a 24 de Abril, o caso é diferente. De acordo com o estudo de opinião da Harris Interactive, o adversário menos forte seria Zemmour (excluindo Mélenchon, que não deverá entrar nas contas para a passagem à segunda ronda). Neste caso, Macron obteria 55% da votação. Num hipotético novo encontro com Le Pen, o presidente teria uma vitória menos folgada do que em 2017. Desta vez ficar-se-ia pelos 53%, bastante abaixo dos 66% de então. Caso Xavier Bertrand consiga um lugar no confronto decisivo, as contas afiguram-se mais complicadas para o actual presidente. Aparentemente, a disputa seria renhida. Resta saber se algum candidato conseguirá roubar a segunda posição a Zemmour ou Le Pen. Faltam seis meses para as eleições: até lá, muita água irá correr por debaixo das pontes do Sena, ali bem pertinho do Eliseu.

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