O Líbano e a morte anunciada de um Estado falhado

O fornecimento público de electricidade resume-se a poucas horas por dia. A moeda perdeu quase todo o valor e o preço dos bens disparou. Quase não há combustível. Enquanto não houver um Governo estável será muito difícil conseguir ajuda internacional através do FMI.



A situação é pior do que dramática. O país colapsou.” O desabafo é da portuguesa Caroline de Albergaria Arbadji, que reside em Beirute há mais de 20 anos. A profunda crise económica e o impasse político que dura há quase dois anos fazem com que o Líbano esteja à beira do caos.

Os fantasmas da guerra, que terminou em 1990, depois de 15 anos de confrontos, estão ainda bem presentes. Caroline, para já, afasta a hipótese de um cenário mais militarizado; no entanto, acredita que, com a deterioração da situação económica, o país corre o risco de entrar numa espiral de desordem civil. Mas também há quem não esconda os receios mais bélicos. “É claro que existe esse medo. A guerra civil pode recomeçar como algo espontâneo ou ser facilitada por elementos externos. A nossa única garantia é a empatia que existe entre as pessoas que atravessam as mesmas dificuldades e a existência de um exército nacional forte e independente”, explica ao NOVO Carl Abou Malham, um consultor empresarial que se apresentou como candidato ao Parlamento nas últimas eleições, em 2018, integrando as listas do Lihaqi, um movimento da sociedade civil.

Um relatório publicado em Maio pelo Banco Mundial explica que a actual crise económica e financeira poderá vir a ser considerada a terceira mais grave a nível global desde 1850. A desvalorização da moeda atirou mais de 50% da população para baixo do limiar de pobreza. “Em 2019 eram necessárias 1500 libras libanesas para trocar por um dólar norte-americano e agora são necessárias 23 mil. E isto é no mercado negro, porque os bancos já não têm dinheiro e não é possível levantar dólares. Ao mesmo tempo, o preço dos produtos alimentares disparou”, explica ao NOVO Caroline Arbadji.

Nem tudo estava bem há dois anos. Longe disso. Foi aliás o descontentamento com a situação económica e com a classe política que fizeram com que, em Outubro de 2019, as ruas das cidades no Líbano se enchessem de gente em protesto contra a situação do país. No ar pairou a esperança de uma revolução que acabou por nunca se materializar. “O Líbano é gerido por esta classe política há 30 anos. Uma grande parte dos políticos são antigos chefes de milícias que se transformaram em partidos com o fim da guerra civil”, sublinha Arbadji.

Desgovernos

O xadrez político no país é complexo e marcado por uma obrigatoriedade de partilha de poder. Segundo o Acordo de Taif, assinado no final de 1989 e que pôs fim à guerra civil, o primeiro-ministro tem de ser um muçulmano sunita, o Presidente um cristão maronita e o líder do Parlamento um muçulmano xiita. As manifestações que começaram a 17 de Outubro de 2019 fizeram com que o primeiro-ministro Saad Hariri apresentasse a sua demissão ao Presidente Michel Aoun. O chefe de Estado designou então Hassan Diab para assumir a liderança do Executivo. Diab conseguiu o voto favorável de 69 dos 128 deputados que compõem o Parlamento libanês. Foi apoiado pelo bloco aliado dos xiitas do Hezbollah, mas não conseguiu o respaldo dos partidos compostos por membros da sua própria comunidade sunita. A tomada de posse aconteceu em Janeiro de 2020, mas a solução governativa durou pouco tempo. Em Agosto do ano passado, na sequência da explosão no porto de Beirute - que matou mais de 200 pessoas e desalojou 300 mil -, acabou por entregar a sua demissão. No momento da saída, Diab, um académico e professor na Universidade Americana de Beirute, apontou como causa para os problemas do Líbano o “sistema de corrupção” que tomou conta de todo o Estado.

Em Outubro de 2020, depois do adeus de Hassan Diab, Hariri, que se tinha demitido um ano antes - e que também já tinha sido primeiro-ministro entre 2009 e 2011 - foi novamente chamado a formar Governo. A tarefa revelou-se impossível. Na quinta-feira da semana passada, 15 de Julho, acabou por atirar a toalha ao chão, depois de mais uma vez o Presidente Aoun não ter aceitado a lista de 24 ministros tecnocratas (oito nomeados pelos sunitas, oito pelos xiitas e oito pelos cristãos maronitas) que Hariri lhe apresentou.

Citado pelo The New York Times, Sarkis Naoum, um analista político libanês, entende que o Presidente terá mudado de ideias - estando agora contra o regresso de Hariri ao cargo de primeiro-ministro -, rejeitando assim repetidamente as equipas propostas por Hariri como forma de obrigá-lo a desistir. De acordo com o Financial Times, Aoun exige que os cristãos maronitas estejam em maioria na lista de ministros, de forma a terem poder de veto. Ainda segundo a mesma publicação britânica, Michel Aoun, já com 86 anos, estará também envolvido em jogadas de bastidores de forma a tentar que quem lhe suceda na presidência seja o seu genro, Gebran Bassil, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e que também já lhe sucedeu na liderança do Movimento Patriótico Livre, o maior partido cristão do Líbano.

“Tornou-se evidente que não será possível chegar a um acordo com o Presidente. Durante o encontro perguntei-lhe se necessitava de mais tempo para reflectir sobre a equipa que lhe apresentei. Disse que não valia a pena, porque não iríamos chegar a um entendimento. Sendo assim, apresento a minha demissão da tarefa de tentar formar Governo. Que Deus ajude o Líbano”, afirmou Hariri depois do encontro com Aoun. Até que o impasse político se resolva, Hassan Diab, primeiro-ministro demissionário desde o Verão do ano passado, deverá continuar em funções com poderes muito limitados. Para o país torna-se cada vez mais premente encontrar a saída deste labirinto de interesses políticos, uma vez que só com um Governo em plenas funções será possível negociar junto do Fundo Monetário Internacional um pacote de ajuda financeira.

Um país sem luz

“Somos geridos por um bando de criminosos e corruptos. Neste momento não existe luz ao fundo do túnel”, lamenta Caroline Arbadji, a portuguesa que trabalha na Associação Libanesa para o Autismo, uma organização não governamental na qual é responsável pela angariação de fundos. A crise faz com que não receba ordenado há mais de um ano e seriam necessários fundos vindos do exterior para remunerar os terapeutas que trabalham para a associação. “Com os ordenados que estamos a pagar hoje, não conseguem chegar ao fim do mês”, sublinha. As dificuldades são transversais a toda a população. A electricidade só existe para quem consegue comprar combustível no mercado negro - muitas vezes controlado pelos próprios políticos - para alimentar os geradores privados. O abastecimento público funciona apenas uma a duas horas por dia.

A esperança de Carl Abou Malham passa pela possível chegada ao poder da sociedade civil. Nas eleições de 2018, o Lihaqi, o movimento de cidadãos que integra, ficou a 20% da quota necessária para eleger representantes parlamentares. “Temos muitas razões para acreditar que as eleições foram manipuladas. Mas, por um lado, é bom não termos conseguido. De outra forma estaríamos a representar um papel de testemunhas num Estado-fantoche saqueado pela máfia e pelas milícias”. Não são muitas as expectativas que deposita nas eleições programadas para o próximo ano: “É impossível resolver um problema com as mesmas peças que o criaram.” A solução, no seu entender, terá sempre de passar pelos cidadãos: “Os políticos são uma consequência da profunda degradação do Estado às mãos das máfias e das milícias. Há um provérbio chinês que diz que a melhor altura para plantar uma árvore foi há 25 anos e que o próximo melhor momento é agora. A sociedade civil tem vontade de construir um Estado a sério que represente e proteja os cidadãos, em vez de viver às suas custas.”

Ainda que o sistema político no Líbano continue muito marcado pelas diferenças religiosas, o antagonismo de credos não está presente no dia-a-dia das gentes. “Hoje já não se sentem essas divisões. Muitas vezes consigo relacionar-me melhor e de forma mais construtiva com cidadãos de outras comunidades que partilham dos mesmos valores que eu do que com outros cristãos maronitas com quem apenas partilho a religião de nascimento”, explica Carl Abou Malham.

*Artigo originalmente publicado na edição impressa do NOVO nas bancas a 23 de Julho de 2021

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