“Não sei se perceberam que eu era uma pessoa”. Forças etíopes acusadas de violação sistemática em Tigray

Soldados e milícias submeteram centenas de mulheres e raparigas a violações, escravidão e mutilação sexual. Os relatos da brutalidade constam do mais recente relatório da Amnistia Internacional.



Há nove meses que o conflito de Tigray, no norte da Etiópia, começou a fazer vítimas. Entre elas estão centenas de mulheres e raparigas que foram vítimas de violações e outros actos de violência sexual por soldados e milícias. Os relatos da brutalidade que sofreram estas mulheres constam do relatório da Amnistia Internacional (AI) sobre o conflito em Tigray, publicado na terça-feira.

O relatório, intitulado “Não sei se eles perceberam que eu era uma pessoa: violação e outros actos de violência sexual no conflito de Tigray, Etiópia”, revela como soldados e milícias submeteram as mulheres de Tigray a violações, escravidão sexual, mutilação sexual e outras formas de tortura - entre comentários étnicos ofensivos e ameaças de morte.

“É óbvio que a violação e a violência sexual foram utilizadas como arma de guerra para infligir danos físicos e psicológicos persistentes às mulheres e meninas em Tigray. Centenas delas foram submetidas a um tratamento brutal com o objectivo de degradá-las e desumanizá-las”, afirmou Agnès Callamard, secretária-geral da AI.

“A gravidade e magnitude dos delitos sexuais perpetrados é particularmente impactante; constituem crimes de guerra e possíveis crimes que lesam a humanidade. Degradam os direitos humanos básicos e há que pôr-lhes fim”, salientou a responsável, defendendo que o Governo etíope deve “actuar de imediato para impedir que membros das forças de segurança e das milícias aliadas cometam actos de violência sexual”.

“Não sei se perceberam que estava grávida. Não sei se perceberam que eu era uma pessoa”

Foram 63 as sobreviventes de violência sexual que a organização entrevistou. Muitas delas presenciaram a violação de outras mulheres, um padrão que, segundo a AI, indica uma violência sexual generalizada que pretendia aterrorizar e humilhar as vítimas.

Doze sobreviventes relataram terem sido violadas por soldados à frente de familiares, incluindo crianças. Cinco delas estavam grávidas no momento da violação. Estas mulheres contaram ainda ter sido mantidas em cativeiro durante dias – ou até semanas – em que foram violadas de forma constante e, na maioria dos casos, por vários homens.

Todos os nomes que se seguem são fictícios para proteger a identidade das mulheres

Letay, de 20 anos, estava grávida de quatro meses quando foi atacada em casa, em Novembro do ano passado, por homens armados que falavam amárico – o idioma oficial da Etiópia – e vestiam uma mistura de uniformes militares e roupas do quotidiano.

“Três homens entraram no quarto onde eu estava. Era de noite, estava escuro [...] Eu não gritei. Indicaram-me, por gestos, que se fizesse algum barulho me matavam. Violaram-me um depois do outro. Eu estava grávida de quatro meses. Não sei se perceberam. Não sei se perceberam que eu era uma pessoa”, disse.

Nigist tem 35 anos e é mãe de dois filhos. À Amnistia, contou que ela e outras quatro mulheres foram violadas por soldados eritreus em Sheraro, em Novembro de 2020: “Três deles violaram-me à frente do meu filho. Entre nós havia uma mulher grávida de oito meses, violaram-na também”.

Blen, de 21 anos, foi sequestrada no dia 5 de Novembro por soldados eritreus e etíopes. Com outras 30 mulheres, esteve presa durante 40 dias. “Violavam-nos e matavam-nos à fome. Eram muitos e violavam-nos em grupo”, contou.

Entre Fevereiro do ano passado a Abril de 2021, os centros médicos de Tigray registaram 1.288 casos de violência de género. Entre o início do conflito e Junho deste ano, só no hospital de Adigrat, foram registados 376 casos de violação. Mas os dados não mostram a realidade: muitas das sobreviventes assumiram à AI não ter recorrido a nenhum centro médico, o que indica que a cifra pode ser em muito superior.

Estas mulheres sofrem ainda graves problemas físicos e mentais e muitas permanecem com sequelas, como sangramento constante, dores e fístulas. Outras contraíram doenças sexualmente transmissíveis, como VIH, depois de terem sido violadas.

Falta de apoio

“Como se o seu sofrimento e traumas fossem pouco, as sobreviventes foram deixadas sem o apoio adequado. Estas mulheres devem poder aceder aos serviços que necessitam e têm direito a receber – como tratamento médico e apoio psicológico”, defendeu a secretária-geral da AI.

“Todas as denúncias de violência sexual devem ser investigadas de forma efectiva, independente e imparcial, para que as sobreviventes consigam justiça”, concluiu.

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