Nada será como antes

Ao definir a Rússia como “a maior e a mais directa ameaça” à paz e segurança dos países da Aliança Atlântica, a cimeira de Madrid configura uma espécie de regresso às origens.



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Há 70 anos, o primeiro secretário-geral da NATO, Hastings Ismay, sintetizou o papel da organização que liderava nos seguintes termos: “Manter os americanos dentro, os russos fora e os alemães em baixo.” Quis com isso dizer que o vazio estratégico surgido em 1945 com o fim da Segunda Guerra Mundial teria de ser preenchido através da presença de militares americanos em solo europeu.

Dado que a guerra conduzira ao colapso das tradicionais potências continentais, cabia a Washington assegurar a estabilidade regional através de uma garantia de segurança proporcionada pela Aliança Atlântica. Por outras palavras, a NATO teria de impedir a extensão do imperialismo soviético para além dos países onde o Exército Vermelho já se encontrava. Essa mesma garantia de segurança significava que uma Alemanha amarrada à Aliança Atlântica não poderia enveredar pelo rearmamento unilateral, a fonte histórica da insegurança europeia.

De ameaça a ameaça

Concluída a Guerra Fria, a NATO vê-se forçada a procurar uma nova missão. Porque se acreditava que a Rússia tinha encetado uma complexa transição para a democracia e para os mercados, a tradicional missão de contenção prosseguida pela NATO simplesmente deixara de fazer sentido, até porque as forças convencionais russas não possuíam capacidades que pudessem ameaçar os Estados europeus. Quanto às armas nucleares, os tratados bilaterais celebrados entre a Rússia e os Estados Unidos evitariam o inimaginável.

Neste novo quadro geopolítico, qual era então a utilidade da NATO? Numa primeira fase, pretendeu-se utilizar a organização para consumar os sucessivos alargamentos para os ex-países comunistas da Europa Central. A NATO seria, portanto, um veículo para democratizar países saídos da tutela comunista, garantindo que jamais voltariam a ser subjugados por Moscovo. Na sequência dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, a organização alarga o âmbito da sua actuação, definindo-se como um instrumento de intervenção mundial na luta contra o terrorismo, um papel nunca inteiramente pacífico no interior da aliança.

Ao mesmo tempo que a NATO debatia a sua função e relevância, a Rússia – muito paulatinamente – reconstituía o seu poderio militar. O ponto de viragem ocorreu em 2007, quando Putin, na Conferência de Segurança de Munique, tornou clara a sua determinação em pôr fim à unipolaridade americana. Pouco depois, no Verão de 2018, perante a impotência do Ocidente, invade a Geórgia e ocupa a Ossétia do Sul. Ainda assim, muitos dos Estados-membros da NATO continuavam a acreditar que era possível amarrar a Rússia ao concerto de nações europeias através da interdependência económica – particularmente através dos fornecimentos energéticos – e, assim, impossibilitar futuras agressões de Moscovo.

Sabemos que o mundo era outro em 2010, quando a NATO elaborou o seu último conceito estratégico. Procurando fazer um reset das relações com a Rússia, o Presidente Barack Obama desdobrou-se em consultas com o homólogo russo, Dimitri Medvedev. Com a Casa Branca determinada a não isolar Moscovo, Obama, juntamente com Angela Merkel e outros aliados europeus, insiste na inserção da Rússia na arquitectura de segurança europeia. Em consequência, o conceito estratégico de 2010 acena com “uma verdadeira parceria estratégica entre a NATO e a Rússia”.

Contudo, nem todos os países da Aliança Atlântica consideravam que a Rússia passara a ser uma potência benigna. Se a anexação da Crimeia desacredita a visão benigna quanto às intenções russas, a recente invasão da Ucrânia pôs um fim definitivo na ilusão. Ao definir a Rússia como “a maior e a mais directa ameaça” à paz e segurança dos países da Aliança Atlântica, a cimeira de Madrid configura uma espécie de regresso às origens. A NATO voltará a fazer o que sempre fez: mantém os americanos na Europa, trava o expansionismo russo e impede que a Alemanha volte a ser a potência militar dominante no continente.

Leia o artigo na íntegra na edição do NOVO que está esta sexta-feira, dia 8 de Julho, nas bancas.

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