Migrações: selva não trava multidão rumo a norte

Está a aumentar um fluxo de imigrantes na fronteira sul dos Estados Unidos, sobretudo de haitianos que partem de Brasil e Chile, percorrendo todo o continente americano através de perigosos obstáculos naturais.



Mais de 90 mil pessoas, sobretudo haitianos, tentaram este ano atravessar a região de Darien, na fronteira entre Panamá e Colômbia, revelou a Organização Internacional das Migrações. Este número esconde o imenso drama de uma legião de gente que se dirige para a fronteira dos EUA.

A peregrinação dos haitianos começa no Brasil e no Chile, onde permaneceram como trabalhadores ilegais durante anos. O percurso passa pela fronteira entre a América do Sul e a América Central, numa região inóspita de selva e pântanos conhecida por Darien e que, só este ano, já engoliu dezenas de vidas. Para atravessarem estes obstáculos, os migrantes usam os serviços de bandos armados que muitas vezes os roubam e matam. Para os que tentam passar sem ajuda há perigos naturais, nomeadamente cobras e correntes de rios.

A rota de migração para norte está a engrossar. No mês passado, mais de 15 mil haitianos acamparam sob uma ponte do Rio Grande, na fronteira entre Estados Unidos e México, e as autoridades americanas reagiram com mão pesada, acelerando o processo das deportações, que em poucas semanas somou 7500 destes ilegais. Os haitianos fogem de um país em ruínas. O Presidente do Haiti, Jovenel Moise, foi assassinado em Julho por um comando de mercenários e, em Agosto, houve um sismo que matou 2200 pessoas e feriu 12 mil. A promessa de eleições foi adiada e há violência de grupos armados.

Do ponto de vista americano, a crise migratória está a tornar-se um problema político. Os democratas defendiam uma atitude mais humanitária nas fronteiras, os republicanos queriam travar a imigração ilegal com uma barreira física, mas neste momento não existe nem uma coisa nem outra. Há enormes grupos de gente em movimento: 30 mil na Colômbia, a tentar passar para o Panamá; 60 mil no Texas, ou seja, quatro vezes o grupo que acampou no Rio Grande (e devolvido ao Haiti). Há informações sobre 400 mil passagens ilegais só em Outubro, o dobro de Julho e cinco vezes superior ao número de Janeiro.

Os críticos de Biden afirmam que, sem acção urgente, haverá em 2021 pelo menos dois milhões de imigrantes ilegais a entrar nos EUA, exercendo pressão sobre os salários dos mais pobres. O risco para os democratas é que a crise migratória se transforme num dos temas das eleições de 2022, decisivas para manter o controlo do Congresso. A administração Biden enfrenta outros problemas: rupturas nas cadeias de distribuição na economia, subida dos preços, incerteza nos mercados financeiros e medíocre criação de empregos, além de muita controvérsia sobre a obrigatoriedade de vacinação para trabalhadores e um inesperado aumento de pessoas sem-abrigo, vítimas do aumento súbito das rendas.

No entanto, no mundo pós-covid, os problemas dos países ricos não parecem ser suficientes para dissuadir os desesperados que preferem arriscar a vida e os escassos bens em selvas equatoriais e longas veredas por milhares de quilómetros.

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