Max Stahl, o jornalista cuja coragem permitiu dar nomes e rostos à resistência de Timor

Vítima de doença prolongada, Stahl morreu no mesmo dia que Sebastião Gomes, em 1991. Foi a morte deste jovem que originou o protesto que culminou no massacre de Santa Cruz divulgado pelo documentalista. “A luta continua em todas as frentes”, disse numa última mensagem trocada com Ramos-Horta.



“Max foi um jornalista corajoso que denunciou injustiças e contou histórias que o mundo precisava de ouvir”. A frase é da autoria de Xanana Gusmão, antigo líder da resistência de Timor e ex-presidente do país, e descreve o legado profissional - mas também humano - de Max Stahl, o jornalista que filmou o massacre no cemitério de Santa Cruz, em Díli, a 12 de Novembro de 1991. As imagens saíram do país, espalharam-se pelo mundo e demonstraram a violência da repressão indonésia sobre a povo e a resistência timorenses.

Nascido a 6 de Dezembro de 1954 no Reino Unido e cidadão timorense desde 2019, o jornalista e documentalista Christopher Wenner, mais conhecido como Max Stahl, começou a sua ligação a Timor em 30 de Agosto de 1991, quando, disfarçado de turista, entrou no país para filmar um documentário para uma televisão independente inglesa e entrevistou vários líderes da resistência. Questões relacionadas com o visto levaram-no a sair da ilha, para depois regressar e acabar por filmar um dos momentos mais marcantes da história timorense.

Stahl morreu no mesmo dia que Sebastião Gomes, em 1991, o jovem enterrado em Santa Cruz e cujo assassinato por elementos ligados às forças indonésias no bairro de Motael, originou um protesto a 12 de Novembro de 1991. Mais de duas mil pessoas dirigiram-se para o cemitério para prestar homenagem ao jovem mas foram recebidos a tiro por militares indonésios, que abriram fogo sobre a multidão. Mais de sete dezenas de pessoas morreram no local. Nos dias seguintes, mais de cem morreram em hospitais ou vítimas de perseguições dos indonésios. A maioria dos corpos nunca foram recuperados. Escondido entre as campas, Max captou aqueles momentos sangrentos. As imagens saíram de Timor ocupado, dois dias depois, através da holandesa Saskia Kouwenberg: em 2016, contou à Lusa ter cosido duas cuecas uma à outra para criar uma “bolsa” e esconder o documento. O objectivo era evitar as revistas das autoridades.

Anos mais tarde, o seu papel fundamental para que Timor acabasse por se tornar uma país independente e livre foram homenageados: condecorado com o Colar da Ordem da Liberdade, o mais alto galardão que pode ser dado a um cidadão pelo Estado timorense, Max Stahl viu-lhe atribuída a nacionalidade timorense.

Ao país, o jornalista deixa como legado um dos principais arquivos de imagens dos últimos anos da ocupação indonésia do país e do período imediatamente antes e depois do referendo de independência, o Centro Audiovisual Max Stahl em Timor-Leste (CAMSTL) - um projecto que foi considerado pela UNESCO como Registo da Memória do Mundo.

Max foi repórter de guerra, chegando a ser ferido nos Balcãs. O primeiro trabalho como jornalista foi durante a guerra civil de El Salvador, onde o pai era embaixador, com várias reportagens de guerra entre 1979 e 1992. Actualmente, vivia em Timor-Leste mas teve recentemente de viajar para a Austrália para receber tratamentos médicos. Morreu esta madrugada num hospital de Brisbane pelas 4h20 locais, vítima de doença prolongada. Na última mensagem trocada com José Ramos-Horta, também ele ex-Presidente de Timor, deixou uma outra mensagem de legado para os timorenses, que ajudou e que, em troca, o receberam como um deles: “a luta continua em todas as frentes”.

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