Marrocos espia rei Mohamed VI? A resposta pode estar nos irmãos Azaitar

Número de telemóvel do monarca constava da lista de contactos a vigiar - e deve lá ter sido colocado por um dos homens com mais poder de Marrocos, o chefe da polícia e dos serviços secretos. A amizade com Otman, Abu Bakr e Omar preocupa o regime de Rabat.



O número de telemóvel do rei de Marrocos, Mohamed VI, constava da lista de aparelhos nos quais se ponderava introduzir o Pegasus, software desenvolvido pela empresa israelita NSO Group utilizado para “entrar” em telemóveis de políticos, governantes, jornalistas, activistas, dissidentes políticos, directores de empresas e duas melhores próximas do jornalista saudita Jamal Khashoggi, morto no consulado do seu país em Istambul, em 2018, por agentes da Arábia Saudita. A investigação feita por um consórcio de 17 órgãos de comunicação internacionais, incluindo o jornal francês Le Monde, o britânico Guardian e o norte-americano Washington Post, baseia-se numa lista obtida pelas organizações Forbidden Stories e Amnistia Internacional, que inclui 50 mil números de telefone seleccionados pelos clientes da NSO desde 2016 para potencial vigilância - Marrocos, Arábia Saudita e México seriam os países que mais recorreriam a este serviço.

Mas quer isso dizer que o reino se preparava para espiar o próprio monarca? Fontes conhecedoras da família real de Marrocos em Paris, citadas pelo jornal digital espanhol El Confidencial, acreditam que a decisão de colocar o número de telemóvel de Mohamed VI na lista de possíveis aparelhos a serem controlados terá sido muito provavelmente tomada pelo chefe da polícia e dos serviços secretos locais, Abdellatif Hammouchi. Tudo por causa da polémica relação do rei com os irmãos Azaitar - Otman, Abu Bakr e Omar -, que tem preocupado o regime de Rabat e levou a uma ofensiva da imprensa local, que questiona cada vez mais a proximidade entre os quatro.

Os polémicos irmãos

Alemães de origem marroquina, especialistas em artes marciais e com antecedentes penais por agressões em Colónia, a cidade onde nasceram, Otman, Abu Bakr e Omar convivem assiduamente com o monarca, que este ano abdicou das férias fora do país e permanece no palácio de Fez, tendo os irmãos como visita assídua.

Os Azaitar, igualmente amigos de Cristiano Ronaldo, entraram na vida privada do monarca em Abril de 2018, quando Mohamed VI os felicitou pelas conquistas desportivas numa cerimónia no Palácio Real de Rabat. Otman conquistara o cinturão de pesos leve da Brave Combat Federation de Artes Marciais Mistas (MMA) no final de 2017 e Abu Bakr entrara para a Ultimate Fighting Championship, a maior liga mundial deste desporto. Omar, que ajuda os irmãos nos treinos, é também empresário e ainda no mês passado inaugurou, na Costa del Sol, Andaluzia, um franchising da cadeia alemã 3H’s, Burger & Chicken.

Escândalos públicos protagonizados pelos irmãos - Abu Bakr no hospital de Avicenne em Rabat e Otman no Starbucks da estação de comboios da capital, por exemplo - serviram de mote para as críticas aos Azaitar. Mas também a ostentação de luxo e riqueza foi escrutinada pela imprensa local: não só é questionada a sua origem, como também se coloca em causa a exibição de um estilo de vida milionário numa altura em que o povo marroquino enfrenta uma situação socioeconómica muito frágil provocada pela pandemia de covid-19.

“Se eles não se tivessem tornado tão tóxicos, provavelmente estaríamos apenas rir-nos destes personagens. Porém, o seu passado criminoso, o seu entourage obscuro e o seu patriotismo exagerado não nos podem deixar indiferentes”, escreveu o autor de um artigo no Hespress, o diário digital mais lido de Marrocos, para quem “a postura e os danos” dos irmãos colocam em causa “a própria credibilidade do país que dizem defender”. “São bombas-relógio que vão explodir na nossa cara, tão revoltantes são os seus atropelos [à autoridade] e o seu enriquecimento suspeito”, alerta-se no texto, onde também se avisa o monarca que é possível que “os estilhaços atinjam várias pessoas”, incluindo o próprio rei.

Para a imprensa internacional, estes textos tiveram como fontes destacados membros da segurança do estado, altos cargos civis e militares, preocupados com o “sequestro psicológico” do rei. O El Confidencial indica que o próprio Hammouchi pode ser uma das fontes do texto, tal como o mais influente dos conselheiros reais, Fouad Ali el Himma.

Quem acompanha Mohamed VI?

Os jornalistas que investigaram o caso de espionagem internacional não encontraram apenas o nome do monarca na lista - sob escuta estavam vários elementos da família real, mais ou menos próximos do regente. Um deles é o primo-irmão do rei e membro da família real, Moulay Hicham, mais a mulher, duas filhas e o irmão mais novo, Moulay Ismail. Segundo dados revelados pela rádio pública francesa Radio France e pelo diário alemão Süddeutsche Zeitung, até o feitor de uma das propriedades de Hicham foi escutado.

Lalla Salma, mulher de Mohamed VI até Março de 2018 e mãe de dois filhos, consta igualmente da lista, tal como Mohamed Mediouri, o veterano antigo chefe dos guarda-costas de Hassan II, de 83 anos, que casou com Lalla Latifa, de 75, mãe de Mohamed VI, das suas três irmãs e do seu irmão. A relação entre o rei o padrasto nunca foi pacífica, tendo o monarca recusado assistir ao casamento em Paris.

O general Mohammed Haramou, comandante da gendarmeria real marroquina, também estava incluído na referida lista, naquele que pode ser um sinal de rivalidade entre forças de segurança: os elementos ligados à realeza e os relacionados com as polícias de estado.

Hammouchi é o chefe policial com mais poder da história de Marrocos, liderando ao mesmo tempo a Segurança Nacional (polícia convencional) e a Direcção Geral de Supervisão do Território (semelhante a uma polícia política, como explica a imprensa internacional). Estará o homem que é visto como um dos pilares do regime marroquino em risco de ser destituído?

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