Mais um dia mau na América

Um atirador entrou numa escola primária de Uvalde, uma cidade rural no Texas, e disparou à vontade contra os alunos de uma turma. Morreram 19 crianças e duas professoras. O massacre dos inocentes está a chocar os Estados Unidos e relança o debate sobre o uso e porte de armas. A questão é tóxica em ano eleitoral, sendo improvável que algo mude.



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Desta vez foi a escola primária de uma terriola na paisagem texana, numa única sala de aulas. As vítimas foram encontradas no mesmo local onde o atirador de 18 anos se barricou e foi abatido. O terror durou uma hora, como um tornado fora de controlo. Quando acabou o tiroteio na escolinha de Robb, em Uvalde, Texas, havia 19 crianças mortas, algumas com apenas seis anos, e ainda duas professoras. Muitos feridos, incluindo dois polícias. As férias de Verão deviam ter começado ontem, faltava viver mais dois dias de aulas.

O país reagiu em choque. O massacre não foi um incidente racial: os mortos eram hispânicos, como, aliás, o atirador. As autoridades texanas explicaram os pormenores e foram divulgadas as identidades de algumas vítimas, crianças com ar inocente e sorrisos sonhadores. As reportagens deram conta do pânico dos pais, da dor de uma comunidade rural. Uvalde tem seis mil habitantes, fica a cem quilómetros de San António, é um lugar sem nada de especial.

Os motivos do crime não são claros. Surgiram umas histórias sobre as perturbações adolescentes do atacante, mas a explicação é frágil. Sabe-se que comprou a arma de assalto um dia depois de fazer 18 anos. Avisou numa rede social, depois atirou sobre a avó, seguiu numa carrinha, despistou-se, foi para a escola primária (era perto de casa), lutou com o guarda armado, mas é incerto o que aconteceu, barricou-se numa sala de aulas, disparou à vontade, alvejou os polícias que se aproximaram. Uma hora depois, um grupo especial conseguiu entrar na sala e abateu-o em poucos segundos.

Seguiu-se a terrível aflição das famílias, a macabra tarefa da identificação das vítimas, a crise nacional, as declarações. O Presidente Joe Biden reagiu, indignado: “Porquê? Como é que continuamos a assistir a estas carnificinas? Como é que deixamos que isto continue a acontecer?”, perguntou o líder americano. “Durante duas décadas, os fabricantes de armas defenderam agressivamente a venda de armas de assalto, que lhes dão a maior fatia de lucros. Por amor de Deus, quando é que temos a coragem de enfrentar a indústria?”

A emoção foi genuína, mas este é um terreno político complicado. Eficaz nas semanas de choque, perigoso em ano de eleições. Após cada novo massacre, pouco ou nada muda. O lóbi das armas é poderoso e ataca de maneira feroz todos os políticos que defendem reformas na matéria.

Um terço dos americanos têm armas em casa. O porte de armas é um direito constitucional, mas os autores da Constituição não estavam a pensar no uso de armas semi-automáticas, ainda hoje legais na maior parte dos Estados.

A discussão não favorece os candidatos que se declaram a favor de restrições. Após o massacre de Sandy Hook, em 2012, aproveitando a onda de emoção, o então Presidente Barack Obama encarregou o seu vice-presidente, Joe Biden, de elaborar propostas para limitar o direito a usar armas de repetição. Três meses depois, a lista de medidas foi trucidada no Senado. Sandy Hook, em Newtown, foi uma tragédia semelhante à de Uvalde. Desta vez pode ser diferente, mas é improvável.

Embora os democratas em teoria controlem o Senado (a vice-presidente, Kamala Harris, tem voto de desempate), uma lei sobre armas teria oposição republicana e votos insuficientes para evitar manobras dilatórias (o chamado filibuster).

Os massacres a tiro são demasiado comuns nos EUA, mas particularmente selvagens no Texas, um dos estados americanos mais liberais no uso e porte de armas. Ainda ninguém esqueceu o atirador furtivo que em 1966 subiu à torre da universidade, em Austin, e dali disparou durante hora e meia, matando 15 pessoas e ferindo 31. Em 2019, um atirador alvejou hispânicos num supermercado e ceifou 23 vidas. No ano anterior ocorreu um morticínio numa igreja (26 mortos).

Segundo o FBI, a epidemia está a crescer nos EUA. Em 2001 houve 61 incidentes de assassínio em massa, com 103 mortos e 130 feridos. No pior ano, 2017, morreram 143 pessoas. A violência envolve equipamento sofisticado: os atiradores têm coletes de protecção, usam várias armas e vencem facilmente os guardas armados. Segundo o FBI, entre 1966 e 2019, 77% destes criminosos adquiriram as armas de forma legal.

Os democratas estão em dificuldades nas eleições de Novembro e os cientistas políticos falam em cenários em que o partido de Biden pode perder dezenas de lugares na Câmara dos Representantes.

Os senadores e congressistas que vão a votos querem tudo menos o debate sobre o controlo de armas, pois já bastam a crise migratória ou o aumento dos preços. Defender restrições é a receita segura para perder votos. No Texas há quem fale em elevar a idade de permissão de uso de armas para 21 anos. Seria uma pequena vitória, o suficiente para que este massacre dos inocentes não fique na História apenas como mais um dia mau na América.

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