Liderança em morte lenta

Votação cerrada e vitória amarga: Boris Johnson sobreviveu a uma rebelião do seu partido por causa das festas em tempo de covid, mas 40% dos deputados conservadores querem a sua saída. O destino político do primeiro-ministro está traçado e, até à queda, será uma mera questão de tempo. O seu governo viverá de facada em facada até ao colapso final. Bastará um pequeno deslize.



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O primeiro-ministro britânico Boris Johnson sobreviveu a uma moção de desconfiança do seu próprio partido, mas a vitória teve sabor amargo. A rebelião surgiu após o escândalo das 16 festas de gabinetes que coincidiram com os rigorosos confinamentos decretados pelo Governo durante a pandemia de covid.

A investigação obrigou o primeiro-ministro a pagar uma multa mas, no relatório oficial, Boris Johnson saiu muito mal na fotografia. Para a opinião pública, tratou-se de outro exemplo de políticos elitistas, cujas normas se aplicaram a toda a população, menos a eles próprios.

Em 2019, o primeiro-ministro obteve uma esmagadora maioria absoluta e parecia capaz de se manter uma década no poder, mas desperdiçou esse capital político. O escândalo na origem da rebelião não explica toda a animosidade, ligada a divisões mais profundas no Partido Conservador sobre o estilo de liderança e a condução geral do país.

As sondagens deixam antever uma grande derrota eleitoral. Desde o escândalo que os trabalhistas estão em vantagem, já em sete pontos percentuais. Um estudo de Maio sugeria que 59% dos ingleses defendem a demissão de Boris Johnson e que três em cada quatro eleitores pensam que o primeiro-ministro mentiu sobre as festas de Downing Street, que não foram simples reuniões de trabalho nem se realizaram apenas nos jardins da residência oficial.

O partido possui um mecanismo para afastar líderes embaraçosos, o comité 1922, que vai juntando cartas de deputados a pedir a demissão do primeiro-ministro - neste caso, 15% da bancada conservadora, ou 54 cartas. A passagem do limite gerou a votação de segunda-feira. Para Johnson ser removido da liderança seria preciso somar em votação secreta 180 deputados a favor da demissão, ou metade dos eleitos.

Era esperada uma rebelião significativa, a rondar 100 votos, mas o resultado foi de 148, contra 211 favoráveis à continuidade. A única vantagem do primeiro-ministro é não ter um adversário interno, mas qualquer simples votação parlamentar pode agora tornar-se um desafio.

Margaret Thatcher foi derrubada desta forma e Theresa May sofreu uma agonia de seis meses após sobreviver a uma votação semelhante com números que pareciam simpáticos. Johnson foi o adversário que, na altura, manobrou nos bastidores.

A sorte do primeiro-ministro parece esgotada. Durante um ano estará resguardado do comité 1922, mas qualquer nova trapalhada pode ser fatal. Há duas sequências em preparação: ainda este mês, eleições intercalares em dois círculos cujos eleitos conservadores foram afastados por escândalos. É provável que o partido de Johnson seja trucidado em ambos os casos, pois trabalhistas e liberais fizeram um pacto de não agressão. A ameaça séria é a investigação sobre se o primeiro-ministro mentiu no Parlamento, algo que implica demissão.

Para Boris Johnson começa o tempo das facadas e da erosão de autoridade. Está a formar-se uma longa fila de potenciais sucessores: Liz Truss, responsável pelos Negócios Estrangeiros, é porventura a favorita, mas há o secretário da Educação, Nadhim Zahawi, o antigo rival Jeremy Hunt, a estrela do futuro Tom Tugendhat. Não há falta de talentos no Partido Conservador britânico.

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