Itália inclinada para a direita

Eleições deste domingo põem termo a mais uma tentativa de gerir a Itália com governos de tecnocratas. E marcam o ocaso do Movimento 5 Estrelas e a ascensão de aliança de direita em que Berlusconi é agora o parceiro menor e o Irmãos de Itália de Giorgia Meloni suplantou a Liga de Matteo Salvini.



As sondagens que acompanham os últimos dias da campanha eleitoral para as eleições italianas - que se realizam este domingo - dão conta de duas grandes linhas de força: por um lado, a repreensão que o eleitorado decidiu promover sobre os partidos que de forma mais clara foram os causadores da queda do primeiro-ministro Mario Draghi e da consequente crise política, mais uma; e, por outro o facto de essa repreensão ir resultar numa mais que provável vitória do bloco que concentra os partidos de extrema-direita e a direita conservadora.

A direita

Mas se estas linhas de força são claras, menos evidente é o facto de o partido que se prepara para vencer, o Irmãos de Itália, ter assumido, nas eleições anteriores (em 2018), um papel meramente residual. Em quatro anos, o Irmãos de Itália (de Giorgia Meloni) trocou de posição com o ainda mais extremista Liga (de Matteo Salvini), que surge agora numa posição inesperadamente subalterna, apesar de o discurso do seu líder parecer a de alguém que se prepara para chefiar o governo italiano a partir da próxima segunda-feira.

As sondagens indicam que o Irmãos de Itália terá no domingo uma votação acima dos 25% quando, nas eleições de 2018, o partido de Giorgia Meloni conseguiu apenas 4,4%, o que o colocou em terceiro lugar no interior da direita. O partido ultrapassa não só a Força Itália, de Silvio Berlusconi (que teve 14% em 2018 e tem agora 7% de intenções de voto), assim como a Liga (17,4% em 2018 e 13% de intenções de voto). Para os analistas italianos, a viagem de Salvini à Ucrânia, de onde foi mandado embora por Wojciech Bakun, presidente da Câmara da cidade de Przemysl, foi um ponto a seu grande desfavor. Mas não só - sucedeu em paralelo que com o discurso anteriormente marcadamente anti-europeu de Giorgia Meloni que perdeu nos últimos tempos os seus contornos mais radicais, o que acabou por fazer a diferença para com Matteo Salvini. Não é admirar: a Itália não pode dar-se ao luxo de colocar em causa a sua ‘bazuca’, que ascende a quase 200 mil milhões de euros (é a maior dos 27).

Ou seja, pelo menos em teoria, votar no Irmãos de Itália em 2022 não é o mesmo que tê-lo feito em 2018 - ou, dito de outra forma, os italianos estão convencidos que no que tem directamente a ver com a gestão da bazuca, Meloni está alinhada com Mario Draghi - com quem, aliás, tem falado sobre o assunto. Já quanto à questão sobre a forma como o volte-face de Giorgia Meloni em relação à Europa será entrosado com o persistente anti-europeismo de Matteo Salvini (que não passou por nenhuma ‘cura’ semelhante), logo se verá.

Para todos os efeitos, a Comissão Europeia, alarmada com o andamento das sondagens, parece ter conseguido uma almofada de esperança face à ‘crise Mario Draghi’, que rapidamente se transformara numa enorme dor de cabeça. No meio disto, e a acreditar nos jornais italianos, persiste a percepção consolidada de que parte do imenso pacote de dinheiro da bazuca será pura e simplesmente dilapidado em projectos sem consequência - como, aliás, também sucedeu em Portugal. Ou, como diriam os ‘países frugais’, são os mediterrânicos no seu melhor.

À esquerda

À esquerda - ou ao centro, conforme as perspectivas - o momento é de limpar as lágrimas de mais uma oportunidade perdida e esperar que 2026 (ou as próximas eleições antecipadas, que com certeza chegarão bem antes). O Partido Democrata é, evidentemente, o que menos perde: tentou por todos os meios à sua disposição ‘segurar’ o governo Mario Draghi, mesmo quando já era evidente para todos - mesmo para o próprio ex-governador do Banco Central Europeu - que mais uma aventura italiana no campo dos governos tecnocratas de iniciativa presidencial estava ferida de morte. Neste contexto, o partido de Letta segue na segunda posição e até sobe nas sondagens: tem 22% de intenções de votos, que comparam com os 18,8% obtidos em 2018.

Leia o artigo na íntegra na edição do NOVO que está, este sábado, dia 24 de Setembro, nas bancas.

$!Itália inclinada para a direita
Ler mais