Giorgia Meloni: quem é a nova “Senhora Itália”?

A líder do próximo governo italiano é a mais recente estrela da extrema-direita de um país que já deu à Europa dezenas de personalidades daquele quadrante político. A Comissão Europeia está atenta. E com medo.



Após a ascensão meteórica do seu partido, Giorgia Meloni será com certeza a primeira líder de extrema-direita a gerir o país desde a Segunda Guerra Mundial. No Inverno de 2019, a Itália balançava ao som de uma batida electrónica impulsionada por um refrão que dizia “Chamo-me Giorgia. Sou mulher, sou mãe, sou italiana, sou cristã”, retirado de um discurso proferido num momento pouco inspirado. Era a gozar mas, três anos depois, é essa mesma personagem que “deu a volta” à música, a uma maioria interessante de italianos e à esquerda inteira.

Conhecida pela sua determinação, as suas atitudes intransigentes calaram fundo numa “clientela” que assistiu ao romance político do costume: sete governos em 11 anos. Essa intransigência levou-a a, em desacerto com o resto do bloco de direita, recusar apoiar a saída do primeiro-ministro Mario Draghi, o que, dizem os analistas, lhe rendeu preciosa popularidade e solidificou o seu estatuto de outsider – isto, evidentemente, sem abandonar uma linha dura em relação à imigração ou à preservação da família cristã.

Nascida em 1977, Meloni tinha 15 anos quando bateu à porta da ala juvenil do Movimento Social Italiano (MSI), partido fundado após a Segunda Guerra Mundial pelos ex-integrantes saudosos da ditadura fascista de Benito Mussolini. Não tinha nada a ver com os seus novos correligionários: foi barman (dir-se-á barwoman?) no clube Piper, tomou conta de crianças e exerceu outras funções de pouca notoriedade. Na frente política, a jovem destacou-se na coordenação das organizações estudantis do MSI, num quadro em que dominava a cultura política de esquerda.

Em 1995, o partido neofascista transformou-se na Aliança Nacional (AN), o que deixava claro que pretendia separar-se das cordas que o amarravam ao passado pouco honroso de Mussolini, e Meloni tornou-se presidente do movimento juvenil da nova formação. Tinha 29 anos quando entrou no Parlamento e, em pouco tempo, o na altura “senhor” de Itália, Silvio Berlusconi, apercebeu-se da sua determinação: em 2008, uma coligação entre o Força Itália e a AN colocou Meloni à frente do Ministério da Juventude.

Em 2012, e dando voz a essa mesma determinação, patrocinou o aparecimento do Irmãos de Itália – que acantonou ao lado da extrema-direita, de onde nunca saiu, com todos os tiques que eram de esperar: nacionalismo, proteccionismo, eurocepticismo, conservadorismo social (relativo à imigração, à sexualidade alternativa, ao islamismo) e por aí adiante. Os analistas passaram vários anos a tentarem perceber o que faria o eleitorado extremista preferir Matteo Salvini a Giorgia Meloni, num quadro em que o discurso era basicamente o mesmo e a explicação tendia a ser uma: era uma mulher e, por isso, segundo o seu próprio “menu”, um homem era sempre melhor.

Até agora, a moderação do discurso antieuropeu surpreendeu os seus críticos, mas principalmente os seus apoiantes – que terão agora os próximos meses para perceberem se a ideia era apenas enganar temporariamente os “papalvos” de Bruxelas e de Estrasburgo ou se, de facto, há uma alteração (tão radical) das suas prioridades. Desgraçadamente para os que apoiam a União e os seus princípios fundacionais, haverá em breve ocasião para se tirarem todas as conclusões. Ou talvez nem sequer seja preciso: o seu partido recusou-se a apoiar o relatório do Parlamento da União Europeia que condenava o governo húngaro do seu dilecto amigo Viktor Orbán pela imposição de restrições às liberdades civis. Portanto, talvez a razão esteja do lado dos críticos, que afirmam não acreditar que Meloni mudou assim tanto.

Aos 45 anos, convencida de que o seu passado já é suficientemente interessante para constar de uma autobiografia (publicada em 2021), Giorgia Meloni parece ser, para todos os efeitos, alguém que tem uma rigorosa capacidade de gerir exercícios de equilíbrio com uma complexa simplicidade, mas também com uma eficácia política necessária e suficiente para a ser a próxima “Senhora Itália”.

Ler mais