Geopolítica verde

Durante as primeiras duas semanas da guerra russo-ucraniana, o Brent aumentou mais de 25% e, em finais de Março, o preço do gás na Europa registava uma subida de aproximadamente 580%.



Se dúvida subsistisse, a guerra russo-ucraniana confirma que a energia constitui um dos principais pilares da geopolítica contemporânea. Razões de natureza ambiental e a necessidade de reduzir vulnerabilidades externas levaram a União Europeia a elaborar um plano de transição para o uso generalizado das energias alternativas. Independentemente do mérito do rumo traçado, convém reconhecer que o processo será moroso e marcado por novos conflitos geopolíticos, pois as energias alternativas geram dependências e vulnerabilidades que precisam de ser acauteladas.

O mundo do petróleo

A moderna economia do petróleo definiu-se em dois momentos históricos. O primeiro prende-se com a decisão de Winston Churchill, tomada em 1914, de converter a marinha britânica do carvão para o petróleo. Em resultado disso, Londres viu-se obrigada a buscar uma fonte de fornecimento segura, catapultando o Irão e o Médio Oriente para o palco central da geopolítica mundial. Essa centralidade acentuou-se com o segundo momento histórico, ocorrido em 1945, quando Franklin Roosevelt e o Rei Abdul Aziz ibn Saud estabelecem um acordo em que os sauditas garantem o fornecimento de petróleo em troca de uma garantia de segurança americana.

Desencadeado pela Guerra do Yom Kippur, o choque petrolífero de 1973 obriga a um repensar da economia da energia estabelecida nas décadas anteriores. A partir dos anos 1980, a estabilidade de fornecimentos fomenta a globalização e a integração de cadeias de fornecimento que permitem o desenvolvimento de uma economia mundial aberta e interdependente. O desmoronamento da União Soviética facilita o acesso aos vastos recursos energéticos da Federação Russa. Incentiva-se a cooperação energética com Moscovo porque os países ocidentais, e a Alemanha em particular, acreditam que a interdependência comercial con tribuía para a democratização da Rússia e - dizia-se - gerava a paz porque tornava os custos da guerra demasiado elevados.

Em concomitância, a OPEP perde gradualmente influência a partir de 1979, pois a ameaça consubstanciada pelo xiismo revolucionário iraniano obriga a Arábia Saudita e os países do Golfo Pérsico a preservarem a garantia de segurança proporcionada pelos americanos. Também os ganhos de conservação efectuados nas economias ocidentais e, mais recentemente, o aumento de fornecimento possibilitado pelo fracking nos Estados Unidos diminuíram a centralidade geopolítica do Médio Oriente. Aliás, para a Europa, os fornecimentos russos serviam justamente para reduzir a dependência relativamente ao Golfo Pérsico.

A Europa move-se

Durante as primeiras duas semanas da guerra russo-ucraniana, o Brent aumentou mais de 25% e, em finais de Março, o preço do gás na Europa registava uma subida de aproximadamente 580% em comparação com o ano anterior. Neste quadro, durante a histórica cimeira realizada nos dias 10 e 11 de Março deste ano, a UE decidiu por uma eliminação gradual das importações de energia russa. A decisão produz três consequências estruturais. Primeira: a Rússia terá de redireccionar as suas exportações para a Ásia de modo a compensar a perda do mercado europeu. Será uma reorientação morosa porque Moscovo terá de criar infra-estruturas - por exemplo, um segundo gasoduto para a China - e aumentar substancialmente a extracção no Sacalina 2 e no Mar de Okhotsk. Acrescenta-se que o abandono da Rússia pela Shell e outras majors ocidentais reduz o capital e o know-how indispensáveis para o desenvolvimento das reservas russas. A permanência da Mitsui, da Mitsubishi e de outras companhias pode atenuar algumas das dificuldades, mas também pode provocar uma nova clivagem entre a Europa e a Ásia quanto às parcerias com as firmas russas.

A segunda consequência prende-se com o aumento da procura na Ásia. A taxa de consumo na China aumentou drasticamente desde 2016 e o país já ultrapassou o Japão como maior importador de gás liquefeito. Dado que os Estados europeus pretendem substituir o gás russo por GNL oriundo dos Estados Unidos e do Catar, a concorrência entre a Europa e a Ásia intensificar-se-á e, mais preocupante, poderá extravasar para outras matérias. De qualquer forma, atendendo ao aumento da procura global, algum tempo passará até que o mercado estabeleça um equilíbrio estável entre a procura e a oferta.

A terceira consequência tem origem nos Estados Unidos. Impulsionado pelos financiamentos baratos dos anos mais recentes, o sector do xisto quebrou com a pandemia. Investidores exigem agora maior disciplina da parte de um sector fortemente endividado. Mais preocupante, o gigantesco campo Bakken, no Dakota do Norte, parece estar em declínio. Sem margem para, a curto prazo, aumentar a capacidade doméstica, Joe Biden vê-se forçado a olhar para a Arábia Saudita para estabilizar os preços. Para reduzir a dependência em relação à Rússia, aumenta-se a centralidade da Arábia Saudita como garante último da estabilidade de preços.

Leia o artigo na íntegra na edição do NOVO que está esta sexta-feira, dia 22 de Julho, nas bancas.

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