Fim da era do consenso no Chile

Na segunda volta das presidenciais, que decorrem a 19 de Dezembro, corre um candidato de extrema-direita, José Antonio Kast, contra um jovem político de extrema-esquerda, Gabriel Boric. O centro, que dominou a política de consensos do país após a ditadura de Augusto Pinochet, foi derrotado nas urnas. Esta é a mais recente consequência dos dois anos de movimento social que abalaram o país.



Dois candidatos que não podiam ser mais diferentes um do outro venceram a primeira volta das eleições presidenciais do Chile, quase empatados em votos, o que permite prever uma votação renhida no segundo turno, a 19 de Dezembro. A escolha é binária, mas o direitista José Antonio Kast, advogado de 55 anos descrito como ultra, parte com ligeira vantagem, 27,9% dos votos, e pode ter dificuldade em reunir o apoio integral do seu campo político. O candidato da esquerda, Gabriel Boric, de 35 anos, tem dois pontos percentuais de desvantagem, mas as eleições parlamentares e senatoriais que se realizaram em simultâneo sugerem que pode existir uma pequena maioria do seu campo político.

As eleições chilenas mostram uma divisão quase perfeita entre duas visões opostas de sociedade que, provavelmente, veremos nos próximos anos em outras eleições na América Latina.

De um lado, está a lei e a ordem; do outro, um programa de desmantelamento do neoliberalismo. No domingo terminou no Chile um ciclo de 30 anos iniciado em 1989. O centro tradicional que dominou o país desde a ditadura de Augusto Pinochet implodiu de forma quase completa.

Os candidatos da Concertação de centro-esquerda e das diferentes alianças de centro-direita somaram sempre mais de 70% dos votos nas primeiras voltas das presidenciais; na segunda votação havia, normalmente, um confronto entre estes dois grupos ou coligações. Desta vez, foi um colapso: o voto de protesto dominou e os descendentes dos partidos do meio não chegaram a 35%.

A retórica dos dois vencedores mostra o fosso que os separa. No discurso de lançamento da segunda volta, Kast disse que os chilenos não querem “o caminho que leva à Venezuela ou a Cuba” e fez um duro ataque ao seu adversário: “Boric e o Partido Comunista querem indultar os vândalos. Querem a instabilidade, fechar fronteiras ao comércio, avançar pela senda do ódio.” Em resumo, tentará explorar o apoio do Partido Comunista (que integra a coligação de esquerda) e a associação do dirigente rival ao movimento social que tem abalado o Chile nos últimos dois anos, com forte adesão nos meios populares e grande receio na classe média.

Na noite da vitória, Boric tentou moderar a sua imagem e procurou defender a convenção que está a redigir a nova Constituição, um órgão dominado pela esquerda. “Ou avançamos para um Chile inclusivo, generoso, mais preocupado com os seus, ou seguimos a lógica da recusa, da exclusão e dos privilégios contra a qual o Chile se levantou a 25 de Outubro de 2019”, disse Boric, numa alusão ao movimento social de que foi um dos protagonistas.

A vitória final vai depender da distribuição de votos dos campos derrotados. Em terceiro e quarto lugar ficaram dois candidatos do liberalismo e do centro-direita: Franco Parisi (que fez a campanha a partir dos Estados Unidos) e Sebastián Sichel, da coligação Chile Vamos, que reúne os partidos que apoiam o impopular presidente Sebastián Piñera. Se todos estes votos fossem para Kast, a vitória estava garantida, mas muitos eleitores deverão hesitar, por considerarem extremistas as posições do candidato da direita.

Boric pode atrair os eleitores da coligação de centro-esquerda Novo Pacto Social, cuja candidata, Yasna Provoste, se apressou a declarar o apoio ao antigo dirigente estudantil. No total, os três candidatos derrotados no campo da esquerda somaram pouco mais de 20%. Considerando as votações para senadores e deputados, verifica-se que a direita tem um bom resultado na câmara alta e que a esquerda teve um excelente resultado na câmara baixa. A coligação de partidos que apoia Boric, Apruebo Dignidad, elegeu 37 deputados (em 155), enquanto o Partido Republicano, que apoia Kast, só elegeu 14.

Movimento de protesto

O sismo eleitoral estava anunciado há dois anos. Na realidade, a mudança no Chile começou em Outubro de 2019, quando estalaram protestos devido ao aumento das tarifas de transportes públicos na capital, Santiago. As primeiras manifestações envolveram trabalhadores descontentes e alargaram-se a estudantes, transformando-se depressa num vasto movimento de contestação social que se estendeu a outros problemas, das propinas às pensões e aos preços dos medicamentos.

As manifestações tornaram-se violentas e houve dezenas de mortos e milhares de feridos. Nos meses seguintes registaram-se com regularidade novas irrupções de violência ocasional, mesmo depois de começar a pandemia de covid-19, que abalou ainda mais a sociedade chilena. Houve um pouco de tudo: repressão policial, ataques a esquadras, fogo posto em igrejas, confrontos nas ruas, centenas de feridos e torturados. As respostas institucionais foram insuficientes e a situação social continuou a degradar-se.

Em Outubro de 2020 foi realizado um referendo em que o povo chileno decidiu por larga maioria criar uma convenção eleita para redigir a nova Constituição. Já em Maio deste ano houve, em simultâneo, eleições municipais e para a assembleia constituinte. Na primeira votação, os partidos tradicionais tiveram um resultado aceitável mas, na segunda, houve um pesado castigo: as elites políticas não conseguiram metade dos eleitos e a assembleia (que tem nove meses para redigir a nova Constituição) está cheia de independentes, de minorias e elementos da extrema-esquerda. A esquerda domina dois terços da convenção.

Já com a Constituinte em funções, realizaram-se as primárias das diferentes alianças, mas os candidatos escolhidos no centro-direita e centro-esquerda nunca convenceram o eleitorado: Sebastián Sichel (independente da coligação Chile Podemos Más) e Yasna Provoste (senadora, escolhida para competir em nome da coligação Nuevo Pacto Social) somaram cerca de 23%. A polarização do sistema político implica papéis secundários para estes partidos, habituados a dominar o poder.

Resistência

O candidato da direita radical era, até recentemente, um político de segunda linha que conseguiu apenas 8% na primeira volta das presidenciais de 2017, um modesto quarto lugar. Desta vez, José Antonio Kast atraiu o voto de uma classe média assustada com a violência esquerdista e com a ameaça ao modelo económico que muitos chilenos consideram ser um sucesso no contexto da América Latina. O candidato da direita quer travar a imigração, lutar contra o crime, apoiar os militares, acabar com o clima de protestos e defender a família tradicional.

Gabriel Boric representa uma nova geração de políticos, mas também uma linha ideológica que, em eleições anteriores, nunca foi além de meia dúzia de pontos percentuais. Boric (deputado, antigo líder estudantil) promete acabar com o modelo económico neoliberal, subindo impostos e combatendo as desigualdades. Qualquer que seja o vencedor no dia 19, terá imensas resistências no Senado e na Assembleia.

Numa eleição cerrada pode haver outras questões decisivas, por exemplo, o conflito de baixa intensidade com populações indígenas na província da Araucânia, a sul de Santiago. Em causa estão os direitos do povo mapuche, que resistiu à colonização espanhola e foi submetido pela força no século XIX. Estes indígenas preservaram parte da cultura ancestral e foram vítimas de perseguições e racismo. Nos últimos meses houve um recrudescimento de incidentes com indígenas na Araucânia, com agricultores não mapuche vítimas de fogo posto, além de violentos confrontos entre milícias armadas e elementos da polícia.

Para a maioria da classe política chilena, a rebelião mapuche é sobre direitos de propriedade e exige diálogo político, mas José Antonio Kast cavalgou este assunto de outra forma. O candidato começou a sua campanha em Temuco, capital da Araucânia, e teve ali um bom resultado. O candidato da direita acusou os adversários de complacência com o que definiu como “terroristas”.

Segundo esta narrativa, os defensores dos direitos dos mapuches são, na realidade, narcotraficantes que atacam cidadãos indefesos e tentam criar uma zona sem lei, perante a ineficácia das autoridades (Presidente Sebastián Piñera e centro-direita tradicional), tendo apoio directo da esquerda comunista. A direita joga com a suposta fraqueza do Estado e procura associar Boric à desordem.

Outro tema em que Kast pode ter vantagem é a economia. A conjuntura está a melhorar depressa. O Chile é o maior produtor mundial de cobre, metal crucial para a transição energética. Esta matéria-prima representa metade das exportações do país, que é também o segundo maior produtor mundial de lítio, elemento fundamental para a produção de baterias. Em relação ao cobre, os dois candidatos têm ideias diferentes: Kast quer privatizar parcialmente a companhia estatal que domina o sector, Boric vai reduzir as privatizações que já existem e reforçar o colosso estatal, a Codelco.

A valorização do cobre nos mercados internacionais ajuda a explicar a rapidez com que a economia recuperou da crise, a ritmo muito superior ao dos vizinhos sul-americanos. Antes da pandemia, a economia chilena estava a abrandar e, em 2020, o PIB caiu 5,7%. A vacinação, o recomeço das exportações e os estímulos do Governo permitiram uma recuperação nos últimos dois trimestres, a ponto de se esperar um crescimento de 11% este ano.

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