Espionagem infectou a política espanhola

A chefe dos serviços secretos foi demitida, mas não se esclareceu se a causa esteve na falha de segurança em 2021 ou na vigilância a líderes catalães em 2019. O governo das esquerdas de Pedro Sánchez está à beira do colapso. O software Pegasus introduziu a desconfiança e já ninguém confia no chefe do Governo.



Pedro Sánchez pareceu muitas vezes um equilibrista em risco iminente de queda, mas conseguiu sempre evitar o colapso do seu governo. Desta vez, a coligação no poder nunca viveu tantas dificuldades em simultâneo e o chefe do executivo espanhol pode ter esgotado a sorte que lhe permitiu dirigir o país em condições precárias.

O escândalo que está a abalar a Espanha começou com uma notícia publicada no estrangeiro. Segundo o The New Yorker, líderes independentistas catalães teriam sido espiados pelos serviços secretos espanhóis (Centro Nacional de Informações, CNI) com utilização de um software israelita, Pegasus, que a empresa produtora diz só ter vendido a governos, para a luta contra a criminalidade e o terrorismo (o custo é elevadíssimo).

Em vez de ignorar a acusação, o governo espanhol disse que não “tinha nada a esconder”, garantiu a transparência dos procedimentos e que as escutas tinham sido legais. Foi lançado o rigoroso inquérito da praxe, mas as explicações abriram um problema com os independentistas, de quem o Governo depende para a sua sobrevivência. Em três semanas, a coligação começou a desmoronar-se.

O problema profundo está na fragmentação do sistema político espanhol a partir de 2015 e nos sucessivos empates eleitorais que permitiram grande influência dos partidos independentistas. Os socialistas do PSOE têm uma coligação com a Unidas Podemos (UP), mas dependem do apoio parlamentar da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC).

Investigar os espiões deveria tranquilizar a ERC, mas o plano complicou-se quando se soube que o próprio Sánchez tinha traços do Pegasus no seu telefone. As falhas de segurança desencadearam um conflito no interior do Governo e estão a provocar um clima de paranóia.

A primeira vítima foi a directora dos serviços secretos, Paz Esteban, demitida na terça-feira. O escândalo Pegasus envolve dezenas de políticos espanhóis. O facto de o chefe do Governo e ministros terem sido espiados (houve até perda de dados nos seus telefones) implica que a espionagem foi feita por um governo estrangeiro. Marrocos (que adquiriu o software) é o principal suspeito, já que a vigilância terá ocorrido no ano passado, durante a crise migratória e o conflito diplomático com Rabat. Circulam rumores de que o Pegasus já foi utilizado contra outros líderes europeus, mas esta foi a primeira vez que um país reconheceu que o seu líder foi vítima de falhas de segurança.

Os dois episódios são separados: o que envolve Marrocos é de 2021; o dos catalães remonta a 2019. Só o software é o mesmo. Segundo as explicações da directora do CNI entretanto demitida, a vigilância foi legal, efectuada com ordens judiciais a 18 líderes catalães ligados ao movimento Tsunami Democrátic. O protesto era um evidente perigo para a segurança do Estado. O problema destas explicações é que ninguém parece acreditar que o CNI actuasse sem o conhecimento de alguém do governo de Sánchez.

Um dos investigados catalães foi Pere Aragonés, o actual presidente da Generalitat, mas o CNI também espiou Quim Torra, então líder do governo autonómico, e Carles Puigdemont, o anterior presidente, agora no exílio. ERC e UP exigem que sejam assumidas responsabilidades políticas, ou seja, querem demissões. Sobretudo Aragonés, que tem influência e está descontente com as explicações fornecidas pelo CNI.

A saída de Paz Esteban não chega e o principal alvo dos pedidos de demissão é a ministra da Defesa, Margarita Robles, que escolheu a nova directora do CNI. Robles deitou sal na ferida, ao justificar os procedimentos que foram seguidos pelos espiões espanhóis contra o Tsunami: “O que pode fazer um Estado quando alguém viola a Constituição, declara a independência, realiza desordens públicas e tem relações com políticos de um país que está a invadir a Ucrânia?”, perguntou a ministra, numa intervenção que criticava todas as actividades do movimento, incluindo ligações com a Rússia de Vladimir Putin.

Em poucas palavras, ficava claro que a ministra não tem qualquer respeito pelos parceiros dos quais depende. Robles ganhou o apoio dos conservadores e entrou em conflito com outro ministro de peso, Félix Bolaños.

Catalunha e Andaluzia

Se quiser sobreviver nas próximas semanas, o chefe do Governo terá primeiro de apaziguar os catalães, sobretudo Aragonés e a ERC. Em princípio, as eleições legislativas nacionais serão no final de 2023, mas se os republicanos saírem do barco, o Governo não tem viabilidade. O PSOE surge nas sondagens com valores medíocres. Se houvesse eleições antecipadas, a coligação de esquerda seria derrotada. Também há grande desconfiança entre PSOE e UP no interior do Executivo.

Pedro Sánchez está sempre a bater na tecla da “estabilidade”, mas caminha sobre gelo fino. A oposição reorganizou-se e o PP tem novo líder, Alberto Nuñez Feijóo, que começa a pôr ordem numa casa que viveu meses atribulados, mas que tem cada vez mais hipóteses de vitória nas urnas. A economia também não favorece o Governo: vem aí um surto de inflação e abrandamento da economia, algo que será difícil de gerir.

Se o Governo sobreviver nas próximas semanas, pode ainda sofrer o golpe de misericórdia nas eleições autonómicas da Andaluzia, a 19 de Junho. O PSOE já governou naquelas paragens com grande supremacia, mas agora está em dificuldades. Nas anteriores eleições, em 2018, os socialistas ficaram em primeiro, mas não conseguiram formar executivo. Os partidos de centro-direita juntaram-se para desalojar o PSOE e a estratégia compensou.

O Ciudadanos caiu a pique e arrisca-se a não eleger deputados. Os populares absorveram parte desse eleitorado e tornaram-se o maior partido andaluz. Não é descabido pensar em maioria absoluta.

As sondagens do início de Maio indicavam que o PP segue em frente, com valores entre 34% e 36%, o que daria à formação liderada pelo presidente da Junta da Andaluzia, Juanma Moreno, mais de 40 deputados. O valor final poderia estar próximo de 50 deputados. São necessários 55 para a maioria absoluta. Com o PSOE e a coligação da esquerda a descerem, a dúvida é se o Vox consegue forçar o PP a uma coligação.

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