Covid-19: onda de resistência a medidas sanitárias

Apesar do aumento do número de infecções por covid-19, em vários países está a surgir uma onda de contestação às restrições, sobretudo onde são aplicadas medidas a diferenciar vacinados e não vacinados. Protestos parecem ter forte componente social.



As notícias sobre a pandemia de covid-19 são alarmantes, com o aumento constante de novos casos na Europa central, mas as medidas de combate à mesma estão a provocar uma onda de resistência em vários países. Esta semana houve problemas ligados à obrigatoriedade de vacinação ou às restrições de liberdade económica. A contestação e o descontentamento crescem por causa da discussão sobre a discriminação dos não vacinados. O tema é politicamente explosivo e tem impactos sociais.

1. Bélgica
Descontrolo

Em Bruxelas, uma manifestação que contestava o certificado sanitário degenerou em violência, no domingo, tendo a polícia utilizado canhões de água e gás lacrimogéneo para dispersar 35 mil pessoas. Segundo a imprensa, no meio desta multidão havia indivíduos encapuzados, pertencentes a grupos nacionalistas flamengos.

O facto é que havia também gente sem visível filiação partidária, pelo menos no início do desfile, incluindo idosos e muitas famílias. As coisas degeneraram quando alguns manifestantes lançaram pedras contra o cordão policial e os agentes responderam com ordens de dispersão. Seguiu-se uma confusão generalizada que deixou ruas do centro da cidade repletas de lixo e de equipamento urbano vandalizado.

Esta manifestação foi convocada por grupos que contestavam as restrições decididas pelo Governo belga para tentar travar o aumento de infecções por covid. As pessoas não vacinadas ficam impedidas de entrar em restaurantes e o uso de máscara passa a ser obrigatório.

2. Holanda
Orgia de violência

Na Holanda houve confrontos violentos entre a polícia e manifestantes que contestavam as medidas de confinamento parcial. O motim foi sobretudo grave em Roterdão, na noite de sexta para sábado, naquilo que um autarca definiu como “orgia de violência”, e o primeiro-ministro Mark Rutte como vandalismo de “idiotas”.

Os incidentes de Roterdão envolveram milhares de jovens e a polícia fez disparos de munições reais em situações em que as autoridades dizem ter estado em “perigo de morte”. Os manifestantes contestavam os certificados sanitários e a proibição de acesso a locais de divertimento. Na sequência da confusão, pelo menos quatro pessoas foram hospitalizadas com ferimentos de bala. Houve lançamento de pedras, destruição de propriedade, carros e contentores de lixo a arder.

O vandalismo estendeu-se a outras localidades. Em todo o país houve pelo menos 130 detenções e uma dezena de agentes da polícia feridos. Esta foi a segunda onda de violência na Holanda ligada a medidas anticovid.

3. Áustria
Desespero

A Áustria entrou no seu quarto confinamento e o anúncio de medidas discriminatórias visando os não vacinados provocou uma onda de protestos. As medidas acabaram por abranger toda a gente, mas a contestação subiu de tom após ser anunciada a intenção de tornar a vacinação obrigatória em Fevereiro. O partido populista FPO manifestou a sua oposição e liderou uma manifestação em Viena, no domingo.

A Áustria é um dos países menos vacinados da Europa - apenas dois terços dos adultos. No poder está uma coligação entre conservadores e verdes liderada por um chanceler não eleito (Alexander Schallenberg), que substituiu em Outubro Sebastian Kurz, afastado devido a um escândalo. O seu partido, OVP, está em dificuldades e, provavelmente, a agir em pânico, pois caiu dez pontos percentuais após a notícia que levou Kurz à demissão. O ex-chanceler resistia à ideia de tornar a vacina obrigatória. A medida tem constitucionalidade duvidosa e pode ser contestada na UE.

4. Itália
Laboratório

A Itália está a transformar-se no laboratório das medidas anticovid na Europa, mas também das regras para não vacinados. Após 16 semanas de protestos contra o certificado de vacinação (o chamado green pass) e as restrições para quem não o tenha, as manifestações regulares perdem fôlego, como se viu em Milão ou Roma esta semana. Talvez devido ao frio, os contestatários das medidas eram menos numerosos do que a polícia, o que não impediu momentos de alguma tensão.

O Governo de Mario Draghi, vasta amálgama de partidos de esquerda, centro e direita, está a preparar legislação dura a que a imprensa chama o super green pass, que deverá dificultar ainda mais a vida dos não vacinados (um em cada cinco italianos adultos). Haverá mais controlo, obrigatoriedade de vacinação para trabalhadores de saúde, professores e militares, redução da validade do certificado para nove meses e restrições draconianas para os não vacinados (de viajar, trabalhar ou entrar em espaços públicos). Os receios de aumentos de casos estão a acelerar a terceira dose da vacinação.

Estas medidas parecem eficazes no controlo da doença (a Itália tem escapado aos números elevados dos seus vizinhos), mas estão a provocar uma crise social, sobretudo entre trabalhadores informais ou pouco qualificados. Curiosamente, é a direita radical a sair em defesa destas pessoas, sobretudo os Irmãos de Itália, que ficaram fora do governo de unidade, críticos dos efeitos económicos das medidas e da restrição das liberdades que estas implicam.

O clima político crispado pode ter efeitos a curto prazo, sobretudo se as restrições se acentuarem e quando o pior da epidemia já tiver passado. Draghi não tem partido próprio, depende de terceiros, e os cálculos dos líderes podem ditar a sua queda. O super green pass seria o pretexto ideal.

5. França ultramarina
Desconfiança

A situação é tensa em dois territórios ultramarinos franceses, Guadalupe e Martinica, devido a protestos que têm na sua origem a decisão de vacinação obrigatória dos trabalhadores de saúde. A irrupção de violência causou cortes de estradas, levantamento de barricadas e incidentes mais graves, como tiros contra a polícia na noite de segunda-feira.

Foram enviados reforços policiais para as duas ilhas das Caraíbas e a situação acalmou, embora as autoridades francesas reconheçam que continua “muito difícil”, sobretudo em Guadalupe. Na Martinica há uma greve geral e os trabalhadores exigem aumentos salariais, o fim da obrigação de vacinação e a redução do preço do gás.

A agitação começou por causa das medidas contra a pandemia, mas há aqui uma crise mais complexa. A doença destruiu a economia, que dependia do turismo, e há grande desconfiança em relação às autoridades pois, no passado, muitos trabalhadores das plantações foram intoxicados com pesticidas e este assunto permanece na memória, mesmo depois de terem passado várias gerações. A natureza periférica das ilhas e a pobreza explicam, em parte, o descontentamento.

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