China: o caminho tortuoso entre o “milagre económico” e a “prosperidade comum”

Na China assolada pelo colapso do sector imobiliário e pela crise energética que está a afectar a produção das fábricas, a aumentar os gastos das famílias e a poluição no país, Xi Jinping enfrenta um dilema: segue a agenda rumo à “prosperidade comum” ou regressa à receita do passado que conduziu o país ao “milagre económico”, mas cujo modelo está esgotado?



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Quando, em Agosto deste ano, definiu a “prosperidade comum” como o desígnio principal da estratégia da China para os próximos anos, Xi Jinping já estava a apertar o cerco aos mais poderosos do país e estava bem ciente de que a receita que levou ao “milagre económico” das últimas duas décadas estava esgotada. Depois de um arranque de século de forte crescimento económico, assente numa elevada alavancagem que acelerou o boom do sector da construção e o consumo desenfreado de matérias-primas (muitas delas poluentes), o Presidente chinês apontou um novo caminho, que passa obrigatoriamente por uma estratégia económica diferente e com objectivos distintos.

O discurso de 19 de Agosto não foi feito num evento qualquer. Foi na cerimónia de celebração do 100.º aniversário do Partido Comunista Chinês (PCC). E a cerca de um ano do previsível início do terceiro mandato de cinco anos de Xi Jinping como Presidente da segunda maior economia do mundo. O que o líder chinês não contava é que, até ao final de 2021, a China iria debater-se com duas graves crises. Ambas têm potencial para provocar mais danos na economia e atrasar as reformas que Xi Jinping quer implementar para transformar a China numa nação “totalmente desenvolvida, rica e poderosa” até 2049.

Colapso no imobiliário

O colapso iminente da Evergrande veio colocar a nu a fragilidade do sector imobiliário, que cresceu de forma desmesurada nos últimos anos, com recurso a endividamento. No espaço de 20 anos, perto de 500 milhões de chineses saíram do campo para as cidades, onde vivem agora cerca de dois terços da população. A urbanização acelerou, mas a oferta cresceu ainda mais. As estimativas apontam para que existam várias “cidades fantasma” e 90 milhões de habitações vazias na China, o que seria suficiente para albergar a população inteira de países como a Alemanha, França, ou o Reino Unido. É evidente que a China já não pode contar com a construção/imobiliário como motor da economia (os dois sectores representam actualmente 29% do PIB). A crise da Evergrande já está a provocar uma descida nos preços das casas e as vendas estão a cair a pique (20% em Agosto e 17% em Setembro em termos homólogos), além de colocar em perigo as poupanças de milhares de chineses. Depois dos incentivos da banca para compra de habitação própria, cerca de 40% da riqueza dos chineses estão concentrados no sector imobiliário. Se Pequim não controlar esta crise, contendo os danos do contágio da Evergrande, a classe média será fortemente atingida. Ficará em causa um dos pilares da estratégia da “prosperidade comum”, que pretende combater a desigualdade e acelerar a distribuição de riqueza.

O regresso do carvão

A outra crise que assola Pequim não é um exclusivo chinês e está também a atingir a Europa de forma intensa. A escassez de matérias-primas para produzir electricidade fez disparar os preços da energia em geral e levou mesmo à paragem de produção de muitas fábricas e indústrias, deitando gasolina na fogueira dos problemas nas cadeias de abastecimento global, que tem um grande foco na China. Para combater esta crise e evitar mais blackouts energéticos, numa altura em que o Inverno está à porta, o Governo chinês ordenou a produção sem limites de carvão. Isto depois de, há vários meses, estar a tentar limitar o uso desta fonte de energia para combater as alterações climáticas, acelerar a transição energética e travar a subida da inflação. Esta crise ameaça agravar a poluição na China e a factura das famílias com a energia e outros bens que ficarão mais caros. É mais um travão na ambição de “prosperidade comum” de Xi Jinping.

O crescimento acentuado da economia chinesa - mais de 10% ao ano na primeira década do século e acima de 7% na última década - é coisa do passado. Os números revelados esta semana, referentes ao terceiro trimestre, provam isso mesmo, com estas duas crises a pressionarem o crescimento do PIB para menos de 5%.

Um travão nas reformas

O discurso de Xi Jinping de Agosto passado foi efectuado à porta fechada, tendo sido relatado na altura pelos média estatais. Só há poucos dias foi revelado todo o conteúdo, que continua a ser escrutinado ao caracter para se avaliar qual será o próximo sector a ser alvo das reformas das autoridades chinesas. Desde o início do ano que Pequim está a “castigar” várias empresas privadas, com medidas regulatórias que visam acabar com monopólios, travar o recurso ao crédito e endividamento geral da economia e reduzir o consumo de combustíveis fósseis.

As gigantes tecnológicas foram o primeiro alvo, mas outros sectores também foram atingidos, da banca ao jogo, passando pela educação e o imobiliário. Evaporou-se mais de um bilião de dólares de valor de mercado das grandes empresas num curto espaço de tempo. A China deixou de ter cotadas na lista das dez mais valiosas do mundo e a queda de Jack Ma (fundador da Alibaba) do pedestal ilustra como Pequim não está a olhar a meios para atingir os fins.

A “prosperidade comum” e a distribuição de riqueza é o objectivo, mas estas duas crises vieram mostrar como o caminho desde o “milagre económico” até essa meta pode ser tortuoso. Xi Jinping já fez saber que “não é possível alcançar este desígnio da noite para o dia” e que o progresso será atingido de forma “gradual e ordeira”. Com estas pedras no caminho, Xi Jinping vai seguir inflexível na sua agenda até ao 20.º Congresso do PCC do próximo ano? Ou fazer marcha-atrás nas reformas e recorrer aos estímulos do passado, de modo que a aterragem da economia não seja brusca?

As opiniões dos analistas dividem-se, mas Pequim já deu a entender que nada fará para evitar o colapso da Evergrande, com mais de 300 mil milhões de euros em dívidas, mas travará o contágio desta crise ao sector imobiliário e ao resto da economia. Percebe-se a ambição de “prosperidade comum”, num país onde cerca de 40% da população de 1,4 mil milhões de pessoas ganham em média mil yuans (135 euros) por mês. O combate às desigualdades legitima as acções do Partido Comunista e o futuro político de Xi Jinping. Os chineses são conhecidos pela sua paciência e a alteração do modelo económico é um objectivo incontornável. Resta saber com que ritmo e qual o impacto nas economias chinesa e mundial e sobre o planeta.

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