“Catedral da morte”. Governo brasileiro podia ter evitado 120 mil mortos

Milhares de vidas foram descartadas pela “estratégia macabra” do Governo brasileiro, conclui a comissão de inquérito à acção dos bolsonaristas em relação à pandemia. Jair Bolsonaro riu-se das conclusões, segundo o relato do filho mais velho. O relatório atribui-lhe nove crimes, incluindo o crime contra a humanidade.



Seis meses, muitas páginas e centenas de depoimentos depois, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que escrutinou a actuação do Governo brasileiro em relação à disseminação da covid-19 compilou, com estrondo, matéria suficiente para levar Jair Bolsonaro ao Tribunal Penal Internacional, em Haia.

“Se medidas não farmacológicas tivessem sido aplicadas de forma sistemática no país, poderiam ter reduzido os níveis de transmissão da covid-19 em cerca de 40%, o que significa que 120 mil vidas poderiam ter sido salvas até ao final de Março de 2021”, conclui o relatório de mil páginas que escancarou a “estratégia macabra” do Governo que o senador Renan Calheiros classificou como uma “catedral da morte”.

“Esse trabalho colectivo silenciou um coro demoníaco vindo de uma catedral da morte, sediada pelo Governo federal. Geraram uma necrópole aterradora, marcada pelo desprezo à vida, pelo escárnio com a dor de mais de 600.000 famílias, pela insensibilidade e indiferença humanitária. Categorias que resvalam na insanidade, na psicopatia que marcam comportamentos primitivos do ogro e dos bárbaros”, leu o relator da CPI

Presidente, Jair Bolsonaro é apontado como responsável de nove crimes, entre eles crimes contra a humanidade, prevaricação e “charlatanismo”. Somadas, as penas aplicadas variam de cinco anos e quatro meses de detenção até 68 anos e dez meses. Mais. O homem que lidera o Brasil arrisca perder o mandato e os seus direitos políticos, caso as denúncias descambem num processo de destituição ou impeachment.

A “mais grave omissão do governo federal foi o atraso na compra das vacinas”, diz o documento que menciona o nome do Chefe de Estado mais de 80 vezes. Além do Presidente, o relatório indica outras 65 pessoas e duas empresas, além de três filhos de Bolsonaro, bloguers e médicos que assessoravam o Executivo.

Bolsonaro ri

Ao saber do indiciamento, o Chefe de Estado brasileiro ter-se-á desmanchado em gargalhadas, segundo o seu filho mais velho e senador, Flávio Bolsonaro. “Você conhece aquela gargalhada dele? Hahahaha [imita]. Por que não tem o que fazer diferente disso! É uma piada de muito mau gosto o que o senador Renan Calheiros faz”, reproduz a edição brasileira do El País.

Citado pelo mesmo jornal, o director para a América Latina da Open Society Foundations que foi secretário nacional de Justiça, Pedro Abramovay, Bolsonaro se comporta como alguém que está acima da lei: “o Presidente mostrou que é possível se tornar um presidente livre de qualquer punição se você cooptar o presidente da Câmara e o PGR. Bolsonaro faz de tudo para permanecer acima da lei”.

Para ter efeitos, o relatório que descreve o descaso do Governo em relação à pandemia ainda tem de ser aprovado no Senado.

Quais são os 9 crimes que podem levar Bolsonaro ao Tribunal Internacional?

Crime de Epidemia com resultado de morte: através de escolhas e omissões, o Presidente teria contribuído para o agravamento e propagação da pandemia no país.

Infracção a medidas sanitárias preventivas: Protagonista de várias aglomerações, Bolsonaro descartou o uso da máscara e incentivou os seguidores a seguirem-lhe o exemplo.

Charlatanismo: Sem estudos científicos sobre a eficácia, o Chefe de Estado do Brasil fez propaganda ao uso da cloroquina para prevenir e tratar a covid-19.

Prevaricação: Há dúvidas sobre os contratos de aquisição das vacinas contra a pandemia.

Emprego irregular da verba pública: Brasil gastou milhões com medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid-19

Incitação ao crime: Presidente é acusado de incitar a população a manter a sua vida normal, sem quaisquer cuidados, como o uso da máscara ou a vacinação.

Falsificação de documentos particulares: Bolsonaro e o seu Governo falsificaram documentos com a assinatura do Tribunal de Contas.

Crime de responsabilidade: Chefe de Estado atentou contra a saúde pública da população e procedeu contra o decoro do cargo presidencial.

Ler mais
PUB