“Caldo das mutações”: apenas três em cada 100 pessoas estão vacinadas nos países mais pobres

Dificultada pelos recursos financeiros, a imunização no continente africano tem enfrentado inúmeras dificuldades, a começar pela fragilidade dos sistemas de saúde e pela logística, muitas vezes, inexistente, que impede até o transporte e o armazenamento dos medicamentos.



As vacinas já chegaram há cerca de um ano, mas continuam praticamente inacessíveis à maioria da população concentrada nos países mais pobres, com apenas três em cada 100 pessoas totalmente imunizadas contra a covid-19, segundo o balanço mais recente da Universidade de Oxford. Se olharmos especificamente para o continente africano a taxa de pessoas vacinadas não chega sequer aos 10%, mantendo-se nuns tímidos 7%.

Se olharmos para países como o Burundi (0,0025%), a República Democrática do Congo (0,06%) ou o Chade (0,42%) ficamos com a sensação que o SARS-CoV-2 ainda circula sem a existência de qualquer vacina que o possa prevenir ou minimizar. Já em Março, o virologista dos Camarões, John Nkengasong, previa que, enquanto “a Europa está a tentar vacinar 80% dos seus cidadãos e os Estados Unidos 100%, África vai tornar-se no continente da covid-19.” Na altura, o camaronês também já alertava para as limitações às deslocações ao continente africano.

Nove meses depois, precipitados pela variante Omicron, tanto a União Europeia como os Estados Unidos decidiram encerrar as fronteiras aéreas aos voos procedentes do sul de África, depois da detecção da mais recente variante do SARS-CoV-2 no Botswana e na África do Sul da nova variante. Nem o facto das próprias autoridades de saúde holandesas terem confirmado que esta mutação do novo coronavírus circulava nos Países Baixos desde 19 de novembro - antes da África do Sul ter relatado os casos da nova variante à Organização Mundial da Saúde, a 24 de novembro - alterou o desfecho que se antecipava entre a comunidade científica.

Previsto, estudado e indicado pela generalidade da comunidade científica, incluindo pelos diversos painéis da Organização Mundial da Saúde (OMS) a taxa praticamente inexistente de vacinados nos países mais pobres está, de qualquer das formas, a tornar-se um verdadeiro barril de pólvora com impactos no surgimento das mutações e consequentes variantes do SARS-CoV-2. Oficialmente, há mais de três milhões de infectados confirmados a um ritmo semanal. A OMS estima que em África provavelmente é identificado apenas um em cada sete destes casos. Para isso contribui o facto da população estar maioritariamente abaixo da faixa etária dos 40/50 mas não só, já que os meios de rastreamento também fica aquém do que se implementou no Ocidente.

O próprio director-geral da OMS, Tedros Ghebreyeses, tem vindo a condenar a desigualdade de recursos entre os chamados países ricos e os mais pobres. “Todos os dias são administradas seis vezes mais doses de reforço [a terceira injeção nos países ricos] do que primeiras doses nos países de baixa renda. É um escândalo que deve terminar já”, proclamou há duas semanas. “Não faz sentido dar doses de reforço a adultos saudáveis ou vacinar crianças quando profissionais de saúde, idosos e outros grupos de alto risco em todo o mundo ainda estão esperando pela primeira dose. Ninguém está a salvo até que estejamos todos a salvo”, insistiu.

No mesmo sentido, a virologista Nicksy Gumede-Moeletsi, do escritório regional da OMS em Brazzaville, na República do Congo, alerta que a expansão descontrolada do coronavírus é o caldo de cultivo perfeito para o surgimento das novas variantes “muito preocupantes”, como, de resto, aconteceu na semana passada com a identificação da Omicron. “Enquanto continuarmos a ter uma cobertura de vacinação tão baixa, especialmente na África, ofereceremos a possibilidade de que as variantes se disseminem. A África precisa de vacinas”, põe o dedo na ferida aberta que pode prolongar no tempo a propagação descontrolada do vírus que começou a alterar as rotinas planetárias quando foi identificado ainda em Dezembro de 2019, num mercado de animais vivos na China.

Dificultada pelos recursos financeiros, a imunização no continente africano tem enfrentado inúmeras dificuldades, a começar pela fragilidade dos sistemas de saúde e pela logística, muitas vezes, inexistente, que impede até o transporte e o armazenamento dos medicamentos. A acrescentar ao cenário, o açambarcamento de vacinas - denunciado pela OMS - que permite, por exemplo, a países como Portugal assumirem que, no caso da dose de reforço vir a ser alargada a toda a população, ninguém ficaria sem vacinas. Nem as promessas de doação estão a ser cumpridas pelo Ocidente.

As maiores potências económicas do planeta prometeram doar cerca de 2 bilhões de doses, por meio da iniciativa COVAX, um número insuficiente para vacinar 70% da população mundial com as duas injeções. Até ao momento, apenas uma em cada cinco doses prometidas foi entregue, segundo os últimos dados, atualizados há um mês.

Ler mais
PUB