As ambiguidades euro-americanas

A indesmentível popularidade da causa ucraniana condiciona os políticos ocidentais, levando-os a dar passos que, noutras condições, seguramente evitariam. Volodimir Zelenski sabe-o.



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Nos primeiros dias da guerra russo-ucraniana, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, afirmou que a União Europeia (UE) apoiaria Kiev “não apenas com palavras, mas com acção militar concreta”. Logicamente, poucos acreditaram. Mas, nos meses subsequentes, os Estados europeus enviaram para a Ucrânia mais de 2 mil milhões de euros em equipamentos letais e 728 mil milhões em ajuda humanitária. Além deste substancial apoio militar e humanitário, foram elaborados seis pacotes de sanções destinados a atingir a economia e o sistema financeiro russos.

Mais importante, encetou-se um processo que coloca a Ucrânia numa via rápida para a adesão plena à UE. Permeada de incalculável valor simbólico, a decisão indicia a vontade da Comissão Europeia de ancorar a Ucrânia na comunidade de Estados europeus. Trata-se de um desígnio louvável, mas nem por isso o processo deixa de levantar problemas sérios, tendo em conta que a integração plena pressupõe o cumprimento dos critérios de Copenhaga referentes aos direitos humanos, ao Estado de direito, à transparência e a outros condicionalismos que consubstanciam as pré-condições de adesão.

Um observador minimamente isento vê-se forçado a concluir que Kiev está a muitos anos - porventura, a décadas - de poder cumprir com êxito as exigências estipuladas em Copenhaga. Neste quadro, não admira que exista um real desconforto quanto ao processo em várias capitais, incluindo Lisboa. Nos países do sul antevê-se que o processo seja acompanhado pela atribuição de fundos consideráveis para reconstruir um país devastado pela guerra. Outros, seguramente, temem ser arrastados para futuros conflitos com a Rússia.

Ambiguidades europeias

A indesmentível popularidade da causa ucraniana condiciona os políticos ocidentais, levando-os a dar passos que, noutras condições, certamente evitariam. Volodimir Zelenski sabe-o e, por isso, aproveita a iniciativa política enquanto pode. Sabe que, mais tarde ou mais cedo, a fadiga da guerra reduzirá a sua popularidade e a considerável margem de manobra negocial de que actualmente dispõe. Até esse dia chegar, tudo fará para obter concessões e garantias que decerto reforçarão a sua posição negocial quando iniciar as inevitáveis conversações com Vladimir Putin.

É sabido que as relações de Zelenski com alguns líderes europeus não são fáceis, até porque, aproveitando a popularidade junto da opinião pública, o Presidente ucraniano não se tem coibido de denunciar o “inaceitável” atraso das ajudas militares. Atendendo à situação em que o país se encontra, a impaciência de Zelenski com a Europa talvez seja compreensível. Todavia, como reconheceu Josep Borrell, o chefe da política externa europeia, a unanimidade no âmbito do processo decisório visa acomodar a perspectiva de cada país e, assim, preservar a unidade de acção dos Estados-membros.

Zelenski apela insistentemente ao envio de mais sistemas antimíssil, um assunto particularmente sensível na Alemanha, onde Olaf Scholz tem sido fortemente criticado pelos atrasos na entrega de armamento pesado à Ucrânia. Aliás, em Abril, o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Dmytro Kuleba, afirmou estar “cansado de esperar” pelos armamentos prometidos, referindo-se explicitamente a Berlim. Surpreendentemente, as autoridades ucranianas também fizeram saber que o Presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, não era bem-vindo em Kiev. Sob pressão na Alemanha e na UE por seguir uma política deveras cautelosa, o chanceler Scholz, acompanhado por Emmanuel Macron e mais dois líderes europeus, deslocou-se a Kiev para dar o aval à candidatura ucraniana de adesão à UE.

Durante essa deslocação conjunta a Kiev, o Presidente Macron afirmou que a França desempenhará um papel de “potência mediadora” nas negociações que se seguirão à guerra. Em tempos, o Presidente francês irritou Kiev ao declarar que se deveria “evitar humilhar a Rússia”. Macron diz agora que Putin está “isolado” em resultado do “erro histórico e fundamental” que cometeu ao atacar a Ucrânia. Diz ainda estar incondicionalmente ao lado de Zelenski, que “tem de ganhar a guerra” sem fazer concessões à Rússia. É certo que Macron nunca descartou a possibilidade de a Ucrânia aderir à União Europeia, mas tem vindo a alertar para a morosidade do processo. Consciente das dificuldades no horizonte, sugeriu a criação de uma “comunidade política europeia” aberta a países que não fazem parte da UE - incluindo a Ucrânia e o Reino Unido - mas que pretendem contribuir para a segurança europeia.

Leia o artigo na íntegra na edição do NOVO que está, esta sexta-feira, dia 24 de Junho nas bancas.

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