Agenda ambiental aquece clima político europeu

As cheias na Alemanha e na Bélgica foram súbitas e devastadoras. Choveu de maneira anormal e toda a gente começou a culpar as alterações climáticas. A dois meses das eleições alemãs, o tema será decisivo, mas também há espaço para os alarmistas do ambiente, que defendem políticas dispendiosas e ignoram a capacidade de adaptação.



A chuva foi demasiado intensa e prolongada, acumulou-se em súbitas enxurradas e a destruição tornou-se violenta. Nas margens de pequenos rios geralmente pacatos, povoações inteiras foram arrasadas pela subida das águas. Foi tudo inesperado e demolidor. Açudes rebentaram, ondas de água entraram por antigos leitos de rio, houve casas arrastadas, linhas férreas desfeitas, a electricidade foi cortada, troços de estradas inundaram-se, com carros afundados.

Os sobreviventes diziam que nunca tinham visto nada assim e pareciam genuinamente espantados por aquela calamidade ser possível em sociedades tão avançadas. As cheias na Alemanha e na Bélgica mataram mais de 190 pessoas, sobretudo nas localidades alemãs (160 mortos), e desalojaram milhares. Há ainda dezenas de desaparecidos entre potenciais vítimas e gente incontactável no meio da destruição e do caos.

Foi tudo tão rápido que os serviços de protecção civil falharam. Algumas sirenes de aviso não funcionaram, a rede de telemóveis caiu imediatamente. O país mais atingido, a Alemanha, teve outras cheias devastadoras em tempos recentes (2005, 2002, 1997, 1993) mas, desta vez, não engrossaram rios famosos (Reno, Danúbio ou Elba), mas cursos modestos e que se julgavam domesticados, tributários do Reno ou pertencendo à sua bacia, como o Erft, o Ahr e o Volma. Os sítios mais atingidos foram vilas e subúrbios de cidades que não tinham cheias tão avassaladoras desde o século XIX.

A imprensa começou de imediato a culpar as alterações climáticas. As impressões digitais estavam por todo o lado no local do crime: apesar de chover na região por esta altura do ano, não há registo de tal intensidade. A chuva atingiu 154 milímetros num dia em Colónia, cidade cuja média de Julho é de apenas 87 milímetros. Numa das zonas mais afectadas, a precipitação chegou a 207 milímetros em nove horas. Imagine-se a queda de 23 litros de água por cada metro quadrado durante nove horas. Parece incrível, mas a região mais afectada estava há três anos em seca.

A catástrofe foi um exemplo de fenómeno climático extremo, algo que, segundo os cientistas, será mais frequente no futuro por causa do aumento na atmosfera terrestre de gases com efeito de estufa, sobretudo o dióxido de carbono emitido pelos combustíveis fósseis e pelas máquinas que sustentam a civilização. Uma chuvada que devia acontecer de cem em cem anos pode tornar-se uma banalidade em cada década.

A Alemanha está em pré-campanha eleitoral e as questões ambientais já atraíam todas as atenções. Os partidos têm planos recheados de propostas ambientais e, até às inundações, parecia que os conservadores da CDU estavam a ganhar o debate, pois as ideias da esquerda, nomeadamente dos Verdes, pareciam demasiado dispendiosas. A percepção pública pode mudar. A oposição social-democrata (que integra o Governo) acusou imediatamente a chanceler Angela Merkel (CDU-CSU) de ter comprometido ao longo dos anos os esforços de redução dos gases com efeito de estufa.

O candidato da CDU, Armin Laschet, teve um azar (ou inabilidade) excepcional. Durante uma visita às zonas sinistradas, quando o Presidente da República dizia às televisões, com ar sério, qualquer coisa sobre as vítimas, via-se na imagem a comitiva na galhofa, incluindo Laschet, a rir às gargalhadas, cinco metros atrás de Frank-Walter Steinmeier. Que efeito terá esta monumental gafe nas eleições de Setembro? Essa é uma incógnita.

O alarmismo ambiental

As alterações climáticas não são abstractas. Este ano, na costa oeste da América houve duas ondas de calor consecutivas que causaram centenas de mortos, e por estes dias, na Sibéria, ardem vastas porções de floresta no território da Iacútia, onde foram registadas temperaturas de 35 graus. Esta outra catástrofe destruiu uma dezena de aldeias, mas a sua dimensão é difícil de compreender: já arderam 800 mil hectares de floresta, cuja combustão liberta para a atmosfera enormes quantidades de dióxido de carbono, mas também do solo de permafrost, com metano acumulado. Este gás tem um efeito de estufa ainda mais perigoso. As autoridades russas estão a tentar conter estes incêndios, mas eles continuam a lavrar.

O ritmo da desflorestação mundial baixou 40% nas últimas três décadas, embora a organização da ONU para a alimentação (FAO) calcule que as florestas estão a perder 10 milhões de hectares por ano. O Brasil tem sido apontado como o mau da fita, mas medições com uso de satélite permitem calcular que, em 2020, a Amazónia perdeu 842 mil hectares de floresta. São 8,4% das perdas planetárias, quando o Brasil possui 12,2% das florestas mundiais. Num único mês, os fogos na Sibéria destruíram quase um ano de perdas na Amazónia. A destruição de florestas ocorre sobretudo a latitudes mais a norte, devido ao aumento das temperaturas, mas a opinião pública já se convenceu de que o problema está no Brasil.

A discussão sobre alterações climáticas é contaminada pela política. As inundações na Alemanha e na Bélgica tiveram como causa a chuva anormalmente intensa, mas a perda de vidas não se explica apenas por isso: este tipo de inundação súbita ocorre também por causa da impermeabilização dos solos, das alterações feitas no curso dos rios (neste caso, ao longo de 200 anos), a perda de pântanos e prados, a construção de açudes que não aguentam o excesso de água, enfim, explica-se pelo uso humano que traz riqueza às pessoas. Conquistam-se as margens dos rios para agricultura e urbanização, é preciso construir estradas, existe uma ligação entre consumo de energia e riqueza.

Os ambientalistas menos politizados dizem que a humanidade está a adaptar-se às mudanças no clima. A poluição atmosférica baixou na maior parte das cidades do mundo e há mais habitats naturais protegidos. Nos últimos 60 anos triplicou a produção de alimentos, com um aumento de apenas 8% na área agrícola. Segundo a FAO, existe comida suficiente para toda a gente. O problema da fome tem sobretudo origem em governos incompetentes. É possível combater a pobreza, recuperar florestas, alimentar o mundo e mudar as fontes de energia sem destruir o clima.

Não há soluções fáceis

Tudo isto é ignorado pelos alarmistas ambientais, que transformam os consumidores em pecadores. Para se limitar o aumento global da temperatura a 1,5 graus centígrados face aos valores pré-industriais, será preciso que, em 2030, as emissões de dióxido de carbono desçam para 45% dos níveis de 2010. Estas são as metas do Acordo de Paris, de 2015, mas provavelmente não serão suficientes, pois há outros gases com efeito de estufa (o metano, por exemplo) e, mesmo que se atinja a meta de emissões zero em 2050, muito dióxido de carbono ficará na atmosfera durante décadas.

Não há soluções fáceis: é preciso aumentar a superfície de florestas, o que exige menos área agrícola e maior produtividade na produção de comida; são necessárias novas tecnologias de transportes e de energia. E não se pode retirar aos países menos ricos o direito ao progresso.

As emissões continuam a subir. Embora o ritmo desse crescimento tenha abrandado, acumulou-se dióxido de carbono na atmosfera (412 partes por milhão em 2020, contra 283 em 1800). Comparando 1990 e 2018, as emissões na Europa caíram 23%. A China é hoje o maior produtor de gases com efeito de estufa, 28% do total, após rápido crescimento de 360% face a 1990. Apesar da aposta nas renováveis, Portugal também não é tão exemplar como se diz. As emissões são pequenas, mas cresceram 24% em relação a 1990.

As temperaturas atmosféricas vão continuar a subir, mas o alarmismo ambiental impede a discussão. Existe uma ideia generalizada de que a humanidade enfrenta a extinção a curto prazo; no entanto, o número de vítimas dos fenómenos climáticos extremos decresceu de maneira dramática nos últimos cem anos. Os maiores desastres ligados a secas e inundações ocorreram antes de 1965. O pior exemplo, em 1931, foi de inundações na China que mataram quase 4 milhões de pessoas. Nas décadas de 20 e 30 do século passado morriam, em média, mais de meio milhão de pessoas por ano em eventos climáticos extremos. Neste século, dez vezes menos.

*Artigo originalmente publicado na edição impressa do NOVO nas bancas a 23 de Julho de 2021

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