África do Sul: motins e raiva levam sociedade à beira do abismo

Os efeitos económicos da pandemia e os problemas judiciais de um ex-presidente foram as causas de tumultos violentos em importantes cidades sul-africanas, como Joanesburgo, Durban e Pretória. Com milhares de lojas destruídas, o abastecimento
da população levará meses a recuperar. A pandemia pode ficar descontrolada.



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O julgamento do ex-presidente da África do Sul, Jacob Zuma, foi adiado por um mês, o que pode contribuir para reduzir tensões políticas, após os violentos motins da semana passada. Zuma, de 79 anos, esteve no poder entre 2009 e 2018 e declarou-se inocente das acusações de corrupção num negócio de compra de armas à empresa francesa Thales.

Outro caso que envolve Zuma funcionou como faísca para os motins. A 29 de Junho, o ex-presidente foi condenado a 15 meses de prisão, por recusar um inquérito judicial sobre actos de corrupção. A sua detenção no dia 7 desencadeou uma onda de destruição na província de Kwazulu-Natal. Não sendo o único motivo do descontentamento, a relação do ex-presidente com a justiça revela uma luta política que ameaça a estabilidade sul-africana.

Os motins foram crescendo durante vários dias. Houve pilhagens generalizadas em centros comerciais de Joanesburgo, Durban ou Pretória. As forças de segurança foram ultrapassadas e a situação só acalmou quando 25 mil soldados controlaram as ruas. Nos incidentes, morreram pelo menos 215 pessoas e foram detidas 3400. Milhares de lojas ficaram destruídas, mas também sistemas de abastecimento, torres de telecomunicações, armazéns, fábricas, até centros de vacinação.

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As estradas foram cortadas e uma refinaria teve de ser encerrada. A África do Sul estava a ser atingida por um surto de covid-19 e a pandemia pode agravar-se. O abastecimento de combustíveis levará meses para regressar à normalidade. Inúmeros negócios já nem devem reabrir. Os empresários, incluindo muitos portugueses, ficaram arruinados e a reputação do país foi arrasada. Metade dos 450 mil portugueses que residem na África do Sul vivem nas zonas mais atingidas pelas pilhagens, nomeadamente em Joanesburgo, mas não houve registo de portugueses entre as vítimas.

A partir de domingo, as pilhagens pararam e o comércio internacional normalizou-se, com alguma recuperação no reabastecimento alimentar. A auto-estrada entre Joanesburgo e Durban só foi reaberta no sábado. Os efeitos a médio prazo são difíceis de prever, mas os pobres vão sofrer com o provável aumento de preços de bens essenciais.

As autoridades falam em “tentativa de insurreição” e acusam os apoiantes de Jacob Zuma de estarem na origem dos motins. O Presidente Cyril Ramaphosa afirmou mesmo que os tumultos foram “instigados, planeados e coordenados”. Apesar de tudo, há outros motivos para o descontentamento popular: desigualdade, pobreza, desemprego, a que se acrescentam os poderosos efeitos económicos da pandemia.

Também parece existir crescente rivalidade entre facções do ANC, o partido no poder. Ramaphosa era vice-presidente no período de Zuma, cuja administração foi recheada de episódios de corrupção e nepotismo, até ao momento em que o chefe de Estado foi forçado à demissão pela facção do ANC que, a seguir, tomou conta do país. O nacionalismo zulu pode ter tido um papel adicional na insurreição da semana passada. O ex-presidente Zuma é zulu, embora seja também uma das principais figuras do ANC, partido criado para unir as tribos da África do Sul. O facto é que a questão tribal serviu no passado para alimentar as emoções e a raiva.

*Artigo originalmente publicado na edição impressa do NOVO nas bancas a 23 de Julho de 2021

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