A maldição da sexta-feira 13

Ninguém sabe o motivo de as pessoas acreditarem que a sexta-feira 13 dá azar. A conjugação de datas em Outubro é considerada mais nefasta. Isso significa que a superstição estará ligada ao fim dos Templários e à maldição do último grão-mestre da ordem monástica, cuja morte levou uma dinastia francesa à extinção.



Jesus Cristo foi crucificado numa sexta-feira. Por seu lado, o número 13 tem má fama desde o início da civilização. A aversão pode vir da Suméria, que inventou um sistema de numeração com base 12, em que o 13 complica, ainda por cima número primo, que só pode ser dividido por si próprio e por um.

Sabe-se que o folclore do azar da sexta-feira 13 só surgiu nos últimos 200 anos, parece coisa moderna, mas como explicar que o medo seja mais forte em Outubro?

A teoria mais convincente tem a ver com uma maldição. A 13 de Outubro de 1307, numa sexta-feira, o Rei de França Filipe IV, o Belo, mandou prender meio milhar de cavaleiros ligados à Ordem dos Templários. No processo, que envolveu torturas, foram confessadas heresias que justificaram a perseguição da ordem em toda a Europa, sendo a bula papal assinada por Clemente V, que dependia do Rei de França.

Filipe IV estava falido e assaltara antes os cofres de comerciantes lombardos e de banqueiros judeus. A Ordem do Templo, fundada em 1118, era riquíssima. Vítima da ganância do monarca, a quem emprestara fortunas, o último grão-mestre, Jacques de Molay, foi queimado vivo em Março de 1314, lançando então uma praga sobre o rei francês.

O Papa Clemente morreu um ano depois, de doença, e há uma versão macabra: o corpo do falecido foi depositado numa capela, houve uma tempestade e relâmpagos, a capela incendiou-se; quando o fogo foi extinto, o cadáver estava incinerado.

A abolição da ordem foi cumprida por vários reis, mas o monarca português, D. Dinis, recusou obedecer ao papa. Os Templários continuaram em Portugal, como Ordem de Cristo, a partir de 1319.

O rei francês morreu em Novembro de 1314, aos 46 anos, vítima de acidente de caça. Filipe semeara a desgraça da sua dinastia, num dos maiores escândalos da época. A filha de Filipe, então Rainha de Inglaterra, ofereceu um presente a cada uma das suas cunhadas e, mais tarde, num banquete em Londres, esses presentes apareceram na fatiota de dois galantes. Só havia uma explicação: adultério.

As esposas dos futuros reis Luís X e Carlos IV foram condenadas e os supostos amantes esquartejados. As princesas sofreram a humilhação da cabeça rapada e prisão perpétua. Uma delas viveu meses, foi provavelmente assassinada logo após a morte de Filipe, pois o marido, Luís X, não anulara o casamento, por falta de Papa.

O jovem monarca morreu logo a seguir, com a nova mulher grávida do Rei João, o póstumo, que viveu apenas cinco dias. Seguiu-se no trono o irmão de Luís, Filipe V, cuja mulher, Joana, foi a única que escapou à acusação de adultério, mas sem obter a bênção de herdeiro masculino, como exigia a lei. Finalmente, o terceiro irmão, Carlos IV, que teve uma única filha a chegar à idade adulta. Isso ditou o final da dinastia dos Capetos. Corria o ano de 1328 e seguiu-se a luta pelo trono de França, em que o único neto masculino de Filipe o Belo era o rei inglês, que reclamou o trono.

Este é um resumo da maldição dos Templários. Houve outras vítimas, com destaque para o chanceler de Filipe IV, Enguerrand de Marigny, que criou a trama contra a Ordem do Templo e acabou por ser compensado por Luís X com uma execução cruel pelo seu papel na conspiração dos adultérios. O século XIV foi de muitos azares. Houve fome, guerra e peste, nesta ordem. Foi porventura o pior século para se estar vivo.

O azar continuou

As colheitas de 1315 falharam. Choveu demasiado e as plantas apodreciam no solo, o gado morreu de infecções. Foi a Grande Fome de 1315-17 - os preços da comida na estratosfera e os camponeses na penúria, houve até canibalismo.

Os motivos da crise alimentar são misteriosos. Pode ter sido a perturbação na Oscilação do Atlântico Norte, correntes oceânicas que transportam o calor dos trópicos para as regiões setentrionais. Pode ter sido uma distante erupção vulcânica mas, nesse caso, o único suspeito é demasiado anterior: o vulcão Samalas, na ilha de Lombok, que explodiu em 1257.

As provas de núcleos de gelo sugerem que a crise alimentar do início do século XIV esteve ligada a uma mudança climática ainda mal compreendida, a chamada Pequena Idade do Gelo, entre 1300 e 1850. Foi a primeira grande desgraça climática desse fenómeno de cinco séculos e meio.

O fracasso de colheitas enfraqueceu a saúde dos sobreviventes. A França mergulhou a partir de 1337 num conflito militar com os ingleses, a Guerra dos Cem Anos, com vastas regiões devastadas. As causas do conflito remontavam ao Rei Filipe, o Belo.

Em 1347 chegou a peste bubónica, doença causada por uma bactéria transmitida por pulgas. A peste matou entre um terço e dois terços da população europeia. Na primeira vaga desapareceu metade da população de Paris, cidade de 100 mil habitantes.

O pico da doença durou até 1351, quando talvez já não houvesse muitas testemunhas vivas da execução do último grão-mestre dos Templários.

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