Vladimir Putin: aspirante a quinto cavaleiro do Apocalipse ou apenas encurralado?

O Presidente da Federação Russa deixou claro ao seu povo que não desistirá de vencer na Ucrânia, ou de manter a pressão naquilo que apresenta como uma guerra contra as intenções da NATO.



Entre os exercícios de História alternativa que têm fascinado os leitores de livros tão notáveis como “O Homem do Castelo Alto”, no qual Philip K. Dick imaginou os Estados Unidos divididos pelo Japão imperial e a Alemanha nazi, vencedores da Segunda Guerra Mundial, existe um cenário por explorar: imagine-se que Hitler fazia avançar os seus exércitos para França, invadia pelo Norte e pela Alsácia-Lorena, mas nunca chegava a tomar Paris, onde o governo se manteria em funções, com as tropas gaulesas, apoiadas por britânicos pouco dispostos a servirem de alvo à aviação alemã em Dunquerque, a começaram a reconquistar território após os primeiros meses de ocupação.

Com as óbvias diferenças entre as duas situações, sendo a mais relevante o facto de um Hitler que fosse impedido de percorrer os Campos Elíseos não ter bombas atómicas para brandir aos inimigos, aquilo que sucedeu nas últimas semanas na Ucrânia, com uma contra-ofensiva que validou a boutade de que o alegado segundo exército mais poderoso do mundo demonstrou ser apenas o segundo exército mais poderoso a combater na Ucrânia, também é uma narrativa poderosa, mas que pode ter consequências reais.

Com um número de baixas e de perda de material que já seriam pesados mesmo que correspondessem à versão do ministro da Defesa russo, que admitiu 5.937 mortes entre os enviados para a “operação militar especial” que mudou a Europa a 24 de Fevereiro - Kiev aponta para um número quase dez vezes maior -, Putin dirigiu-se aos russos num discurso agendado para terça-feira, mas que não perdeu relevância por ser proferido no dia seguinte.

Sem abandonar a expressão gélida que o torna mais difícil de interpretar do que a generalidade dos líderes mundiais, e dispensando os gestos e mudanças de tom de voz típicos do último a dar início a um conflito militar desta envergadura em território europeu, o Presidente da Federação Russa deixou claro ao seu povo que não desistirá de vencer na Ucrânia, ou de manter a pressão naquilo que apresenta como uma guerra contra as intenções da NATO, e do Ocidente em geral, em relação ao seu país. Mais do que a mobilização de 300 mil reservistas, todos com legítimo receio de virem a ser carne para canhão, ressoou a ameaça do recurso ao arsenal nuclear.

“Também temos vários meios de destruição que, em alguns casos, são mais modernos do que os dos países da NATO. Se a integridade territorial da Rùssia for ameaçada, utilizaremos todos os meios disponíveis para proteger a Rùssia e o nosso povo”, disse. No Ocidente houve quem visse o quinto cavaleiro do Apocalipse, mas para muitos esteve ali um general (sem farda nem patente) encurralado no seu próprio labirinto.

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