Marta Temido: de potencial sucessora a ministra sem condições para continuar no cargo

Destacou-se por muita retórica e não raras medidas contra privados, e pelo confronto com sindicatos e ordens profissionais. Mas também por ter parecido destinada a mais altos voos.



Entre os momentos marcantes da longa passagem de Marta Temido pelo Ministério da Saúde, ainda sem data definida para terminar nem identidade de substituto (ou substituta) confirmada à hora de fecho desta edição, não será esquecido o do anúncio da sua demissão. Afinal, não é habitual que um tal comunicado chegue às redacções depois da meia-noite, como na madrugada desta terça-feira.

Com assinalável economia narrativa, o gabinete da administradora hospitalar que chegou ao governo em 2018 só precisou de um parágrafo para explicar tudo: “A ministra da Saúde, Marta Temido, apresentou hoje a sua demissão ao primeiro-ministro por entender que deixou de ter condições para se manter no cargo.” Mais complicada fora a notícia, revelada horas antes pela TVI, de que uma grávida de nacionalidade indiana morrera quando estava a ser transportada entre os hospitais lisboetas de Santa Maria e de São Francisco Xavier, por ausência de vaga na unidade de neonatologia do principal hospital do país.

Para a ministra que os portugueses se habituaram a ver anunciar, às vezes com aparente frieza, dezenas ou até centenas de óbitos nas conferências de imprensa diárias de ponto de situação da pandemia de covid-19, a morte da mulher de 34 anos, grávida de 31 semanas, foi o que António Costa admitiu ser “a gota de água” para Marta Alexandra Fartura Braga Temido de Almeida Simões, nascida há 48 anos em Coimbra. Sendo certo que, ao contrário da frase atribuída a Estaline, a morte de alguém pode ser tragédia e estatística em simultâneo, terá sentido que desfechos tão funestos quanto o da capital poder-se-iam ter multiplicado no Verão horribilis do Serviço Nacional de Saúde, com urgências fechadas por falta de médicos e casos tão aberrantes quanto o da grávida do Seixal levada de madrugada para Santarém, e que acabou por ser mãe nas Caldas da Rainha.

Com quase quatro anos à frente do Ministério da Saúde - para os completar terá de ficar até 15 de Outubro -, Marta Temido destacou-se por muita retórica e não raras medidas contra privados, e pelo confronto permanente com sindicatos e ordens profissionais. Mas também por ter parecido destinada a mais altos voos.

Há um ano, no congresso do PS, em Portimão, onde recebeu o cartão de militante das mãos de António Costa, o secretário-geral (e primeiro-ministro) admitiu que a governante - tão capaz de gerar ódios quanto devoção - poderia entrar na corrida para lhe suceder. Talvez fosse uma “cortina de fumo” contra Pedro Nuno Santos, mas saltava aos olhos o fascínio da ala esquerda pela ministra que lidou com a pandemia e admitiu gostar de ouvir “A Internacional” (à qual chamou “Hino da CGTP”) quando está irritada.

Ler mais