Marta Temido: a saúde precisa de cuidados intensivos



O Serviço Nacional de Saúde (SNS), peça central da narrativa propagandística do Governo, está a precisar de cuidados intensivos. Não é de agora, mas a situação agrava-se a ritmo acelerado. E o rosto desta crise, com picos caóticos que levaram ao encerramento de diversas urgências hospitalares nos últimos dias, é o da ministra da tutela. Que por vezes fala como se fosse recém-chegada ao cargo. Mas não é: Marta Alexandra Fartura Braga Temido de Almeida Simões, de 48 anos, conduz o Ministério da Saúde desde Outubro de 2018. Recebeu elogios pelo combate à pandemia; a mesma lógica leva-a ser criticada neste momento de notório desgaste do SNS, incapaz de dar resposta aos problemas que se acumulam sem solução à vista.

Nenhuma máquina de propaganda oculta as evidências. “Existe um problema estrutural sério no SNS, que se está a agravar muito, de incapacidade de planeamento e gestão de recursos”, declarou há dias Adalberto Campos Fernandes, antecessor de Marta Temido, pondo o dedo na ferida em entrevista à CNN portuguesa. É médico, foi ministro, sabe bem do que fala.

A profissão está envelhecida, o sector público há muito deixou de ser aliciante. Cerca de 40% dos clínicos de medicina geral e familiar têm mais de 65 anos. Os serviços de atendimento permanente revelam incapacidade de organizar escalas face aos recursos disponíveis. Os médicos somam mais de oito milhões de horas extraordinárias no SNS, tendo atingido em Maio o limite máximo previsto para o ano inteiro.

Metade dos obstetras já transitaram para o privado. E a situação agrava-se neste período em que todos os dias recebemos milhares de turistas. O caso de uma grávida que perdeu o bebé por aparente falta de especialistas no hospital das Caldas da Rainha introduziu uma componente de tragédia num quadro que se tornou dramático, desmentindo a imagem de inefável modernidade que o Governo tenta exibir ao mundo para atrair visitantes.

A ministra, que parecia desaparecida, falou enfim esta semana. Mas quase nada disse, refugiando-se numa oratória sem conteúdo, truque retórico que aprendeu com António Costa quando nada há de concreto para anunciar.

Não adianta iludir a questão, ocultando-a com torrentes de palavras. Os extenuados profissionais do SNS exigem de Marta Temido a revisão das carreiras, a garantia de melhores remunerações e a existência de condições de trabalho que lhes permitam exercer com eficácia a relevante missão que desempenham. Caso contrário, a sangria para os hospitais privados prosseguirá. Ou até o recurso à emigração.

Há em Portugal 1,3 milhões de cidadãos sem médico de família, contrariando todas as promessas feitas pelo primeiro-ministro em campanha eleitoral. Isto ajuda a perceber por que motivo 4,5 milhões de portugueses já optaram por seguros de saúde ou subsistemas como a ADSE.

Todos fazem um diagnóstico preciso da situação. E sabem que nenhum problema sério nesta área se cura com ideologia ou hossanas incessantes a um serviço público que necessita de atendimento urgente. Para não sucumbir de vez.

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