Marcelo Rebelo de Sousa: como vitamina num país de crise em crise



Quem receava que o Presidente da República se tornasse figura decorativa, desvirtuando o espírito da Constituição de 1976, enganou-se redondamente. Pelo menos com este titular. Marcelo Rebelo de Sousa acaba de dar outra prova disso: vendo a direita em acelerada convulsão e a esquerda roída por crescentes pulsões tribais, alertou para os riscos de um prolongado impasse político, rejeitou um cenário de pântano e deixou claro que teremos Orçamento do Estado ou eleições antecipadas. Compete aos partidos escolher.

Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa, 72 anos, foi reeleito há nove meses, consciente das imensas dificuldades que o aguardam neste segundo mandato, por eleitores com salários médios cada vez mais próximos dos patamares mínimos, vendo adiado o sonho da “reconstrução” a que ele aludiu no discurso de vitória, em Janeiro. Obteve mais 122 mil votos do que conseguira em 2016. De então para cá, tem usado toda a sua magistratura de influência para atenuar distâncias entre aquele Portugal cada vez mais exíguo da gente realmente próspera e um vasto Portugal povoado de pessoas concretas a quem o rendimento mal chega para cobrir as despesas do mês.

Há quem sobrestime o papel das agências de comunicação na formatação de políticos. A verdade é que nenhuma agência seria capaz de fabricar um candidato com a soma das virtudes mediáticas de Marcelo. O actual chefe do Estado - que andou quatro décadas a preparar-se para a função que hoje desempenha - não necessita dos préstimos de comunicólogos encartados: basta-lhe a conjugação do instinto político com o talento que até os seus mais empedernidos adversários lhe reconhecem.

Em tempos que convidam à depressão colectiva e ao afastamento entre eleitores e eleitos, ele persiste em fazer a diferença. Com um sorriso aberto, um abraço solidário, uma palavra inspiradora. Sente-se bem na sua pele e não o esconde. Funciona como vitamina num país em que a melancolia é exibida como imagem de marca, decepcionando quem desejaria ver em Belém um jarrão grave e sorumbático.

“O poder nada é sem autoridade”, ensina a Rainha Isabel II. Sabe bem do que fala: já viu chegar e partir 13 chefes do Governo - Boris Johnson é o número 14. Se a autoridade impera pelo exemplo, o poder vinga pela permanência. Quanto mais o jogo partidário agrava os problemas, mais o chefe do Estado potencia a solução. Como os antigos zeladores e cuidadores do reino.

Marcelo sempre foi republicano, mas a comparação com a Monarquia não é descabida. Rei ou rainha não necessitam de apelidos “legitimadores”. E nome de monarca raras vezes deixa de estar na moda através dos séculos. Basta lembrar os nossos, de Afonso a Manuel, passando por Maria.

Mais de cem anos de República deram-nos 19 chefes do Estado. Mas só dois foram popularizados pelo nome de baptismo: o primeiro foi Sidónio, que Fernando Pessoa crismou de Presidente-Rei; o segundo é o actual inquilino do palácio à beira-Tejo.

Marcelo, apenas Marcelo. Em nome próprio: assim falarão dele os futuros manuais de História.

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