Lula da Silva: regresso de um sobrevivente mas sem estado de graça

A história de Lula da Silva confunde-se com as presidenciais em democracia porque o fundador do Partido dos Trabalhadores participou, como candidato ou como apoiante e defensor de pretendentes ao cargo, em todas as eleições directas realizadas desde 1985.



Luiz Inácio Lula da Silva está, outra vez, a caminho do Palácio do Planalto, em Brasília, o edifício projectado por Oscar Niemeyer que é sede do poder executivo federal brasileiro, onde está instalado o Gabinete Presidencial do Brasil, depois de ter sido eleito, pela terceira vez - e tendo sido o único a consegui-lo -, Presidente da República Federativa do Brasil.

A história de Lula da Silva confunde-se com as presidenciais brasileiras realizadas em democracia porque o fundador do Partido dos Trabalhadores (PT) participou, como candidato ou como apoiante e defensor de pretendentes ao cargo, em todas as eleições directas realizadas desde 1985, sendo derrotado por três vezes, por Fernando Collor de Mello, primeiro, e por Fernando Henrique Cardoso, depois, até chegar ao poder, em 2003. Tentou ser candidato em 2018 mas, por ter sido condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, em segunda instância, ficou fora da corrida, a que assistiu da prisão, apoiando Fernando Haddad, do PT, e vendo Jair Bolsonaro ser eleito.

Depois de 580 dias de prisão e de o Supremo Tribunal Federal ter anulado as condenações de que foi alvo na operação Lava Jato, por considerar que não foram respeitados os seus direitos, Lula da Silva voltou à política e, agora, ao Palácio do Planalto, conquistado três dias depois de completar 77 anos de idade, mas por uma margem mínima, de 2 milhões e 100 mil votos em mais de 118 milhões de votos válidos, a mais escassa diferença desde que existe segunda volta eleitoral.

É um regresso, mas em condições significativamente diferentes das que viveu quando foi Presidente pela primeira vez. Lula venceu, mas alavancado por uma extensa plataforma de apoio, com uma abrangência que junta esquerda, centro e direita com o fito comum de derrotar Bolsonaro. Depois, não foi a máquina do PT que esteve, fundamentalmente, por trás da candidatura, porque o partido ainda está em escombros e longe de ter sarado as feridas de operações como o Mensalão e a Lava Jato, que atingiram altos quadros governamentais e do partido. Também porque o país está dividido a meio, como a eleição mostrou, e polarizado, como a campanha, as manifestações e os bloqueios vão demonstrando.

Isto quer dizer que o período de “estado de graça” será escasso ou inexistente, mas estamos a falar de um sobrevivente político, que se adapta. É no terreno e no exercício do poder que se mede o sucesso e Lula da Silva já mostrou ser capaz de ultrapassar a adversidade, desde o início, quando o sindicalista com propostas percebidas como radicais se tornou um moderado, transversalmente aceite, com uma taxa de aprovação de 75% no primeiro trimestre do seu primeiro mandato, em 2003, e um recorde de 87% no último mês do segundo mandato.

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