Luís Montenegro: à procura do tempo perdido em casa de uma maratonista rosa

Em vez de se fiar na fortuna, o novo líder geriu o congresso com mestria. Afastando o risco de os trabalhos serem a autópsia do longo e infrutífero consulado de Rui Rio, ajudou o antecessor a fazer uma saída digna.



Já se sabia que o 40.º congresso do PSD seria de entronização para Luís Filipe Montenegro Cardoso de Morais Esteves, nascido há 49 anos em Espinho. Mais incerta era a dimensão da vitória do novo líder social-democrata, que no fim-de-semana passado se viu aclamado, com a moção estratégica aprovada sem votos contra e apenas duas abstenções. Mas também os órgãos nacionais que elaborou com extremo cuidado mereceram um grau de apoio que há muito tempo não se via nas hostes sociais-democratas, com maioria absoluta e folgada para a lista para o conselho nacional, encabeçada por Carlos Moedas, e apenas 17 votos nulos e 43 em branco a destoarem dos 661 que aprovaram a nova comissão política nacional.

Instalado na primeira fila da plateia do Pavilhão Rosa Mota, recinto da cidade do Porto que homenageia a campeã olímpica da maratona, conhecida pelas ligações ao PS, Montenegro geriu o arranque oficial do mandato conquistado nas eleições directas de 28 de Maio bafejado pela sorte da crise político-aeroportuária que enfraqueceu o actual primeiro-ministro e o ministro que muitos prevêem poder surgir-lhe pela frente nas legislativas de 2026. Mas, em vez de se fiar na fortuna, o novo líder geriu o congresso com mestria. Afastando o risco de os trabalhos serem a autópsia do longo e infrutífero consulado de Rui Rio, ajudou o antecessor a fazer uma saída digna, com poucos além do líder parlamentar cessante Paulo Mota Pinto como dissonâncias.

Montenegro soube e conseguiu rodear-se das eminências do PSD, pois além do presidente da Câmara de Lisboa no conselho nacional tem os ex-candidatos à liderança Paulo Rangel e Miguel Pinto Luz na sua reforçada equipa de vice-presidentes. Já sem faltar da recuperação dos “proscritos do rioísmo” Margarida Balseiro Lopes e António Leitão Amaro e da presença dos próximos Paulo Cunha e Hugo Soares, este último como o secretário-geral que terá de mobilizar o PSD para batalhas em que está em causa o regresso ao poder e a hegemonia no centro-direita. Por último, para o lugar que foi seu nos tempos de Passos Coelho terá Joaquim Miranda Sarmento, empenhado em ser muito mais do que “o Centeno de Rio” na liderança parlamentar.

Das suas intervenções, elogiadas pela assertividade e serenidade em tempos frenéticos na política, ficou a marca do início de uma maratona para quem está à procura do tempo perdido. Bem tentou ejectar Rio no conselho nacional extraordinário de Janeiro de 2019, regressando um ano mais tarde à carga nas únicas eleições directas do PSD que obrigaram a uma segunda volta. Falhou então, mas agora tem o seu tempo, com António Costa e André Ventura entre os muitos adversários que precisará de derrotar para atingir os seus objectivos.

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